
Pelos becos desérticos
Data 02/06/2026 19:21:42 | Tópico: Poemas -> Intervenção
| O vírus é a cura, sussurra o corpo febril, Como se a doença fosse um código secreto, Um mapa inscrito na carne em ruínas, Onde cada célula aprende a ruir para existir E a dor se torna um tipo torto de salvação. O vazio é o parasita mais antigo, Instala-se antes mesmo do primeiro grito, Alimenta-se de nomes, de rostos, de promessas, E cresce nos cantos onde a vida hesita, Como uma sombra que devora a própria luz. Onde está o desmascaramento da cidade? As ruas vestem seus disfarces de normalidade, Mas há rachaduras nos olhos das vitrines, Um tremor nos passos apressados, Como se todos soubessem, e negassem. Uma lívida paranoia flutua no ar, Feito névoa que ninguém ousa atravessar, Ela cola na pele, infiltra nos pensamentos, Torna cada silêncio uma ameaça E cada respiração, um presságio. Há fantasmas pelos becos desérticos, Eles não têm rosto, mas têm memória, Arrastam correntes de vozes esquecidas, Ecoam segredos que ninguém quis guardar E vigiam os vivos como espelhos quebrados. E há um buraco que dá no fundo do abismo, Não está na terra, mas no centro, Um poço sem fundo sob o peito fechado, Onde tudo o que somos despenca em silêncio E nunca chega a tocar o fim. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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