Geologia

Data 05/06/2026 09:46:26 | Tópico: Poemas

Falava baixo, mansa e amável.
Julgavam que seria assim para sempre, como se a alma fosse matéria estática, ou um autómato programado para repetir os mesmos sentimentos.

Não podia indignar-se. Não podia perder o prumo. Não podia reagir aos desatinos alheios. Exigia-se dela o silêncio e a brandura, o espelho da mulher lúcida e pudica que o mundo insiste em idealizar.

Até a dor lhe era vedada: se o absurdo a colhesse, a culpa seria sua, e não da atrocidade do abusador.

Diante do absurdo da vida da hipocrisia dos homens, ela cobriu-se de gelo. Não por maldade, nem por falta de leveza. Era apenas uma mulher a carregar o caos que a história sempre impôs ao seu género.

Era calma como a terra, mas trazia em si a força de um terramoto. Porque até na natureza a paz tem limite.


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