A chave que já não cabe

Data 03/08/2026 10:20:58 | Tópico: Poemas

Já não fazes morada em meu peito. Estou curada de ti, e a tua presença agora é como a de um visitante que conhece o lugar, mas já não pertence a ele.

Ainda amo a tua cara, o teu sarcasmo, a tua estranheza, o teu jeito de existir. Ainda gosto da tua presença. Mas já não preciso me diminuir para caber nas tuas mãos. Já não preciso de ti como antídoto para o veneno que só tu mesmo sabes oferecer.

A nossa linguagem sempre foi diferente demais. Um futuro ao teu lado seria tão breve quanto foram os teus casamentos passados, e eu acabaria sendo apenas mais uma no meio da tua coleção.

E chega uma fase da vida em que a gente não quer ser ninguém além de si mesma. Em que tentar caber deixa de parecer amor e começa a parecer sufocamento. Eu não quero mais me moldar para ser escolhida.

Falei comigo mesma que preciso de um amor medicinal. Um amor que compreenda todos os meus dialetos, que não tema o meu caos, que saiba acolher o que em mim é excesso sem tentar me reduzir.

Por isso, eu te liberto. E, ao te libertar, também me liberto da vontade de sermos um.

Não quero mais desaparecer dentro de ninguém.

Estou lúcida.


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