Natureza vil.

Data 04/05/2026 00:07:37 | Tópico: Textos -> Surrealistas

Naquela noite das sete luas, ela reapareceu perante mim, misteriosamente. Ali, sentada, completamente branca, alva e pura. A lua primaveril resgata, sem dor, a Natureza vil. Está por nascer um novo mundo, um mundo cheio de malvadez que brota debaixo de pedras declives e rudes.
Levantou-se lentamente e aproximou-se com passos incertos no meio da neblina. Ao longe, ouço a água quase cristalina a correr pela íngreme cascata, sinto o cheiro da terra húmida, a brisa a bater no meu rosto e o assobiar de um ser ainda desconhecido.
Estes terrenos calvos e sedosos forçam bruscamente o nascimento de uma planície. Uma luz brilhante, forte e quente conforta esta nova vida. A dor sentida perante uma perda nunca fora antes atingida por vidas já passadas. Esta criatura espelha sofrimento e ódio pelos novos campos, ainda desenfreados pela sociedade mórbida.
Quando os seus passos incertos finalmente cessaram diante de mim, o frio da neblina dissipou-se num sopro que me trespassou a alma. Não havia pureza na sua alma, apenas o reflexo de tudo o que foi destruído. Ela estendeu a mão, não para me tocar, mas para me mostrar que as pedras debaixo dos meus pés eram feitas de antepassados que ignoraram a sua vinda. Naquele instante, percebi que a Natureza não se vingou, apenas retomou o seu lugar no trono. E eu, parado, deixei de sentir a amargura para me tornar habitante daquele mundo.


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