
Tenho mil olhos
Data 14/07/2026 14:48:18 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Carrego em mim mil olhos acesos, Não no rosto, mas espalhados na alma, E caminho atento como quem teme o esquecimento, Pois sei que o mundo sussurra enquanto passa, E tudo o que não vejo se perde para sempre. Eu observo o tremor secreto das coisas pequenas, A folha que hesita antes de cair, O olhar que se desfaz antes de ser compreendido, O silêncio que se esconde entre duas palavras, Como se ali estivesse a verdade mais nua. Eu recolho o que ninguém percebe ou guarda, Os gestos interrompidos, os afetos disfarçados, A tristeza que aprende a sorrir por costume, O instante que quase existiu, mas vacilou, E faço disso a matéria do meu próprio ser. Nunca descanso, não por medo, mas por espanto, Porque cada momento é um abismo delicado, Onde o invisível dança antes de desaparecer, E eu me inclino, como quem escuta o nada, Sabendo que o nada também pulsa e chama. Sou aquele que vigia o mundo em sua fuga, Que aprende a ouvir o que nunca foi dito, Que transforma o imperceptível em permanência, Pois sei que sentir é salvar o instante, E escrever é impedir que ele morra em silêncio. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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