Lux aeterna

Data 09/04/2026 17:42:52 | Tópico: Poemas

O
Opel Corsa
de mil novecentos
e oitenta e oito
novembros
range nas curvas da Falperra
e segues na fúria da chuva,
no canto da boca um
cigarro apagado, calado, colado;
no canto da boca,
Rita.
Lux aeterna.

Dissesse o teu nome mil vezes
e o nome não cansaria, não cederia,
solene e litúrgico, talvez como duas missas, um terço
e duas graças: o teu nome, Rita,
dito até perder o corpo e o sopro:
síncope fatal.

Rita santa. Rita puta. Rita de Jó.
Rita de Rimini. Rita de Sartre.
Rita dos dióspiros.
Rita.

No aparelho de leds azuis, o Bruno Mars
diz que se mata por uma fêmea de homo sapiens que mal conhece,
e o som metálico cruza o ranger das curvas
com o silvo fino das agulhas da chuva no carro,
como se tudo fosse o mesmo ruído
em variações mínimas.

Rita.
Lux aeterna.

Conduzes serra acima,
até onde as nuvens encontram a terra
e a Falperra se afina, cansada,
perdendo corpo e sopro; síncope fatal.

A teu lado, a prima Sandra veste de negro
como nos filmes italianos e espanhóis,
e acompanha o movimento dos faróis com temor,
vinda da visita molhada à campa da avó,
que habita o talhão da família à sombra dos ciprestes
desde o tempo da pandemia;
no colo, a caixa do galo de Barcelos,
memória inútil
de um tempo que não se viveu.

Afasta-se da loucura do marido,
que enterra cantoras imaginárias no quintal
ao som de músicas antigas,
escavando cada vez mais um mundo só dele,
um mundo de pêssegos gibraltinos,
um mundo de flores,
selos,
livros,
bicicletas,
sinos,
caixões,
um inventário íntimo
de crianças falecidas.
Voltou para casa
depois de um internamento inútil no hospital da Lapa,
no pavilhão ao lado das meninas da pedopsiquiatria.
Gritava em desespero
pela parte que fora atropelada,
matando-lhe a poesis,
essa coisa que o prendia
à lucidez
e
lhe permitia escrever textos
no Luso-Poemas.

Dois Zoes,
um azul bebé e outro bege,
descem pachorrentos e sem pressas
e
cruzam-se, melancólicos, contigo.

Rita.
Lux aeterna.

Segues em direção aos montes
da Citânia de Briteiros,
onde a história matou todos os homens,
todas as mulheres
e todas as crianças
e onde Caim vagueia algures,
sem destino, desmemoriado.
O Atlas das Palavras Mortas,
dizes casualmente à prima Sandra:
um livro que lhe deixaras num outono deprimido,
quando ainda vendias pokes.

Rita.
Lux aeterna.

Sem aviso,
fechaste os olhos e imaginaste-te a tocar
o Claire de Lune ao colo do teu pai,
no pinhal quente do Camarido
em verões de antigamente.
Foi um segundo. Talvez dois.
Foi uma eternidade.
A Falperra reclamou a Rita,
e a prima Sandra com ela.

O galo de Barcelos rolou
ensanguentado
estrada abaixo.

Rita.
Mea lux aeterna.
Mea lux aeterna.
Mea lux aeterna.


Este texto vem de Luso-Poemas
https://www.luso-poemas.net

Pode visualizá-lo seguindo este link:
https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=383318