A consulta - 16/04/2026

Data 16/04/2026 22:20:01 | Tópico: Textos

Quinta-feira, 16
- Ele parece com meu filho – disse uma senhora com os olhos brilhando e os cabelos brancos ao ver um médico passando – Ele parece com meu filho – repetiu com mais intensidade para a nova amiguinha ao lado. O murmúrio de muitas e várias vozes ecoam no imenso hall de espera da Clinica dos Idosos na Cohab. Jamiroquai no fone de ouvido que o poeta ouve.
- Oh! Meu amor pode ficar a vontade – desculpa-se a mesma gentil senhora para um senhor que pede licença para sentar na cadeira ao lado onde repousava a bolsa e umas sacolas dela.
- 24 – Urologista – chama o auto falante. A do poeta é vinte e oito. Fica de stand bye.
Como sempre o poeta se olvidou, a senha é vinte e um – graças ao sinhozinho ao seu lado e ao ver a senha dele disse-lhe : - Já chamaram o seu numero e duas vezes.
Sr. Com deixou a mochila no assento da cadeira e dirigiu-se ao balcão, meio encabulado e retardatário – entregou a requisição do retorno e o cartão da senha a atendente, consultou uma lista a mesma que o rapaz da recepção o fez.
- Tudo bem. Pode esperar – disse-lhe mecanicamente sem nenhuma emoção e o poeta voltou ao seu lugar e o Gun’s Roses o acompanhava.
Ficou triste ao ouvir a noticia da interdição do mestre e ex-presidente Fernando Henrique Cardozo pelos filhos – coisa triste. O velho Bamba sofreu de Alzheimer e ninguém pediu a sua intervenção.
Acordou tarde quase seis horas e correu para o quintal – urinar e banhar-se no tanque. O velho e inesquecível Chorão e uma de suas perolas – Dentro do 314- Vila Embratel apanhado em frente a quitanda de Gordilho, ainda fechada na avenida Sarney Filho, sorte uma cadeira vazia atrás do motorista, aboletou-se nela e sacou da mochila “Os sete ultimos meses de Anne Frank” de Wllly Linder (ontem a tarde terminou “Depois de Auschwitz” de Eva Schloss, meia-irmã de Anne) e com os fones nos ouvidos sintonizado na Jovem Pan desde a pensão. A fila dos ‘pixixitinhos’ na calçada do INSS do Parque do Bom Menino – um prédio bonito abandonado e caindo os pedaços – agencia funciona num anexo do fundo com acesso pelo estacionamento de lado. O poeta não entende porque o abandono da sede própria em detrimento de alugar uns pontos pela cidade. Desceu na Deodoro, passou na lateral da Biblioteca Publica e do Sesc e do antigo Liceu e para sua sorte com as bênçãos dos Deuses – um UEMA-IPASE. ‘Ebenezer!” – exclamou ao rolar catraca e senta-se na ultima cadeira perto da porta da saída – No Monte Castelo, o prédio majestoso da antiga Escola Tecnica Federal (hoje um centro tecnológico) ao lado da escola profissionalizante do SESI. A reforma do Hospital Aldenora Belo – Na Avenida dos Franceses na Alemanha, o Hospital da Criança, a CEMARC onde no outro lado onde fora a primeira Rodoviária de São Luís. O parque Veneza, sede da guarda municipal e em 1970. num arraial junino comemorou o tricampeonato da seleção com o pai. Debaixo do elevado do retorno da Ivar Saldanha, bem próximo do extinto Juizado do João Paulo, onde batera ponto por três anos como datilografo, até ser exonerado em 2000 a bem do serviço público – a velha e pioneira ponte do IPASE sobre poluído e estreito rio Anil ladeado por mangues. O shopping, o colégio Adventista e o elevado da Cohama e dobrando a Avenida Jeronimo de Albuquerque – Bequimão, Angelim, o túnel da Cohab e descendo em frente ao mercado, atravessou a faixa de pedestre, um cafezinho para arejar o corpo – a rua lateral da Maternidade e no fundo dela a rua da Clinica.
Uma coroa louríssima e bem vestida chamou atenção do poeta ao sair do banheiro pela segunda vez. Descobriu através do sinhozinho ao lado, a distribuição de lanche gratuito no fundo, onde acumula uma pequena fila.
O outro acompanhante de um senhor merendou e comentou sarcasticamente: “Cavalo dado não se olha o dente”.
O poeta hesitante não pode abandonar o posto, podem chama-lo e ai?
- Nove e cinquenta e nove – informou o locutor da Jovem Pan.
Uma senhorita passada levando a mãe num modelito preto com uma fenda sobre a coxa esquerda – Bela e branca. Uma doutorzinha de jaleco branco desfila de volta ao consultório. Um jovem perneta, em pé, apoiando o toco amputado no andador e o pai sentado ao lado. A serviço-geral esfregando o piso no meio do salão alheia ao burburinho ao seu redor. Aos poucos as cadeiras e o ambiente desocupados.
Merendei rapidamente em pé no refeitório, uma boa salada de fruta num copo plástico. O sinhozinho ficou de stand bye . Outro que acompanhava o senhor, consultou e foram embora – moram no interior.
Enfim no corredor dos consultórios. Ninguém conversa, todos apático mergulhados nas suas ansiedades da espera.
Onze horas e as ultimas noticias: suspeitos são presos e o Maranhão eliminado da Copa Nordeste pelo Sport de Recife. Sou o segundo atrás de um senhor moreno nervoso olhando para as mãos. São quatro consultórios, todos com uma placa pendurada na porta “Aguarde em atendimento” – uma doutora seria num jaleco psicodélico sai abruptamente do seis.
Vou novamente ao banheiro, tomar uma dipirona e logico urinar e na volta, um senhor na minha frente. Mudo para a Mirante News e ele entra e a galera não gostou. Não fiz questão.
Quinze minutos depois adentro no almejado consultório e me deparo com três pessoas – o doutorzinho atrás do computador e os outros de jaleco de uma faculdade ao redor. Foram eles que olharam os exames e concordaram com o diagnostico do mestre – então falei-lhe que sentia dores ao urinar e da doutora Ana Beatriz e o novo exame de sangue – a culpa é minha por não ter continuado a medicar-me com o tanduo, ele me dar uma mostra grátis de quatro capsulas e diz-me que o remédio é de uso continuou. Passou os mesmos exames para o retorno em outubro. Apertei as mãos e sai.
No canto da rua, uns irmãozinhos descascavam uns cocos que ‘acharam’ em algum lugar, num trilho na calçada.
Apanhei outro UEMA-IPASE em frente a parada da maternidade Marly Sarney e refiz o mesmo percurso da ida. Na Alemanha, no final de uma rua o Colegio Municipal Luis Viana – de onde fui expulso por falta, passei dois anos gazeando aulas no começo dos anos70. Desci no terminal da Praia Grande, urinei e embarquei num Piancó-Via Jambeiro – cheguei na vila Embratel uma da tarde na parada e frente ao rei do Salgado no canto da 18 com avenida. Passei na padaria Renascer da praça Sete Palmeiras, Vila Embratel, apanhei quatro pães e as duas laranjas na irmãzinha.
Almocei um bom ovo frito arroz e feijão e meia hora depois um Tanduou. Aleluia! Obrigado senhor!




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