
Beija-me Avó!
Data 17/09/2026 12:17:06 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
| Partiu devagar ... não houve despedida, algo de mim partiu no seu regaço, minha casa inteira ficou tão comprida e eu confuso no passar de cada passo...
A saudade sentou-se comigo à mesa, devorou-me o coração e tudo tão igual, o tempo, apenas trouxe a incerteza e fez da distância um quarto sem portal...
Busquei-te nas coisas que deixaste: em cheiros, cantos, em cada lugar e nunca mais te ouvi, não falaste porque há véus que a morte não pode levantar...
Já não há voz que me deixe tão seguro nem mão que me toque com aquela paz, a alma bate à porta e só há escuro chamando como me chamavas em rapaz...
Fui neto d'uma avó que nunca me abandonou antes do mundo me ensinar tanto desdém, cabia inteiro no seu colo, que me embalou e a sua voz fazia-me sentir tão bem...
Agora sigo sem norte nem certeza, com metade de mim virada para trás, porque há partidas que deixam sobre a mesa tudo o que fomos e ninguém devolve mais ...
Mas se há lugar depois da ausência, se a morte for somente outra estação, se as almas se reconhecerem na distância e o amor souber vencer a separação,
então, espera por mim onde a luz não finda e o tempo não nos saiba envelhecer que levarei o mesmo abraço e talvez sinta que afinal era possivel voltar-te a ver...
E quando enfim se calar toda a distância, quando já não houver véu entre nós dois, não digas nada — guarda a "nossa" infância, abre os braços como abriste tantas vezes e ... depois ...
... eu pequeno, outra vez, sem rumo nem idade, sem mundo, nem pressa, sabendo o que fazer, hei-de correr para ti vencendo esta saudade ... e Beija-me Avó, hei-de te dizer!
(2 longos Anos volvidos sobre a partida para Deus da querida Avó Clarisse)
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