
O mundo do sr. Con
Data 30/04/2026 10:46:34 | Tópico: Textos
| Con dormira bem, pois não fizera a siesta depois do almoço. O quarto estava uma bagunça, um enorme andaime aramado bem no meio e a cama sem os colchões. O chão embolorado pelas massas de cimentos que caiam do reboco quando o pedreiro Zé Grandão a trolhava. Passou a tarde navegando no you tube assistindo documentários sobre a vida selvagem nas planícies norte americanas e sobre as expedições polares – a briga entre Peary e Cook pela conquista do Polo Norte e de Amundsen a Antártica. Além da estante de cano que serrara os pés enferrujados, ganhou também um colchão de mola e um lençol da bondosa senhoria. Um monte bosta de jumento jazia a beira da calçada em frente a casa da família de Estranho – na esquina da avenue Sarney Filho e 18 street – na lateral da praça das sete palmeiras. Mas abaixo na mesma avenida entristeceu-se ao reconhecer o seu amigo, o pintor Valdir dormindo candidamente com as mãos no peito na calçada do bar de Dona Jurema. Cena deprimente que já vivenciara na época do álcool passado. As sete e meia da manhã encerrou o expediente, após cortar a segunda chapa, a do meio do portão. Tranquilo com a consciência, pois ontem a tarde falara com uma das donas do portão e comprometeu-se a entrega-lo na próxima semana, sem especificar o dia. Malandro! Seu Raimundo da bicicleta gostava de conversar com Com, este o ouvia com atenção e respeito que ele tanto prezava – rememorando a sua infância dura no interior do município de São Bento. Aos sete anos, acordava as cinco horas para trabalhar com o pai e o irmão mais velho na olaria, fazendo telhas e tijolos de barro. As dez horas, os três iam pescar num campo, cada um com um improvisado caniço e o cofinho de palha na cintura. Horas depois retornavam para a casinha de adobe, deixando os peixes aos cuidados da mãe e da irmã. Comiam umas bananas com farinha e voltavam para a lida na olaria até as seis da tarde. Banhavam-se no rio e casa para comerem o cozidão de jejum feito no leite de coco e cebola de jirau. E dormiam, nas suas redes. O pai não bebia, apenas mascava fumo de rolo, muito rude e de poucas palavras, qualquer atrapalho a bofetada comia em riba da cara. E assim foi criado: - Meu caro barbudo, eu não mudei o meu jeito. Sempre fui assim. As vezes asso meu peixinho na brasa da lenha. Mas tem gente que vem para cidade, que ser todo importante, não come qualquer coisa. Eu não – Ele tem quase oitenta anos, baixinho, encarquilhado, ainda bem disposto vai pescar com os amigos, apesar de não ouvir e nem enxergar bem não depende de ninguém, mora sozinho é viúvo, mas tem uma namorada com quem se encontra todas as sexta-feira para beberem e comerem a vontade. Não relaxa a sua bicicleta Monark, a companheira de mais de quarenta anos, desde quando era vigia no Mercado da Vila Palmeira. O pulso e a mão direita continuam inchados. Teimoso reluta em procurar um medico. Não desce mais ladeiras, pois não tem força para pressionar o manete do freio traseiro. - Meu caro barbudo, hoje vou comer comida de puta... arroz com salsicha –Deu uma gostosa risada, levantou-se acendeu o cigarro com dificuldade e saiu empurrando a companheira. Os habitués quase não deixaram Con reler Hemingway e seu alter-ego Nick Adams, a infância a beira do exuberante lago Michigan, pescando com o pai, que era medico e também como ele se suicidou com um tiro de revolver. Con hesitava se pedia ou não dez reais emprestados do seu Costa, o barbeiro vizinho. Depois que fechou a oficina o encontrou em pé da porta do salão: - Seu Costa, dá para o senhor me emprestar dez reais até quarta-feira? Houve um silencio constrangedor, Seu Costa bateu no bolso da camisa. - Sim, seu Costantino – entrou no salão, abriu uma gaveta e estendeu a cédula de dez para ele. - Obrigado, Seu Costa. Se alguém procurar por mim a manhã, diga que vou chegar as onze. Despediram-se. Com aliviado subiu a ladeira com uma sacolinha, levando as letras dos ferros de gado para faceá-las no esmeril na oficina de Tio Karl, no bairro do Portinho, centro. Na pensão, o pedreiro Zé Grandão caiava com cal plastificado a sala do computador e sr. Kanf retelhava o telhado da cozinha, tirando umas goteiras. Deixou as tralhas sobre a cômoda e zarpou para o mercado, molhar a garganta. Bebeu uma dose de agua de fogo com o pedreiro Hal e Marcos na Praça do Bacurizeiro. Ao entrar no comercial de Bruno dentro do mercado fui surpreendido pelo irmão dele que me perguntou: - Cadê o Sr. Con? – fiquei em estado de graça, disse que estava lendo as minhas crônicas e o melhor gostando. Que legal. Quando falei isso para ele resmungou como de seu costume: - Que porra de reconhecimento, eu quero é beber uma lata – saiu para comprar umas no próprio Bruno. E o irmão o reconheceu pela foto.
Era meio-dia de sábado. Con careta e seco, nada de lata e nem mesmo um misero gole de agua de fogo com os meninos da praça do Bacurizeiro. Nem o compadre, nada. Cansado de uma manhã bem cansativa, começara cedo com um passeio de quase uma hora a pé até o bairro do Desterro. Beautiful – o poeta se entrega a esses momentos a deambular sem compromisso, mas numa missão. A barragem do Bacanga, a lagoa e seus pescadores flutuando sobre suas frágeis canoas em pé jogando a tarrafa ou como dizem tarrafeando. Um espetáculo digno de um quadro de Cezàne ou Renoir. A travessia perigosa da avenida. As comportas. Tudo é motivo para festa aos olhos do poeta. O colorido, o burburinho urbano de veículos apressados. No Desterro, uma caminhada sentimental pela a rua de seu nascimento. Tudo abandonado e fechado. As janelas nuas ao vento, os telhados desabando, o silencio constrangedor – uma tapera com os arbustos brotando nas brechas dos surrados paralelepípedos, lixos nas calçadas. A metamorfose da fachada da outrora casarão dos Bambas. Berço de sua vida e morada. O coração confrangeu, uma melancolia percorreu em suas veias sexagenárias que iniciou-se ali, naquele terraço e a grade inexistente na época de B.Silva & Cia. O bairro todo cheira a mofo. Passou pela travessa da Lapa, Portinho – o escritório do amigo fechado, assim como a oficina – ainda era bem cedo para os padrões locais. Seguiu para o Mercado Central – o grande templo original de abastecimento – uma referência na cidade toda – trilhou primeiro por fora, contornando os quatros cantos com seus comércios atacadistas. Dentro passou no box de mestre Lelis, o grande Nezinho Guterres sentado num banco classicamente com pernas cruzadas batia o ponto com um copito da mardita. A filha de Lelis que atendia. O encontro com Pelado, amigo de adolescência. Voltou para a travessa da Lapa para sua alegria a oficina de Tio Karl aberta. Tudo bem e perfeito – o retorno a pensão e a surpresa. Cadê as letras e a talhadeira que levou para amolar? Nada, vasculhou nervosamente a mochila e nada. Entrou em pânico. Quem o salvou foi a senhoria emprestando-lhe o dinheiro da lotação. Vai e volta num pulo só. O quarto todo salpicado de cal, assim como os livros, a cômoda, o lençol talvez a até a sua alma. Sem opção caiu para dentro e o limpou com uma fúria de Titã. Enfim o descanso. Uma boa galinha gorda de ontem bem temperada e uma lata de Glacial que soçobrava num canto da geladeira desde domingo. Bebia deitado pensando no seu velho parceiro de praça e de infortúnio Ratinho ou Sr. Armstrong – faleceu o pobre coitado depois de quase um mês internado na UTI – Avc. Chateou-se por não poder vela-lo na rua 10 na casa de sua genitora – sentia-se muito cansado. Ratinho o perdoaria. Todos ficaram consternados, uma figura muito popular no mercado, onde fazia seus bicos – dando recado, pagar alguma coisa, entregar uma mercadoria ou até sacar dinheiro na lotérica, botando lixo na lixeira, lavando os boxs dos peixeiros – sempre ativo e pequenino e ora e outra uma branquinha para alegrar o espirito. Tranquilo e calado, mais muito irônico no bom sentido. Todas as manhãs antes do cagar dos pintos se encontravam casualmente na Praça das Sete Palmeiras, ele com a suas sacolas de latas secas de cervejas e o poeta com seus apetrechos literários. Trocavam algumas palavras, por ele Con ficava sabendo dos últimos acontecimentos na Praça do Bacurizeiro e na Vila também. É o caminho de todos nós... A noite encheu a cara com cinco latas custeadas pela senhoria, a guisa de empréstimo sem juro e dormira ao som rascante dos blues de Janis Joplin.
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