Crônica de uma Maternidade

Data 17/08/2026 12:29:10 | Tópico: Poemas

Ela tinha encontrado o grande amor da sua vida aos vinte e sete anos.

Já não estavam mais juntos, mas isso não mudava a verdade: ela o tinha amado muito.


Trabalhavam em um restaurante, em horários repartidos, cercada de pessoas que olhavam para o relacionamento alheio como se fosse dinheiro a ser roubado.

Não queria ser mãe naquelas condições

Não queria ser mãe sem ter tempo para viver a maternidade do jeito bonito que imaginava que ela deveria ser.

Não queria ser mãe assim.

Sozinha.

Sem rede de apoio.

Sem amigos.

Sem família.

Mas, um dia antes de sair de férias, fez um teste.

Grávida.

Que desespero.

E que bonito, ao mesmo tempo.

Ter um filho com alguém que se ama.

Mas que desespero.

Foram os dois para a Itália, o lugar preferido dela.

No alto do Duomo, ele a pediu em casamento.

E ela nunca soube, até hoje, se tinha sido por causa da gravidez ou por amor.

Talvez pelos dois.

Naquele momento, não importava.

Tinha sido bonito até ali.

Como nos contos de fadas.

Como nos filmes da Sessão da Tarde em que, depois de todas as dificuldades, as pessoas terminam felizes para sempre.

Tinha sido bonito até ali.

Até a pandemia.

Até ela precisar voltar ao trabalho, grávida, com medo de ficar doente e levar aquela doença para dentro de casa, para dentro do corpo, para dentro da criança que ainda carregava no ventre.

Veio o medo.

A necessidade de reclusão.

O isolamento.

Ela e o companheiro dividiam a casa com outro casal jovem. Havia gente ao redor, mas, por causa do medo da contaminação, ela e a bebê permaneciam praticamente isoladas.

Uma casa com quatro adultos.

Uma mulher se sentindo completamente sozinha.

Tinha sido bonito até ali.

Até o parto solitário, em que o pai da criança foi incapaz de exigir estar presente.

Até ele dizer que o maior sonho da vida era ser pai.

Até ela acreditar que amor era lutar um pelo outro.

Proteger um ao outro da maldade do mundo.

Estar presente quando o outro estivesse vulnerável.

Até descobrir que suporte deveria ser algo natural.

Que, quando alguém está vulnerável, não deveria precisar implorar pelas coisas mínimas.

Que cuidar também é perceber aquilo que o outro não consegue pedir.

Então ela saiu de si.

E, com o tempo, saiu dela também o homem que tinha sido o amor da sua vida.

Ficou a filha.

E a filha era um amor inteiro.

Mas havia dias em que amar também era cansaço.

Havia dias em que cuidar machucava.

Resolver tudo machucava.

Passou grande parte da maternidade sem ajuda.

Acordava de madrugada e acalentava aquela criaturinha.

Durante o dia, dava banho, arrumava, alimentava.

Fazia tudo em função dela e, quando conseguia, cuidava um pouco da casa.

E, além de tudo isso, tentava sobreviver à solidão que existe dentro da própria maternidade.

Porque existe uma solidão que só quem cuida conhece.

Todo mundo pergunta pela criança.

Pouca gente pergunta pela mulher.

O pai dizia amar muito a família, mas ajudava pouco.

E havia ainda o vizinho.

Um homem que agredia a própria esposa.

Os gritos atravessavam as paredes.

Ela não dormia por causa da maternidade.

Não dormia por causa do vizinho.

Um dia, foi reclamar.

Quase apanhou também.

O pai daquela família não fez nada.

E ela se deparou, mais uma vez, com a mesma coisa:

a omissão.

Mais uma vez, ninguém a protegeu quando ela estava vulnerável.

E teve de mudar de casa.

E depois, sem muitas opções, continuou vivendo a maternidade e dando o seu melhor.

Pensava em quantas mães estavam passando pela mesma coisa.

Quantas se sentiam sozinhas.

Quantos maridos iguais ou piores que o dela existiam por aí.

Ele não era um homem horrível.

Mas o buraco da solidão existia.

As pequenas violências emocionais existiam.

As omissões existiam.

E doíam.

Ela não tinha amigos.

Não tinha a família por perto.

Tinha uma criança pequena para cuidar e um vizinho que agredia a mulher no andar de cima.

Um dia, no meio das mil coisas que precisava fazer, colocou a bebê no bebê-conforto, encaixado no carrinho, e foi limpar a casa.

Lavou roupa.

Fez comida para si mesma.

Limpou a cozinha.

Existiu um pouco para si.

Depois se sentou na cama.

Foi descansar.

Só um pouco.

De repente, ouviu um barulho no chão.

Levantou-se num grito de desespero.

A filha tinha caído do carrinho.

O coração saiu do peito.

Ligou para os bombeiros.

Ligou para o pai da filha.

Foi desesperada para o hospital.

Avaliaram a bebê.

Fizeram alguns exames que, para ela, não eram suficientes.

Ela precisou insistir.

Precisou brigar para que fizessem uma tomografia.

Ninguém parecia querer fazer mais nada.

E, enquanto tentava proteger a filha, ainda precisava suportar o julgamento silencioso — ou nem tão silencioso — de quem a via como uma mãe irresponsável por estar cansada, sozinha e vulnerável.

Ela era a péssima mãe.

Era fácil enxergá-la assim.

Mais difícil era enxergar tudo o que havia acontecido antes daquele momento.

As noites sem dormir.

A falta de ajuda.

O medo.

A solidão.

A médica, entretanto, era uma excelente profissional ao considerar que os exames realizados eram suficientes e negar exames específicos que poderiam tranquilizá-la.

No fim, ficou tudo bem.

Mas a sensação de solidão ficou maior.

Ela se sentiu completamente sozinha.

Até mesmo dentro do sistema que deveria acolhê-la, estava sozinha.

Anos se passaram.

Então veio mais uma batalha.

Foi mandada embora por exigir seus direitos enquanto mãe.

Mais uma pressão de um sistema que deveria proteger os direitos de uma mulher.

Mais uma luta solitária.

O pai ia trabalhar.

A mãe ficava com as responsabilidades da casa.

Da criança.

Da vida.

E, além de tudo, precisava lidar com a própria sensação de incapacidade diante de uma vida que exigia dela uma força que ninguém perguntava se ela tinha.

A bebê foi para a creche.

Algum tempo depois, ela conseguiu trabalhar em horários mais flexíveis.

Mudou a filha de creche.

E seguiu tentando confiar.

Mas a confiança, depois de tantas coisas, já não vinha naturalmente.

A filha não comia na creche.

Começaram a surgir comentários sobre o lugar.

Nas fotografias, a criança também não parecia bem.

Nunca sorria.

Estava quase sempre com uma expressão de choro.

Um dia, uma das cuidadoras devolveu a bebê com uma expressão terrível.

A mãe mandou uma mensagem para saber se estava tudo bem.

Não recebeu resposta.

E alguma coisa dentro dela começou a apertar.

As bandeiras vermelhas foram se acumulando.

Na mesma semana, a filha começou a fazer alguns gestos estranhos.

Ela não sabia se aquilo era normal.

Não sabia se estava exagerando.

Não sabia se estava vendo coisas onde não havia nada.

Mas sabia que crianças imitam aquilo que veem.

E, na cabeça dela, a filha não tinha visto aquilo em casa.

A bebê também tinha um medo enorme do chuveiro.

Toda vez que a mãe o ligava, ela gritava.

A mãe começou a desconfiar que havia alguma coisa errada.

Conversou com o pai.

Ele minimizou.

Disse que não era nada demais.

Mais uma omissão.

E ela começou a se sentir louca.

Neurótica.

Cansada.

Histérica.

Enquanto ele permanecia calmo.

Sempre calmo.

Talvez porque não carregasse no próprio corpo o peso de imaginar todas as possibilidades.

Foi assim, aos poucos, que ela começou a perder o amor e a admiração por aquele homem.

Mudou a filha de escola.

Mas já não confiava tanto nas escolas.

Tinha necessidade de ficar grudada na criança, de protegê-la de qualquer coisa que pudesse acontecer.

Tinha medo.

Começava a perceber que já não vivia em um mundo seguro.

E, aos poucos, perdeu ainda mais a admiração pelo pai da filha.

Até que, anos depois, veio a confirmação que ela nunca quis ter.

A creche fechou por maus-tratos às crianças.

Ela estava certa.

Não sentiu alívio.

Não sentiu vitória.

Sentiu tristeza.

Porque não queria estar certa.

Queria ter exagerado.

Queria ter sido apenas uma mãe cansada, assustada e excessivamente preocupada.

Queria que o pai da filha tivesse razão quando disse que não era nada.

Mas era.

Ela tinha percebido.

E talvez essa tenha sido uma das coisas que mais doeram.

Não apenas descobrir o que acontecia naquela creche.

Mas lembrar de todas as vezes em que precisou duvidar de si mesma porque alguém dizia que não era nada.

A intuição de uma mãe não é uma prova de nada.

Mas também não deveria ser tratada como histeria.

Ela não queria ter razão.

Queria que a filha estivesse bem.

Só isso.

No meio de tudo aquilo, ainda precisava lidar com as próprias emoções.

Com a própria exaustão.

Com a responsabilidade de criar outro ser humano.

Óbvio que não era perfeita.

Não queria ser perfeita.

Queria ser acolhida.

Queria ser respeitada como mulher.

Queria o suporte que merecia daquele homem.

Queria coisas tão simples.

Mas as coisas simples pareciam caras demais.

Raras demais.

Todos diziam que ela tinha cara de cansada.

E ela estava cansada mesmo.

Tinha de cumprir o papel de mãe e, muitas vezes, também o papel social que se esperava que um homem exercesse: o de proteger uma mãe e uma criança.

Mas não era assim.

E ela foi perdendo toda a admiração.

Gostava dele.

Mas já não o amava.

Já não o admirava.

Já não o queria.

Viviam como pais de um amor.

Eram uma família sem serem um casal.

Talvez isso fosse tudo o que importava agora.

Criar um ser humano decente.

Um ser humano feito das partes boas de cada um deles, ainda que eles não permanecessem juntos.

O que importava era a proteção.

O amor.

O direcionamento.

A possibilidade de aquela criança crescer em paz.

Em um lugar onde pudesse confiar na própria percepção.

Onde não precisasse estar constantemente preocupada com o que os outros pensavam.

Onde não aprendesse que amar é suportar.

Que silêncio é paz.

Que ausência é normal.

Que cuidar é obrigação de um só.

Ela queria que a filha aprendesse outra coisa.

Que amor também é presença.

É responsabilidade.

É proteção.

É escuta.

É perceber.

É estar.

Queria que a filha não herdasse as mesmas cicatrizes dos pais.

Queria que herdasse apenas aquilo que havia de melhor neles.

E que o resto terminasse ali.

Porque, no fim, talvez aquele fosse o verdadeiro amor.

Não permanecer juntos a qualquer custo.

Não sustentar uma família apenas para manter a aparência de uma família.

Não ensinar uma criança que amor é suportar tudo.

Talvez amar aquela menina fosse justamente impedir que ela precisasse passar a vida inteira consertando aquilo que os adultos não conseguiram consertar.

Às vezes, amar é ficar.

Às vezes, amar é partir.

E, às vezes, o maior gesto de amor é quebrar o ciclo.

Ela tinha encontrado o grande amor da sua vida aos vinte e sete anos.

Mas talvez tenha levado muitos anos para descobrir que o maior amor da vida dela não era aquele homem: era a sua filha.




Este texto vem de Luso-Poemas
https://www.luso-poemas.net

Pode visualizá-lo seguindo este link:
https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=385384