Dom Quixote

Data 05/09/2026 05:55:59 | Tópico: Poemas -> Surrealistas

Dom Quixote

Há muito tempo,
numa planície parda,
um poeta louco
assentou arraiais.
E escreveu um conto
de um cavaleiro velho
tão senil como ele,
lutando por justiça e bem.

O cavaleiro viajante
De espaços longos,
No horizonte variado,
Alucinado, sem cura,
Montado em pileca,
Sofrendo derrotas,

E feridas sangrentas…
Que te mantêm obstinado,
Cavaleiro da desgraça?
Que tentativas magicas mais
Suporta a tua cavalgada louca?
Que triste sonho persegues
Persistente e maldito?

Ah! Dulcineia! – linda plebeia,
Vendedora em feiras desertas
De amores e de ternura.
Nunca a conheceste, face a face,
Nunca lhe tocaste o corpo esbelto,

Como pode ela possuir
O teu coração desvalido?
Dedicas-lhe vitórias
De que és parco.
Sonegas o aconchego
Aos teus achaques
Em lençóis de cetim.

Paciente Dulcineia…
E mais outro poeta canta,
Nas mesmas planícies pardas,
a tua azarada cantilena.
Escreve os azares, a vilania
das desgraças e das derrotas...

Esfarrapa papéis,
Em novelas do amor
que tu sentes por ela,
teu coração em sua posse.
Rabisca poemas
Inacabados e loucos
Que ninguém lê,

Nem ela, infeliz,
Desta demência,
Ou desdenha.
Morre cavaleiro!
Teus sonhos são breu,
Pesadelos de terror,
De fugas e de novelas.

Moinhos selvagens,
Árvores sedentas,
Terras mareadas,
Engolindo voraz....
Num acto de amor sublime,
Morre poeta louco...
Morre… longe e bem só…




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