Sydney Sweeney

Data 17/05/2026 21:38:56 | Tópico: Poemas

Conheci há duas semanas,
entre o fumo dos cigarros
e o álcool da noite do juízo final,
uma rapariga
com as mamas da Sydney Sweeney.
Trabalha na cozinha do hotel
da avenida,
junto à estação dos comboios cansados.
Cozinha bolos para homens
tristes como eu, como nem
a chef Marlene algum dia cozinhará.
À noite,
quando o mundo cala a vida
e as ruas se alumiam
com cães vadios e almas perdidas,
colhe, vagarosamente,
as mágoas presas ao meu corpo
e queima-as
numa fogueira imaginária
que tenho no canto da sala.
Pouco lhe sei.
Chama-se Cátia
Talvez Catarina.
Chamo-lhe Cat para não errar.
Tem pestanas maiores do que os olhos,
mãos duras no trabalho, mas suaves no toque,
e uma maneira ausente de sorrir
de uma existência que é parca.
Costuma falar-me dos pais
e do irmão deficiente
que dorme numa cama
ao fundo da casa, numa vila perdida
das geografias interiores.
Solta sorrisos como tempestades
e caminha
com um certo medo de magoar o mundo.
Fala-me
de teorias do conhecimento,
de filosofia política,
de antropologia analítica,
do fim da civilização,
de amores perdidos, de amores impossíveis. De amores, enfim.
Faz perguntas difíceis
e olha para a ruína que sou,
como se fizesse uma tese de doutoramento
sobre a arquitetura de fábricas soviéticas abandonadas.
Mas o que mais gosto nela,
honestamente,
são as mamas da Sydney Sweeney.
Tão absurdas. Tão improváveis.
Tudo o que resta, enfim, de um incêndio que devastou o mundo.


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