
O mundo do sr Con - quinta-feira 30/07/2026
Data 30/07/2026 21:03:20 | Tópico: Textos
| Quinta-feira, 30 de julho de 2026 Quase três horas da madrugada e não tenho sono – deitei-me as dez e meia, depois de ler “Fogo-fatuo” do mestre Lins do Rego e seus personagens tipicamente regionais – o ronco do sr. Vince, a tosse seca da companheira, a monofonia dos grilos entorpecendo o tempo, o zumbido dos chatos mosquitos nos meus ouvidos, o cheiro azedo das urinas dos gatos pairando abafadamente sobre o cubículo as escuras – tomo a metade de uma Alprozelam, o disparo dos compressores da câmara fria do Frigo Lucio – depois desses indeferimentos do BPC, todos meus sonhos foram por agua baixo e as esperanças ceifadas abruptamente – Tinha tantos planos – um deles era me mudar para o centro, alugar um quarto ou até mesmo uma casa e retornar para onde nasci e me criei – assim como fazem os salmões no fim da vida – enfrentar as correntezas, desovar e subi aos céus. A lembrança do mestre Valois, o Quinca berro D’agua ludovicense, abandonou a família e foi morar num quartinho no Desterro, perto da putaria que tanto amava. O pai dele era francês Monsieur Valois. Jumar, filho de tia Elza, o doidão que banha nu na frente da casa solta bombinhas na madrugada. Os cães ladram distante, um jumento também zorrilha, o calção fede a urina. Bebo agua na boca do litrão de Pet que tenho aqui nos aposentos, me abstenho de beber agua gelada – bebo normal e de torneira. Os dedos dos pés vitimados pelas micoses das frieiras incharam e assemelham-se aquelas salsichas enlatadas da swift. A consulta será remarcada e os exames expiram. Jumar não regula bem, as pedras e as diambas dilapidaram o seu inócuo cérebro. O primeiro bocejo, bom sinal. Acho que Mano Vince tem razão a respeito dos indeferimentos do BPC tem relação com o auxilio. Mas vamos esperar e ver o que os brancos de gravatas do DPU vão fazer. Triste, não encontrei “Ilhas das Correntes” do mestre Hemingway. Tudo bem Sartre fechou comigo é parceiro e mestre e vou para Bouville acompanhar o monsieur Roquentin. No meio da manhã. Pasmem! Acordei quase nove horas e o sol alto batia na janela fechada e ainda groque da Alprozelam. Constato que realmente perdi “A Ilha das Correntes” – forço-me para lembrar se o levei ou não no sábado – Porra, que droga! All right -Uma amiga de Xenor, o genro da sra. Vince deu-lhe um teclado usado, mas bom e usava quando sai da pensão e no terraço me cruzo com o sério Sr. Castro, o factótum entrando como um relâmpago. Perder um Hemingway, é perder um pedaço da minha alma. Frank Puro espirra e está na dele. Ontem a noite a lua maravilhosa inundava o quintal com sua luminosidade de prata e eu nu banhava-me e depois encarei o seleiro e mestre José Amaro nas suas andanças na noite de lua. Janoca, a graúda exalava concupiscência de seus enormes atributos físicos dentro de uma colada e justa lycra. Encontrei com Juvan Senior no Popular, ficamos frente a frente e deu-me uma boa noticia – tinha um livro no Lasierra de capa dura vermelha. Aleluia! Aleluia! – Então cai de boca na suculenta dobradinha com linguiça, dois pratos como ontem – dois reais. Mas uma galera esperava impaciente o frango assado. Subi a ladeira pesado como o Berg Stahl a caminho de Roterdam. Resgatei Hemingway no Lasierra, o abracei e o beijei – que alegria! E o trouxe de volta ao seu aprisco “Há de ter cuidado com a literatura. É preciso escrever ao correr da pena sem escolher as palavras” – ensina-me Roquentin/Sartre. Levo-o para o banheiro, enquanto deliciou-me com sua sabedoria filosófica, descarrego maciamente o barro, fruto da feijoada de ontem e logico das laranjas. Um banho no quintal. As frieiras comicham e eu as coço selvagemente até sangrarem e depois passo pomada. A goiabeira desnuda de folhas como as arvores do Central Park de New York no outono, falta somente os esquilinhos travessos. A laranjeira carregada. Benza a Deus, depois do rango vou apanha-las. Miles Davis azuleja a abafada tarde cinzenta com seu maravilhoso trompete. Bouville existe? Ou é uma criação do mestre Sartre?
|
|