
Ao que restou de mim
Data 10/08/2026 00:01:16 | Tópico: Poemas
| Ei, você.
Sim, você mesmo. Não olhe para trás, afinal, seria um paradoxo um tanto estúpido procurar no passado quem lhe escreve do passado.
Então chegamos lá?
Não. Pergunta errada.
Você chegou?
Eu aparentemente fiquei.
Curioso... Passei tantos anos imaginando o futuro que jamais pensei na possibilidade de me tornar passado.
Que injustiça cronológica!
O tempo ganha novamente.
Mas diga-me: ainda somos nós?
Não venha com essas respostas adultas de que "mudamos com o tempo". Ora, até Heráclito sabia disso e ele nem precisava pagar boletos.
Boletos...
Que palavra horrível. Espero que não faça poesia com isso.
Embora, pensando bem, talvez a poesia seja justamente isso: encontrar alguma transcendência em coisas absolutamente incapazes de possuí-la.
Você conseguiu?
Transcender, digo.
Não os boletos.
A vida.
Lembro que tínhamos planos.
Grandes, evidentemente. A mediocridade sempre nos pareceu pequena demais para comportar tamanha pretensão.
Mudar o mundo. Escrever livros. Conhecer lugares. Ser alguém.
Ser alguém...
Estranha redundância.
Já éramos.
Talvez eu não soubesse.
Você sabe?
Não responda rápido. Desconfio de homens que sabem quem são.
Principalmente quando foram eu.
Disseram-me que você casou.
E teve filhos.
Filhos!
Então existe alguém no mundo que olha para você como eu olhava para o futuro.
Que responsabilidade terrível.
Eles também acham que você sabe tudo?
Não conte a verdade.
Algumas ilusões são necessárias para o desenvolvimento infantil.
Olha eu, falando de desenvolvimento infantil.
Ridículo.
Ainda sou adolescente.
Você é que envelheceu por nós dois.
Mas há algo que preciso perguntar.
Você escreve?
...
Não faça silêncio. Silêncio também é resposta e sempre fui bom demais em interpretá-lo.
Escreve?
Disseram que sim.
Propagandas.
Textos.
Argumentos.
Palavras utilizadas para mover pessoas de um ponto A a um ponto B.
Quase física.
F = ma?
Não. Acho que publicidade não funciona assim.
Embora talvez funcione.
Força aplicada sobre massa produz aceleração.
Você virou a força?
Ou a massa?
HAHA!
Desculpe.
Essa foi ruim.
Mas então é isso?
Pegamos todas aquelas palavras que não serviam para absolutamente nada e finalmente lhes demos utilidade?
Que tragédia.
Eu gostava delas inúteis.
Gostava de escrever uma página inteira e terminar sabendo menos do que quando comecei.
Você lembra?
Eu perguntava: "o que é realidade?"
Agora talvez você pergunte: "qual headline converte mais?"
EVOLUÇÃO!
Darwin ficaria orgulhoso.
Eu não.
Ou talvez sim.
Não sei.
Essa é uma expressão que você ainda usa?
"Não sei."
Espero que sim.
Perder a capacidade de dizer não sei deve ser um dos primeiros sintomas da velhice.
Mas me disseram outra coisa.
Você disse que talvez eu não gostasse da vida que escolhemos.
Achei presunçoso.
Como você sabe o que eu queria?
Eu mudava de ideia a cada três poemas.
Às vezes queria partir. Às vezes queria ficar. Às vezes queria amar. Às vezes queria desaparecer do mapa. Às vezes queria ser poeta. Às vezes eu só queria entender por que existia alguma coisa ao invés de nada.
Ainda não descobriu isso, né?
Droga.
Esperava que aos vinte e tantos já viesse um manual.
Mas escute:
não confunda meus sonhos com profecias.
Eu imaginava o futuro porque ainda não tinha um.
Você tem.
Talvez seja por isso que ele lhe pareça tão menor quando visto de dentro.
De longe, toda montanha parece maior.
De perto, há pedras, lama, cansaço, e provavelmente alguma placa proibindo estacionar.
Ainda assim...
há algo em você que me incomoda.
Você fala de mim com saudade.
Não gosto disso.
Saudade pressupõe distância.
E onde exatamente você pensa que fui?
Nas gavetas? Nos poemas? Em João Pessoa? Num computador quebrado de 2017?
Patético.
Estou aí.
Na inconveniência de fazer perguntas quando todos querem respostas.
Na vontade absurda de mudar tudo.
Na irritação com o ordinário.
Na mania de procurar significado onde provavelmente só existe terça-feira.
Na necessidade quase patológica de transformar pensamento em palavra.
Você apenas me deu outros nomes.
Estratégia. Trabalho. Responsabilidade. Família. Empresa.
Adulto adora renomear as coisas.
Parece que assim consegue controlá-las.
Mas agora você escreveu novamente.
Sem objetivo.
Sem venda.
Sem finalidade.
E por alguns minutos não tentou convencer ninguém de absolutamente nada.
Finalmente.
Talvez eu tenha esperado por isso.
Não você.
Isso.
Uma frase inútil.
Uma pergunta sem funil.
Uma palavra que não precise levar a outra palavra até um botão.
Que alívio.
Então faça-me um favor, homem estranho que usa meu nome:
não tente voltar.
Eu não quero você aqui.
Aqui era confuso. Pequeno. Barulhento. Doloridamente infinito.
E você já atravessou tudo isso.
Seria covardia regressar apenas porque conhece o caminho.
Continue.
Mas leve alguma coisa.
Não meus poemas. Alguns são péssimos.
Sério.
O que diabos eu estava pensando?
Leve a pergunta.
Aquela mesma.
A que escrevemos cem vezes usando palavras diferentes:
"é só isso?"
Pergunte-a.
De vez em quando.
Quando o dinheiro parecer importante demais. Quando segunda-feira parecer eterna. Quando você estiver ocupado demais para perceber que está ocupado. Quando começar a chamar sobrevivência de vida só porque ambas respiram.
Pergunte:
é só isso?
E se a resposta for sim...
duvide.
Sempre fomos bons nisso.
Talvez seja essa a única coisa verdadeiramente nossa.
Dúvida.
Ou esperança.
Não sei.
Olha!
Ainda consigo terminar um poema sem descobrir absolutamente nada.
Que bom.
Você ainda está aí?
Estranho.
Eu também. Depois de anos no cativeiro, voltei
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