Um desprazer em dia

Data 14/06/2026 06:48:00 | Tópico: Poemas


os ramos das árvores chicoteiam
o ar
sinto o vento dentro de mim vejo-o
pela janela
agreste impiedoso
uma luz ténue branca ilumina
a sombra no quarto
o candeeiro da rua não a lua

sinto o frio do quarto na cama
o nariz molhado e os olhos a arder
de sono, de cansaço, de impaciência
que não me deixa solta para relaxar
que não me solta para parar
que não me livra do tato
da imensa solidão
do enorme vazio, parado, estanque
que é este quarto comigo na cama

uma mulher sozinha, a olhar o teto
com um livro na mão
à espera da vontade para ler
a lembrar que esqueceu de pagar
as contas em cima da mesa
a esquecer quanta magia tem um par
que assim de nada vale sonhar

sozinha, com frio, à luz branca da rua
pensa que tem de colocar mais
mantas na cama
dorme só, mas dormirá quente
quando assim não era
um corpo aquecia outro
rapidamente
se se chegavam de saudade
como de necessidade de monta
como de comer o jejum
como aquecer o gélido quase a quebrar

proteção e tal, e tal,
e
só muito no fim, lá no cimo,
o amor do peito
o interno, de dentro, do todo, do nada, de tudo, de coisa nenhuma,
o amor da alma
do espírito, de sempre e do nunca, talvez nunca e nunca talvez, mereces-me? eu sei.

o amor físico, de pernas e braços, de língua e dentes, das axilas, dos dedos, dos joelhos ao alto, de beijos gregos inimagináveis e coitos interrompidos para os mesmos.... coitos.

da descoberta do teu corpo, à procura em todo o lado de um ninho onde pudesse pôr meus ovos...

mas o vento forte...
a luz da rua
o quarto frio
e eu nua
...já estiveste melhor!

o amor de dentro
e as contas para pagar
e o frio na cama
sem mantas para colocar
porque o fogo a arder
quase apagou porque alguém
tu? eu?
se esqueceu dele ou acabou a lenha
ou o vento dentro de mim...
que fazes até tão tarde e me deixas só?
porque me deixas aqui à tua espera
neste café de bêbados e putas
onde me confundem
ora com putas, ora com bêbados

penso para mim, agora, que nunca
terei vontade de ler este livro
vou à estante escolher outro
e pode ser que recomece
mais facilmente.
deixei de ler por tua causa
não eras de livros, mas de afagos
de carícias que te acalmavam à noite
ou afogueavam se te desse nessa

fiz-te as vontades
palerma

e assim me levaste
a minha dignidade

e hoje não posso fazer muito

talvez veja o Mundial de Futebol
continue a colecionar os cromos
me faça sócia do Porto
e vá a todos os jogos,
me inscreva num partido político
para participar ativamente nas atividades partidárias da minha região e, quem sabe, da nação
Talvez que assim me sinta mais integrada,
mais portuguesa
junto dos que, como eu, pouco ou nada sabem acerca da dignidade

Mas continuarei no mesmo quarto
na mesma sombra
com a mesma solidão

porque a vida já passou aqui
parou por um bocado
e já se foi embora

aquela era a minha vez

e não há mais vida para além desta
só a do vento com a sombra

que nem é vida

é um desprazer diário




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