os ramos das árvores chicoteiam o ar sinto o vento dentro de mim vejo-o pela janela agreste impiedoso uma luz ténue branca ilumina a sombra no quarto o candeeiro da rua não a lua
sinto o frio do quarto na cama o nariz molhado e os olhos a arder de sono, de cansaço, de impaciência que não me deixa solta para relaxar que não me solta para parar que não me livra do tato da imensa solidão do enorme vazio, parado, estanque que é este quarto comigo na cama
uma mulher sozinha, a olhar o teto com um livro na mão à espera da vontade para ler a lembrar que esqueceu de pagar as contas em cima da mesa a esquecer quanta magia tem um par que assim de nada vale sonhar
sozinha, com frio, à luz branca da rua pensa que tem de colocar mais mantas na cama dorme só, mas dormirá quente quando assim não era um corpo aquecia outro rapidamente se se chegavam de saudade como de necessidade de monta como de comer o jejum como aquecer o gélido quase a quebrar
proteção e tal, e tal, e só muito no fim, lá no cimo, o amor do peito o interno, de dentro, do todo, do nada, de tudo, de coisa nenhuma, o amor da alma do espírito, de sempre e do nunca, talvez nunca e nunca talvez, mereces-me? eu sei.
o amor físico, de pernas e braços, de língua e dentes, das axilas, dos dedos, dos joelhos ao alto, de beijos gregos inimagináveis e coitos interrompidos para os mesmos.... coitos.
da descoberta do teu corpo, à procura em todo o lado de um ninho onde pudesse pôr meus ovos...
mas o vento forte... a luz da rua o quarto frio e eu nua ...já estiveste melhor!
o amor de dentro e as contas para pagar e o frio na cama sem mantas para colocar porque o fogo a arder quase apagou porque alguém tu? eu? se esqueceu dele ou acabou a lenha ou o vento dentro de mim... que fazes até tão tarde e me deixas só? porque me deixas aqui à tua espera neste café de bêbados e putas onde me confundem ora com putas, ora com bêbados
penso para mim, agora, que nunca terei vontade de ler este livro vou à estante escolher outro e pode ser que recomece mais facilmente. deixei de ler por tua causa não eras de livros, mas de afagos de carícias que te acalmavam à noite ou afogueavam se te desse nessa
fiz-te as vontades palerma
e assim me levaste a minha dignidade
e hoje não posso fazer muito
talvez veja o Mundial de Futebol continue a colecionar os cromos me faça sócia do Porto e vá a todos os jogos, me inscreva num partido político para participar ativamente nas atividades partidárias da minha região e, quem sabe, da nação Talvez que assim me sinta mais integrada, mais portuguesa junto dos que, como eu, pouco ou nada sabem acerca da dignidade
Mas continuarei no mesmo quarto na mesma sombra com a mesma solidão
porque a vida já passou aqui parou por um bocado e já se foi embora
aquela era a minha vez
e não há mais vida para além desta só a do vento com a sombra