
O homem da coluna envergada
Data 30/04/2026 23:34:52 | Tópico: Poemas -> Intervenção
| Somos uma geração de costas curvadas. Não pelo peso do tempo, Mas pelo peso das horas vendidas. Endireitamo-nos apenas quando nascemos Depois disso, a vida nos dobra lentamente Como quem dobra um papel Até caber dentro de um relógio de ponto. Nossas colunas não se curvam diante dos deuses, Nem diante do mistério do universo. Curvam-se diante de planilhas, Metas, Turnos, E promessas de sobrevivência. Há algo de trágico nisso: Trocaram-nos o horizonte pela repetição, E a mente, essa massa cinzenta Capaz de imaginar mundos, Foi comprada Em suaves prestações de salário. Vendemos pensamentos Para pagar o direito de continuar pensando. Assim nasceu o homem de coluna envergada: Não um derrotado, Mas um sobrevivente De um sistema que descobriu Que era mais lucrativo comprar o cérebro Se primeiro dobrasse as costas. E, no entanto, Há momentos perigosos para o mundo: Quando um trabalhador se endireita. Quando uma coluna cansada Lembra que foi feita Para sustentar o corpo erguido, Não para carregar eternamente O peso do lucro alheio. Uma coluna que se levanta É também uma consciência que desperta. E quando a consciência desperta, As costas deixam de ser apenas curvadas, Tornam-se espinha dorsal de revolta. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
Instagram @poetacacerense
|
|