
Chego sempre tarde aos funerais,
Data 16/07/2026 10:14:14 | Tópico: Poemas
| quando as lágrimas secaram e os braços desistiram de consolar os órfãos e a viúva. Não vejo o corpo, nem o caixão. Encosto-me ao muro e observo, à distância, o entardecer a comer a terra crua, as flores dobradas no chão, a amante a esconder as lágrimas, os amigos a falar do tempo para que a morte se cale por dentro, os parentes dissolvidos no crepúsculo, a viúva, amparada pelas irmãs, a gritar perdão por culpas que não tem e os órfãos perdidos pelos corredores do cemitério.
Chego sempre tarde ao amor, quando os braços desistiram de procurar um corpo e as lágrimas desaguaram no mar. Não vejo um rosto, nem uma carta de despedida, apenas o que podia ter sido. E não foi. Encosto-me ao medo e vejo sombras a cair no vazio, um enorme nada que me cobre como uma mortalha. Ouço o riso de quem passa na rua, os pássaros a rasgar o silêncio, vejo as janelas acesas dos outros e sinto os órgãos perdidos pelos corredores da casa.
Chego sempre tarde às festas, quando os braços desistiram de dançar e os corpos repousam exaustos em catres, tálamos ou berços. Encosto-me à vastidão e observo o amanhecer a correr pela terra crua, as últimas flores no chão, os bêbados a falar do tempo para que a noite se acenda por dentro, os vultos dissolvidos na penumbra e o vazio deixado pelos corpos.
Chego sempre tarde à vida.
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