A anatomia do remorso em um soneto de Brian Belancieri

Data 28/05/2026 22:04:08 | Tópico: Textos -> Crítica

Remorso — Brian Belancieri

Murmurareis em vão. Ninguém te escuta.
Nem será plácida a pedra polida
a que te recolheste: agora é bruta
a noite e seu pendor que cobre a vida.

Darás com teus leões, onças e lobas,
tais coisas que represa o travesseiro;
terás teu sono aos vermes: vespas gordas
que te perseguirão o dia inteiro.

E, entanto, enquanto pensas num regalo
tentando recobrar sonho menino,
que possa traduzir-se em algum dom raro,

vê desmanchar a pele, a carne, os ossos,
e escuta ao longe algum rachar de sinos:
sente moer o pó de teus caroços.

Há poemas que falam do remorso; outros, mais raros, conseguem instaurá-lo. O soneto de Brian Belancieri pertence a essa segunda linhagem. Não se trata de um poema sobre a culpa em sentido moral ou psicológico, mas da corporificação de uma força interior que corrói a percepção, invade o sono e transforma a consciência em território sitiado. O poema não explica o remorso: faz com que ele adquira matéria, som e perseguição. Desde o primeiro verso, a atmosfera é de condenação irreversível: “Murmurareis em vão. Ninguém te escuta.” Há aqui uma tonalidade profética, quase litúrgica. O verbo “murmurareis”, de ressonância arcaizante, confere ao poema um caráter oracular. Não ouvimos apenas um eu lírico; ouvimos uma sentença. O remorso surge como estado sem interlocução possível. Toda tentativa de fala fracassa antes mesmo de nascer.

A seguir, o poema constrói um espaço de clausura: “Nem será plácida a pedra polida / a que te recolheste”. A “pedra polida” é imagem decisiva. Nela coexistem sepulcro, isolamento e falsa proteção. A polidez da pedra sugere acabamento, repouso, talvez até certa aparência de ordem; contudo, o verso seguinte destrói qualquer possibilidade de abrigo: “agora é bruta / a noite e seu pendor que cobre a vida.” A oposição entre “polida” e “bruta” intensifica a ruptura afetiva do poema. A noite deixa de ser cenário e torna-se força de esmagamento. Não há transcendência possível; há cobertura, peso, sufocação.

Uma das maiores qualidades do poema está em sua coerência imagética. O remorso nunca aparece abstratamente. Ele assume formas animais e orgânicas. O inconsciente reprimido emerge como fauna persecutória: “Darás com teus leões, onças e lobas”. Esses animais não possuem função ornamental. São manifestações pulsionais do tormento. O poema converte culpa em ferocidade interior. Em seguida, surge um dos melhores versos do texto: “tais coisas que represa o travesseiro;” O travesseiro deixa de ser objeto doméstico e transforma-se em barragem psíquica. O verbo “represar” é extremamente preciso: sugere acúmulo, pressão e iminência de rompimento. O sono já não restaura; apenas contém provisoriamente aquilo que ameaça emergir. A sequência imagética cresce em violência: “terás teu sono aos vermes: vespas gordas / que te perseguirão o dia inteiro.” A matéria do remorso passa agora da animalidade à decomposição. Vermes e vespas instauram uma atmosfera de putrefação moral e física. A expressão “vespas gordas” causa estranhamento produtivo: há nela algo de excessivo, inchado, infeccionado. O poema compreende que determinadas experiências interiores só podem ser traduzidas por imagens concretas de deterioração.

Formalmente, o texto demonstra grande domínio rítmico. A musicalidade não é ornamental; trabalha em favor da tensão. Sons duros e ásperos percorrem o poema: “pedra polida”, “bruta”, “vespas gordas”, “moer o pó”. As oclusivas e fricativas criam sensação de atrito contínuo. Além disso, Belancieri utiliza o enjambement com inteligência expressiva. Em “é bruta / a noite”, a quebra intensifica o impacto da palavra “bruta”, suspendendo momentaneamente a imagem antes de sua revelação completa. O último terceto concentra a culminância afetiva do poema. O eu lírico tenta ainda recuperar alguma forma de inocência: “tentando recobrar sonho menino,” mas a tentativa fracassa imediatamente diante da decomposição inevitável: “vê desmanchar a pele, a carne, os ossos,” A progressão é brutal. O poema abandona qualquer delicadeza residual e entra em estado de dissolução material. Pele, carne e ossos formam uma descida vertical rumo ao núcleo da ruína humana. O remorso já não é sentimento: é erosão ontológica.

Então surge um dos momentos mais fortes do poema: “escuta ao longe algum rachar de sinos:” A imagem do sino normalmente associa-se ao anúncio, ao sagrado ou ao rito funerário. Aqui, porém, o sino não toca: ele racha. A transcendência também se fratura. O som não organiza o mundo; denuncia sua ruptura. O verso final encerra o poema com enorme potência: “sente moer o pó de teus caroços.” Há algo profundamente arcaico nessa imagem. “Caroços” remete ao núcleo duro do corpo e da memória. O verbo “moer” intensifica a sensação de trituramento interior. O remorso não apenas acusa: pulveriza. O grande mérito do poema está justamente em evitar a linguagem explicativa. Não há confissão psicológica, análise moral ou sentimentalismo. Tudo se organiza por meio de imagens concretas, ritmos tensos e vibrações sonoras. O poema compreende uma verdade essencial da poesia: certos estados humanos só podem ser plenamente expressos quando deixam de ser conceito e se tornam matéria sensível. “Remorso” é, nesse sentido, um poema de alta densidade afetiva. Sua força nasce da união rara entre elaboração formal e violência imagética. O texto não busca apenas representar a culpa; busca instaurar no leitor a experiência de uma consciência perseguida pela própria decomposição interior.



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