
Evasão do Poeta
Data 14/09/2026 10:33:46 | Tópico: Poemas -> Sombrios
| Evasão do Poeta As montanhas, nuas do fogo, sitiam-me nestes vales d' ecos, onde vida regurgita, gritando, a esperada renovação. Da ressecada paisagem, os viçosos exorbitantes de verdes matizados, tenazes, opõem-se à desolação.
Os meus sentidos são invadidos de cores, de cheiros, de sons... Meu olhar é tomado de assalto por cenas em perene turbilhão. As aves entoam e me seduzem, no seu trinar, melodias celestes. Os perfumes anestesiam meu corpo derreado pela dor e pela perda.
Tudo se manifesta em frenesim, numa orgia pós- guerra sexual, onde qualquer afecto ou paixão desdenha do ilusório amor fútil. A necessidade de recriar vida torna as emoções e sentimentos em recordações saudosistas de quem não é parte do acto.
Esta ambiguidade atinge-me feroz; por amantes, abraço odaliscas assexuadas, qu' almejam só a liberdade e o esquecimento. Se torneio o ventre sedutor da solidão logo esta me repele para os beijos, apaixonados e quentes, da loucura; a tortura do gelo e fogo é-me inumano.
Ousarei eu, porém, perturbar o seio materno que força e sacia a explosão vital em redor? Serão os meus brados de dor e lamentos Ouvidos na devassidão de gentes ignorantes? Que m’ importam as suas vãs senilidades; O poeta não existe mais. Ousou evadir-se…
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