
O mundo do sr. Con -IV
Data 30/04/2026 20:16:09 | Tópico: Textos
| O quarto todo salpicado de cal, assim como os livros, a cômoda, o lençol talvez a até a sua alma. Sem opção caiu para dentro e o limpou com uma fúria de Titã. Enfim o descanso. Uma boa galinha gorda de ontem bem temperada e uma lata de Glacial que soçobrava num canto da geladeira desde domingo. Bebia deitado pensando no seu velho parceiro de praça e de infortúnio Ratinho ou Sr. Armstrong – faleceu o pobre coitado depois de quase um mês internado na UTI – Avc. Chateou-se por não poder vela-lo na rua 10 na casa de sua genitora – sentia-se muito cansado. Ratinho o perdoaria. Todos ficaram consternados, uma figura muito popular no mercado, onde fazia seus bicos – dando recado, pagar alguma coisa, entregar uma mercadoria ou até sacar dinheiro na lotérica, botando lixo na lixeira, lavando os boxs dos peixeiros – sempre ativo e pequenino e ora e outra uma branquinha para alegrar o espirito. Tranquilo e calado, mais muito irônico no bom sentido. Todas as manhãs antes do cagar dos pintos se encontravam casualmente na Praça das Sete Palmeiras, ele com a suas sacolas de latas secas de cervejas e o poeta com seus apetrechos literários. Trocavam algumas palavras, por ele Con ficava sabendo dos últimos acontecimentos na Praça do Bacurizeiro e na Vila também. É o caminho de todos nós... A noite encheu a cara com cinco latas custeadas pela senhoria, a guisa de empréstimo sem juro e dormira ao som rascante dos blues de Janis Joplin.
As cinco e pouco da manhã de domingo, Sr. Con entrava no mercado da Vila Embratel no intuito de tirar umas duvidas soube que chegavam primeiro – Seu Manoel, o zelador disse-lhe que chegava as quatro para fazer a varrição total. E constatou in loco que eram os açougueiros, seguido pelo pessoal das galinhas. Uma solitária verdureira arrumava seus produtos na sua banca improvisada de madeira... depois de percorrer todas as dependências, saiu satisfeito e depois os peixeiros, as verdureiras e os merceeiros. Saiu pelo mesmo portão que entrou, o da Avenida Sarney Filho – os sacolões em pleno vapor com seus esbaforidos funcionários ajeitando as bancas. Contornou o canto da rua 16 na lateral do mercado, com suas lojas de confecções, de materias de construção e etc e tal – todas ainda fechadas, abririam somente quase as sete e meia. Na Praça do Bacurizeiro, os meninos amanheceram chupetando uma garrafa de Pitu – Seu Rubens, Esquerdinha e uma senhora gorda sentados e o pintor Valdir em pé. Con os cumprimentou e saiu de fininho. A quadra super iluminada sem ninguém. A rua 17, a outra lateral, era a rua dos bares e restaurantes. Na Praça das Sete Palmeiras abancou-se no seu banco favorito e caiu na releitura de “O Planeta de Sr. Sammler”, sendo interrompido com a chegada inusitada de seu amigo, o velho Samuca, pedreiro e funcionário do estado, com um copo de café com leite e um pão. Dormira na casa de Dona Neva. Sentara ao lado e começaram a confabular. Então o diabo é moleque, enviando Derla que sentou-se entre eles e sacou uma bonita ‘bia’ enrolada num papel de saco de pão e sem nenhuma cerimônia o acendeu, deu uns tragos e passou para o Sr. Con que não hesitou em dar uns tapinhas de leve para harmonizar-se com o universo interstelar de sua entorpecida mente. Fazia uns meses que não dava uns paus na macaca. Fora viciado por quase trinta anos, agora fumava recreativamente, sem compromisso e quando algum velho conhecido o convidava. Mas temeroso levantou-se, agradeceu Derla e convidou o velho Samuca para descerem a avenida. No Cardoso ficara algumas horas, bebeu um bom café que o amigo Little Fat lhe ofereceu e subiu o morro. Passou novamente na praça do Bacurizeiro, na quadra a rapaziada jogavam uma partida amistosa, os papudinhos aumentaram e estavam em pé, rente a sombra do muro do mercado e a garrafa seca. O sol abrasava o banco deles. Zito e Tia Elza andavam de um lado para outro injuriados por que todos queriam beber, mais ninguém queria inteirar outra garrafa. Con os cumprimentou e entrou no mercado, passou no box de seu Raposo, deu aló. - Good morning, my english teacher! – gritou para Seu Luis, que atendia uma cliente – How are you? Atravessou a estreita avenida, o homem do porco ainda estava no mesmo lugar debaixo do toldo do rei do hamburguer e sobre a banca um bonito coxão. Na pensão, mudou de roupa e foi digitar seus textos ouvindo choros do bom Pixinguinha e a grande dama Clementina de Jesus. Terminando confinou-se no quarto e voltou a ler com tranquilidade até as onze, quando deu uma campeada pelo mercado em busca da panaceia para sua fissura alcoolica. O compadre a muito custo pagou-lhe uma lata e batido voltou para os seus humildes aposentos. A pensão e os convidados da sra. Vince, Ela lhe ofereceu um pouco de vinho e uma lata de Petra, era véspera do aniversario dela – setenta e poucos anos.
Finalmente na manhã de segunda-feira, contrariando a sua politica trabalhista de não trabalhar nesse dia, cortou a ultima chapa e ajustou as outras duas. Mesmo assim continua cabreiro, achando que vai dar algum ‘chabu’ – jovem pai inexperiente, todo pimpão, carregando desajeitadamente o seu pequeno rebento e um guarda-chuva, a jovem mãe toda alegre atrás comentando alguma coisa. O céu encoberto como o dos invernos siberianos – cinzento e sem sol. Katchengo trouxe um carro de mão para soldar um braço quebrado. Con o olhou e negaceou: - Não tem jeito – vaticinou. Um tipo de trabalho que vinha evitando, muito chato que não valia apenas fazê-lo. O senhor do ferro de Viana olhou a peça e aprovou e combinou de vim busca-lo no sábado. O de Dona Bilu quase pronto..... . E passou o resto da manhã lendo o “Tatuador de Auschiwitz a tarde um bom filme baseado em fatos reais “O Ultimo Yahi” com John Voight e Graham Greene Na manhã seguinte, após uma breve passagem pela Praça do Bacurizeiro, as cinco e meia da manhã, minutos depois chegaram o pedreiro Pará com Dona Elza e sua cara-metade que destamparam um garrafa de pitu para benzerem o corpo – Von despediu-se deles e foi para a outra praça, terminar de ler “O Tatuador de Auschiwitz” -de Hearther Morris baseado em relatos da sobrevivência no inferno – uma linda história de amor que deixaram os olhos de Con marejados devido a intensa carga emotiva. Como gostaria de viver e encontrar um novo amor para acompanha-lo, pensou na bela da rua 23, uma quase cinquentona que jura esta sozinha e não quer mais se envolver com ninguém. Ele achava isso inadmissível – uma bonita mulher e cheia de vitalidade decepcionada com os homens. “Oh! Deus – refletia enquanto descia a ladeira onde encontrou Seu Apolonio e o carroceiro maneta Mariano que lhe perguntou a queima-roupa: - Poeta, diz que Afonso morreu? – Afonso um dos decanos dos papudinhos, ex-arbitro de futebol amador da vila, internado desde semana passada na UPA do Araçagi com varias complicações. - Não seis, mestre Mariano. – respondeu O portão todo soldado, porém um pequeno acidente, um furo de solda no meio da chapa, tirando a alegria do poeta e de seu ajudante Gordinho. Seu Raimundo baixinho brabo, montou na bicicleta e caiu por cima da mão doente em frente a sua residência. Uma luta para se levantar, sem o apoio da mão direita com o pulso inchado, repetiu varias vezes a historia para Con.
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