
Ainda insisto
Data 01/08/2026 13:49:55 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Eu caminho entre vozes ocas que se aplaudem, Como tambores cheios de vento e vaidade, E carrego em mim um peso antigo e incômodo: pensar. Vejo a superfície ser coroada como profundidade, E me pergunto em que abismo a razão foi deixada. Sinto o riso fácil ferir mais do que o silêncio, Como lâminas leves que cortam sem esforço, E tudo o que é denso se torna alvo de escárnio. Carrego perguntas como quem carrega cicatrizes, Num mundo que só tolera respostas rasas. Eu, que quis compreender, tornei-me estranho, Quase um erro ambulante entre certezas gritadas. O conhecimento em mim não é troféu, é fardo, Uma luz que ilumina também o que dói ver. E por isso invejo, às vezes, a leveza dos cegos. Há dias em que o mundo me parece uma encenação, Onde os tolos vestem coroas de aplausos vazios, E os que pensam se escondem nas sombras do próprio eco. Eu assisto, impotente, à ascensão do ruído, Como quem vê o incêndio e não encontra água. Mas ainda escrevo, ainda insisto, ainda respiro fundo, Mesmo quando o sentido parece se desfazer no ar. Há em mim uma teimosia quase trágica, Um apego àquilo que não dá espetáculo, Mas sustenta, em silêncio, o que resta de humano. Prossigo, não como vencedor, mas como testemunha, Guardião de uma chama que já não ilumina multidões. Se o mundo prefere a escuridão barulhenta, que prefira, Eu ainda escolho o peso lúcido da consciência, Mesmo que isso me condene à solidão eterna. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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