Os inocentes

Data 23/08/2026 05:56:50 | Tópico: Poemas

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Preso homicida
Condenado a pena de morte
Por prisão perpétua

Insuportável viver contigo
No mesmo mundo
Insuportável

Separados
Eras tu ou eu

Foste tu só porque o trabalho
foi mais limpo e eficiente
Fosse eu e ninguém saberia
como terminar a obra
Clarice



Raivoso pela condição
Mas livre de condenação individual
Nesta cela míngua indigente
A pagar por uma qualquer liberdade
Que outrora me deram e declinei

Nessa época, livre, era manietado
Impedido de pensar por mim
Impelido a alimentar-me de memórias
Histórias que valiam nada
Que valiam muito. e tudo

Deliberei que as iria comer
Não as pequenas e pobres
Mas as opulentas, as bravas
As que ocupam demasiado espaço
E tropeçamos nelas, constante
Clarice



A liberdade era isso:
Poder viajar no meio do monte
Voltar, nada passou, vejo eu na fonte
Bebo dela e lavo-me ali sem
que nenhum fantasma me apareça
desça e me tente abraçar e levar

A cela mostra-me agora que nada conte
Ou aqui ficarei para sempre e mais
Mas nada me importa aqui ou fora
Porque as grades são apenas visuais
Clarice


(As melhores chalotas são as que se apanham na preiamar, nas noites de lua cheia).



Mas digo-vos que a prisão é a liberdade.
Ser sozinho é ser livre, com as memórias que atrás escolhemos.
Obrigatório não criar mais.
Alimentemo-nos do que não queremos.
O corpo se encarrega de filtrar o lixo.


Por cada dia livre
Usufruo da dor da lâmina na pele
E gizo uma linha

Sou poliglota

Tenho o alfabeto
Em varias línguas
Marcado na pele

Cada linha serve a uma letra


Tenho o alfabeto aqui e acolá
De B a Z
A todos falta a letra A






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