
Alamedas
Data 25/07/2026 02:23:26 | Tópico: Prosas Poéticas
| As alamedas da minha infância nunca foram feitas de pedra. Eram feitas de demora. Eu caminhava por elas sem saber que caminhava para dentro de mim. As árvores conversavam baixinho umas com as outras, e eu acreditava que o vento era apenas o jeito que elas tinham de guardar segredos. As pedras eram velhas senhoras silenciosas, sentadas à margem do caminho, esperando que alguma criança lhes devolvesse um nome. As formigas carregavam universos maiores do que seus próprios corpos, e eu aprendia, sem perceber, que o peso nem sempre mede a grandeza. Naquele tempo, o mundo não tinha pressa de explicar as coisas. Bastava existir. Um galho caído podia ser ponte. Uma folha seca podia ser carta. Uma sombra bastava para inventar uma casa. Hoje, quando volto àquelas alamedas, encontro ruas. As árvores cresceram, outras desapareceram, e o chão parece menor do que a memória. Ainda assim, existe um caminho que ninguém asfaltou. É por ele que continuo andando. Não com os pés. Com a saudade. Descobri que a infância nunca mora atrás de nós. Ela escolhe pequenas alamedas dentro da alma e permanece ali, esperando o dia em que o cansaço da vida nos faça regressar. Talvez seja por isso que, às vezes, fecho os olhos sem querer dormir. Apenas desejo visitar a criança que ainda passeia por aquelas alamedas, recolhendo silêncios como quem colhe flores que nunca murcham.
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