O mundo do sr. Con - V

Data 01/05/2026 20:40:23 | Tópico: Textos

Ganhou quinze reais, deu cinco para Caçulinha guardar é da passagem para ir buscar a primeira e última parcela do auxilio de trezentos reais de papai Bolso que talvez receba amanhã. O compadre exultante recebeu uma bolada acumulada do auxilio – dizendo ele. – Pagou duas rodadas e Com humildemente apenas uma e trouxe duas para pensão.
A noite era um paraíso. Relaxado depois do banho e da ceia (as vezes não jantava). Recolhia aos seus humildes aposentos, deitava e lia ou escrevia. Ouvia a Voz do Brasil no canhestro radio de pilhas para inteirar-se das novidades políticas e judiciarias Um pouco de Balzac. Para ele “Eugenia Grandet” era um bom romance, o melhor do mestre. Ao rele-lo Con rememorava-o na sua friorenta mansarda na rue des Lesderguère, sozinho escrevendo a luz de vela, bebendo café e comendo bolinha de pão com sardinha, varando a madrugada. Dostoievski também escrevia nesse horário. Artur Hailey tentou, mas desistiu. A literatura sempre norteou a existência do Sr, Con. Nesses seus sessenta anos de boy já lera mais de seiscentos livros.. Em 1988 tinha duzentos exemplares, os trocou por uma maquina de escrever Olivetti. – restou apenas “As Aventuras de Nick Adams” de seu amado Hemingway. Recomeçou em 2009, quando uma namorada lhe presenteou-o dezenas deles – então voltou a comprar livros.... talvez esteja já perto dos trezentos.

Sentado no hall da Caixa econômica da Praça João Lisboa esperava pacientemente a sua vez. Apurou a vista boa para enxergar melhor o telão das senhas. Estava atrás de uma negona faladeira que parecia não bater bem das bolas
-180, bem, tá quase. Estou é nervosa e um frio na barriga – disse para o companheirinho que segurava os documentos – Bem, eu tô com fome.
- Te acalma, depois tu lancha.
- É bem, liga para Equatorial mudar aquele fio, acho que queimou a minha maquina. Bem, estou com fome.... disse baixinho como uma criança pidona.
Finalmente ela é atendida e começa o drama. Uma enrolada do caralho, o auxilio dela foi suspensa depois da terceira parcela. Ela fica nervosa e levanta-se saindo atrás do marido – Bem eu vou chorar.
Para o Sr. Con deu tudo bem e um saldo de seiscentos reais que sacou num caixa eletrônico da própria agencia. Vida longa ao presidente Bolso. – Agradeceu ao guardar as cédulas na surrada porta-cedula. Pagou três contas atrasadas de energia numa lotérica na Rua da Palma. No sebo Paço Prosa comprou dez livros – Khaled Hosseini “Caçador de Pipas”: Maughan, Tenesse William e “Feliz Ano Velho” do grande Marcelo Rubens Paiva – ele tinha esse livro há quarenta anos atrás.
Com muita dificuldade tomava um caldo de ovos na lanchonete de Dona Conchita na lateral do mercado nessa sexta-feira, um dia e meio de muita cerveja e não comeu nada. A mão tremia como a de um tocador de pandeiro, Não trabalhou. Bebeu duas latas no compadre e trouxe mais duas para a pensão, as bebeu enquanto lia uma das perolas do escritor inglês Nevil Shute “Salto para o futuro” Excelente. Almoçou bem – bife ensopado, feijão e arroz – uma sobremesa de laranja....

Con queria controlar-se para não embriagasse, no entretanto bebera três latas desde cedo no mercado
Na pensão o burburinho dos convidados no terraço e as crianças correndo de um lado para outro. O poeta entrou, trazendo duas latas de Glacial, apenas acenou para os conhecidos. Apanhou o livro de O’Flaherty e uma lata e refugiou-se no fundo quintal a sombra da antiga casinha sentando-se na sua cadeira de macarrão. Assim poderia ficar longe do barulho e ler o maravilhoso livro. Ultrapassara a conta diária de latas e preocupava-se com o trabalho na manhã seguinte. Ainda havia uma latinha esperando-o no congelador. Uns arrotos nada discretos.
Mano Vince, um dos eméritos convidados o surpreendeu fazendo-lhe uma pergunta no meio do terraço:
- Cadé o senhor Con?
- O senhor conhece o Sr. Con?
- Claro dos seus textos. Onde é ele e Seu Costa, o barbeiro. São duas figuras que gosto muito – respondeu Mano Vince.
Depois do almoço caprichado: arroz temperado, macarrão, torta de camarão e logico a suculenta feijoada – ele foi a lona e dormiu a tarde inteira, quando despertou tudo era silencio, apenas o murmuro da televisão no quarto do casal e Caculinha limpando os excessos do almoço festivo. Ainda havia três latas no congelador e assim abriu uma. A noite pegou cinco latas no Bar de Jurema e apagou abruptamente.
Acordou na segunda feira indisposto para o trabalho, mesmo assim desceu para oficina a abriu e foi ferrar uma lata no Seu Cardozo. Para sua grata surpresa o velho Samuca apareceu para pegar o ferro de marcar gado de Dona Bilu e deu-lhe vinte reais. Então o diabo virou moleque, fechou a oficina e subiu o morro sem gravata. Deixou as chaves e o livro na pensão e rumou para o mercado, para o box de seu Raposo, começando tudo outra vez. E a noite para encerrar pegou mais três latas a credito na Jurema e foi bebe-las deitado até apagar por completo.
Despertou enjoado e com ânsia de vomito e sem força. Tremulo – passou a manhã toda deitado lendo e concluiu o primeiro livro de Nevil Shutes. Almoçou um sanduba de presunto.... e amanhã só Deus é quem sabe, o que seria dele. Os irmãozinhos do portão estão querendo o fígado dele. Que sujeito irresponsável, era para entrega-lo ontem... e agora poeta?

Con preparou os gonzos e os ponteou. Se quisesse poderia terminar o portão, mas preferia fazer devagar, as vezes na pressa sempre acontecia um problema. Esperava a qualquer momento, o Irmãozinho do portão.... O braço e mão direita de seu Raimundo continuava inflamado, quinze dias se passaram desde o acidente quando foi abaloado de leve por uma camionete e o derrubara da sua bicicleta. Todos aconselhavam a procurar um medico, mas turrão e teimoso fazia ouvido de mercador.
- Meu caro barbudo, fevereiro vai passar seco – disse em pé na calçada, vestido com uma camisa polo cor de vinho, um boné pintado de verde e uma bermuda jeans – De noite vejo o ceu que está com cara de verão – completou puxando um cigarro e acendendo-o com dificuldade. Qualquer movimento com a mão lesionada sentia uma dor.



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