
El arte de olvidar naranjas en la mesa y comer melocotones como si fueran ostras
Data 23/08/2026 13:51:05 | Tópico: Poemas
| Encontrei o grande Federico Arens no final de março de dois mil e vinte e quatro, a deambular pela tarde plúmbea de Coimbra, em animadíssimo solilóquio sob os arcos do Jardim da Manga. Deixara de escrever algum tempo antes e dedicava-se à pastorícia de raças autóctones sul-americanas e ao funambulismo, artes a que se entregava com a devoção que antes reservara à literatura. O funambulismo levara-o não só às clareiras das aldeias esquecidas da América do Sul, onde, sobre um fio, crianças, homens e mulheres, velhos e muito velhos, o aplaudiam com entusiasmo, como também aos palcos das grandes cidades americanas e europeias. Algumas crianças, por graça ou por desafio, abanavam o cordel, mas nem assim o funambulista perdia o pé.
Um círculo espiritual americanista, com sede em Iselbene, povoação isolada do sul da Europa, defendia que Federico Arens era a própria reencarnação de Ari Zazzo, funambulista pré-colombiano, cujo nome, embora rasurado, surge num códice conservado no Departamento de Antropologia da Universidade de Salamanca. Não foram, todavia, o cordel nem os rebanhos que trouxeram Arens a Coimbra. A carreira literária que abandonara deixara admiradores incondicionais da Argentina a Tuvalu, do Canadá ao Lesoto, e universidades continuavam a convidá-lo para falar do que antes escrevera. Publicara sete livros em pouquíssimos anos, sem nunca conhecer sucesso comercial de relevo, mas transformara-se numa lenda entre elites académicas e culturais. O último, El arte de olvidar naranjas en la mesa y comer melocotones como si fueran ostras, provocara uma verdadeira hecatombe nas sociedades geográficas. As suas consequências ainda se faziam sentir.
Narrava, nesse volume, a história de um homem chamado Animal, que tinha um cão chamado Funeral e que desenvolvera uma geografia interna, intransmissível e indecifrável, a partir da qual se orientava no mundo. Os mapas de Animal, simplesmente, não coincidiam com nenhum lugar conhecido e, ainda assim, funcionavam extraordinariamente bem. Com a sua obra, Arens dera origem a disciplinas inteiramente novas, em torno das quais se travavam acesas discussões académicas: a endogeografia, a geografia intrapsíquica, a cartografia animal.
Nessa altura, eu trabalhava na cozinha de um hotel da avenida, perto da estação, para pagar o doutoramento sem ter de pedir dinheiro ao papá, à mamã ou a outro parente qualquer, aliás, vivo ou morto. A minha tese consistia num estudo comparativo das geografias interiores na literatura sul-americana dos séculos vinte e vinte e um. Arens era, naturalmente, a minha principal referência. Na verdade, lia-o com uma obsessão que procurava esconder de toda a gente, por vezes até de mim própria, desde uma viagem perfeitamente olvidável à Patagónia, aos dezassete anos.
Dois meses antes, fora surpreendida pela notícia da sua vinda, publicada num jornal de circulação restrita entre os alunos de literatura, chamado Se o castor não obedece, ferve a água. A acompanhar a notícia surgia um pequeno poema de Arens, dedicado à cidade de Coimbra, em tudo semelhante a outros que escrevera para as cidades por onde antes passara e por onde, no futuro, passaria; um poema menor de cortesia:
Morre-se de muitas coisas em Coimbra: de velhice, de febre, de queda e de amores.
Assisti a todas as suas palestras. O anfiteatro da Faculdade de Letras enchia muito antes de Arens chegar. Do lado de fora, havia pessoas esmagadas contra as paredes para ouvirem uma só palavra do grande Federico Arens. A plateia oscilava entre o silêncio perplexo e o burburinho entusiasmado. Arens era, em boa verdade, um homem profundamente absorvido pelo que pensava e pouco disponível para escutar quaisquer ruídos que não os interiores, incluindo aqueles emitidos pelos que o rodeavam.
Creio que nunca chegou sequer a saber o meu nome. Por vezes, chamava-me Cat, mas sempre em tom de pergunta, apesar de eu me ter tornado presença habitual nas suas águas-furtadas com vista para o Jardim Botânico e de cozinhar frequentemente para ele. Falava-me de Adília Lopes, com quem se correspondera durante anos, e chegou mesmo a escrever-me um poema adiliano inacabado que ainda guardo num frasquinho. Por vezes, falava durante o sono. Balbuciava o nome de uma atriz americana e discorria longamente sobre a arquitetura das fábricas soviéticas abandonadas.
Nunca lhe contei a verdade sobre mim, com receio de o enfadar com banalidades. Pelo contrário, da minha boca brotavam estrofes terríficas de uma epopeia grega e páginas negras de contos malditos. Via o brilho nos seus olhos sempre que falava da triste geografia interior que acompanhara o meu crescimento, das desgraças sucessivas da minha família, dos mortos, dos abandonos e das coisas boas que nunca aconteceram. Falava-lhe da trisavó afogada num poço, que surgia, não raras vezes, para avisar dos perigos da água; do irmão deficiente que dormia num quarto sem janelas; dos delírios noturnos da mãe e do piano de parede que, nessas noites, tocava sozinho o Clair de Lune quando ela passava; de uma parente afastada, recém-noiva, salva do suicídio por três mortos; de um tio que, durante três anos, sem descanso, transportou ovelhas de uma divisão para outra da casa.
A minha vida melhorava consideravelmente quando não era verdadeira. Creio que tinha vergonha de ser apenas quem eu era. Ninguém se atreve a ser quem é perante um génio.
Três meses depois, partiu sem aviso. Deixou laranjas sobre a mesa.
É agosto de dois mil e vinte e seis. Pela janela, vejo um homem na praia de Moledo a comer um pêssego como se fosse uma ostra.
Podia ser ele.
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