A liturgia do retorno em Pedro Mohallem

Data 01/06/2026 15:12:01 | Tópico: Textos -> Crítica

Firma teus olhos nesta areia rasa — Pedro Mohallem

(“Estamos indo sempre para casa.” — Raduan Nassar)

Firma teus olhos nesta areia rasa:
ela será teu pasto exílio afora.
Estamos indo sempre para casa.

Acalcanhando indiferente brasa,
a ti somente é que teu pé desflora.
Firma teus olhos nesta areia rasa;

o mais é um limiar que se defasa,
hortos de que o deserto se assenhora.
Estamos indo, sempre… Para casa

nos arroja o simum — raiz ou asa? —
e o cedro da memória, luz canora,
firma teus olhos nesta areia, rasa,

que fremente e contínua te extravasa.
Não esperemos por nenhuma aurora:
estamos indo sempre para casa.

O tempo há de trazer em rubra gaza
nosso punhal e nossa fé. Por ora,
firma teus olhos nesta areia rasa…
Estamos indo sempre para casa.


Algumas formas fixas parecem nascer de um paradoxo: avançam retornando. A vilanela talvez seja a mais radical entre elas. Seus refrães insistem não porque faltem palavras novas, mas porque certas experiências humanas só podem ser compreendidas pela recorrência. O retorno, nesses casos, não é repetição mecânica; é aprofundamento interior. Em “Firma teus olhos nesta areia rasa”, Pedro Mohallem compreende isso de maneira rara. A estrutura do poema é inseparável de sua experiência espiritual. Não haveria outro corpo possível para esse texto além da vilanela. O movimento circular da forma reproduz a própria condição existencial do sujeito poético: caminhar no exílio enquanto conserva, ao longe, a memória de uma origem.

Os refrães sustentam esse eixo duplo: “Firma teus olhos nesta areia rasa” e “Estamos indo sempre para casa”. Entre eles, o poema oscila como uma respiração entre contemplação e travessia. O primeiro refrão fixa a visão no deserto imediato; o segundo preserva a direção transcendente do percurso. Um ancora. O outro conduz. O mais admirável é que Mohallem evita transformar a repetição em mero efeito musical. Cada retorno desloca o sentido anterior. O refrão reaparece já atravessado pelas imagens que o cercam. Depois do “simum”, do “cedro da memória” e da “indiferente brasa”, a frase inicial já não possui a mesma limpidez contemplativa: torna-se resistência espiritual contra o esvaziamento do mundo.

A linguagem do poema trabalha continuamente com elementos de erosão e permanência. A areia, o deserto e a brasa pertencem ao campo da dissolução; já o cedro, a memória e a casa pertencem ao campo da permanência interior. O poema vive exatamente nesse atrito. Também por isso a escolha vocabular impressiona. Mohallem evita o excesso adjetival e seleciona imagens de grande densidade simbólica — “indiferente brasa”, “rubra gaza”, “luz canora” — sem que nada seja decorativo. Cada imagem amplia a atmosfera ritualística da composição.

Foneticamente, o poema possui um rigor extraordinário. As fricativas e sibilantes percorrem quase todos os refrães, produzindo uma sonoridade seca, aérea, desértica: “Firma teus olhos nesta areia rasa”. O “s” atravessa o verso como vento contínuo sobre superfície mineral. Já os “r” introduzem aspereza e atrito, impedindo que a musicalidade se torne excessivamente líquida. Há resistência sonora. Em contrapartida, certos versos desaceleram o fluxo abrasivo e instauram uma espécie de suspensão litúrgica: “o cedro da memória, luz canora”. As líquidas e vogais abertas expandem a respiração do poema. O som ganha profundidade contemplativa. O texto alterna, assim, secura e cântico. A própria rima em “-asa” — rasa, brasa, casa, asa, extravasa — reforça esse efeito hipnótico. A repetição sonora cria uma reverberação contínua, quase salmódica. A vilanela torna-se oração circular.

Um dos momentos tecnicamente mais sofisticados do poema aparece justamente quando Mohallem rompe a expectativa sintática criada pelo refrão: “Estamos indo, sempre… Para casa”. À primeira leitura, o verso parece concluir o refrão tradicional da vilanela. Contudo, o enjambement desloca o sentido para o verso seguinte: “Para casa / nos arroja o simum — raiz ou asa?”. O efeito é decisivo. “Para casa” deixa de funcionar apenas como resolução escatológica do percurso e passa a integrar a ação violenta do “simum”, o vento do deserto que arroja o sujeito poético entre dois polos fundamentais: “raiz ou asa?”. A pergunta reorganiza toda a tensão espiritual do poema. Casa já não significa apenas destino; torna-se problema ontológico. Permanecer ou transcender? Enraizar-se ou lançar-se? O poema sustenta essa ambiguidade sem resolvê-la completamente. Além disso, a quebra produz um impacto rítmico muito preciso. O verso “Para casa” abre momentaneamente uma sensação de repouso e chegada, imediatamente interrompida pela violência sonora de “nos arroja o simum”. As vibrantes, fricativas e choques consonantais introduzem turbulência acústica no interior do refrão. O ritmo encena o próprio arremesso do sujeito pelo vento desértico. Esse tipo de precisão demonstra que o poema não depende apenas da força imagética, mas de um controle minucioso de ritmo, pausa e recorrência acústica.

O que torna a vilanela particularmente poderosa aqui é o fato de que sua circularidade formal espelha a própria condição humana apresentada no texto. O sujeito poético não avança rumo à resolução definitiva; avança sustentado pela repetição da esperança. A casa permanece distante, mas a direção continua intacta. Por isso o poema produz uma sensação estranha e bela: ao mesmo tempo em que fala de exílio, preserva serenidade. Não há desespero absoluto. Há desgaste, aridez e espera — mas também uma fidelidade silenciosa ao caminho. No fim, talvez seja exatamente isso que a forma fixa revela neste poema: certas verdades espirituais não se afirmam pelo grito, mas pela permanência. Repetir, aqui, significa manter acesa uma orientação interior enquanto tudo ao redor se torna areia.


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