O Café sem Açúcar

Data 27/03/2026 18:01:14 | Tópico: Prosas Poéticas


Passei hoje por uma cidade que conheço há muitos anos.
Seus moradores são eloquentes, quase devotos da literatura. Caminham entre livros e ideias como quem reconhece seus semelhantes e parecem preferir a companhia dos que falam a mesma língua das palavras.

Entrei em uma cafeteria. Preferi ficar do lado de fora. Há algo na tarde que me chama para o ar livre quando tomo café. Gosto dele forte, sem açúcar como quem aprecia a verdade das coisas sem adorno.

Sentei-me em silêncio e observei.

Um deles estava rodeado de mulheres.
Todas inclinadas na direção de sua presença, disputando pequenos gestos de atenção. Pensei sem malícia, apenas com um leve sorriso interior: são tietes.

Continuei com meu café.

Aquilo não me incomodava. Curiosamente parecia incomodá-lo. Eu sabia que ele me observava. Mesmo cercado de atenções, parecia não conseguir sair daquele centro de admiração onde estava preso.

Quando me levantei para sair, ouvi uma voz atrás de mim.

— Tome um café comigo?

Olhei para trás. Era ele agora de pé, como quem precisa tornar visível o próprio gesto.

Inclinei-me em agradecimento e expliquei que não poderia aceitar. Havia muita aglomeração para um café e eu não demoraria ali.

Então ele veio até minha mesa e disse com um brilho tranquilo na voz:

— Eu já pedi o café e me adiantei em dizer que sabia como você gosta.

Sorri diante da ousadia delicada. Aceitei, mas adverti que seriam apenas poucos minutos. Tinha um compromisso e não poderia demorar.

Ele concordou.

Sentou-se e começou a fazer muitas perguntas. Perguntas curiosas, atentas, quase investigativas.

Respondi poucas.

Não por desinteresse, mas porque há conversas que prefiro deixar respirar no espaço do silêncio.

Bebi o café devagar. Entre perguntas e respostas curtas, percebi algo curioso
Talvez ele estivesse menos interessado nas minhas palavras do que no fato de eu não disputar as dele.

Algumas presenças inquietam mais quando não pedem nada.

Terminei o café. Agradeci com a leve inclinação de quem reconhece o gesto, mas não o transforma em promessa.

Despedi-me com a serenidade de quem sabe que certos encontros pertencem apenas àquele instante.

E voltei à tarde.

Ao ar livre, ao silêncio e ao gosto firme do café que prefiro. Forte, inteiro e sem açúcar.



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