
O escritor e o poder
Data 21/03/2026 11:46:15 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| O escritor não teme apenas a censura. Teme o aplauso do palácio. O poder não precisa queimar livros, Basta convidar o autor para jantar. Entre talheres de prata e promessas sutis, A palavra começa a emagrecer. Escrever é caminhar sobre uma corda Esticada entre a verdade e o conforto. De um lado, o abismo do silêncio imposto. Do outro, o abismo do silêncio comprado. O poder adora metáforas domesticadas. Prefere poemas que falem do céu Enquanto a terra arde. Prefere romances que distraiam Enquanto a história sangra. O escritor sente o peso invisível De cada adjetivo. Sabe que uma vírgula pode ser abrigo Ou triste rendição. Há noites em que ele pensa: “E se eu suavizar? E se eu calar apenas um pouco?” Mas a palavra, quando traída, Vira espelho, E ninguém suporta viver Olhando para o próprio rosto rachado. O poder muda de rosto, Mas conserva a mesma fome: Quer narrativas que o eternizem. O escritor, se ainda for escritor, Precisa escolher a quem servir: Ao tempo, ou ao trono. Porque o tempo perdoa os que resistem. O trono devora até os que o exaltam. E no fim, quando o poder já é pó, Resta apenas a página. E nela, gravada como cicatriz, A decisão que ele tomou. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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