
ASSOBIAM PARA O LADO
Data 18/09/2026 21:23:00 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Dói-me o silêncio da indiferença quando a dor vagueia sem parar quando as armas buscam suas presas e a morte se espalha pelo ar
Há crianças que aprendem a contar não estrelas mas bombas que caem do céu
Há mães que abraçam os filhos como quem tenta esconder o medo debaixo dos próprios braços
Há homens que procuram entre ruínas um nome, um rosto, uma vida qualquer pedaço de ontem que a guerra não tenha levado
E há fome
Fome que não pede discursos nem tratados nem bandeiras erguidas ao vento pede apenas pão, água um lugar onde dormir sem acordar ao som da morte
E quando a dor atravessa fronteiras quando o mundo inteiro vê quando a humanidade grita eles desviam o olhar
Assobiam para o lado
São os senhores da guerra e do mundo donos de decisões tomadas à distância da lágrima do sangue e da miséria
Acendem o fogo e depois fecham as janelas para não sentirem o fumo
Como se não ouvissem o som das bombas o choro de uma criança como se não vissem o corpo de um inocente
E dentro de nós cresce a revolta porque há uma dor que não é apenas nossa é a dor de sabermos que tanta gente sofre enquanto alguns poderiam impedir e simplesmente não o fazem
Assobiam para o lado
Porque enquanto houver alguém que ainda sinta a dor do outro enquanto houver uma voz que se levante contra a violência enquanto houver um coração que se recuse a aceitar a fome como destino
Os senhores da guerra podem dominar territórios podem comprar silêncios podem mandar exércitos mas nunca serão donos daquilo que ainda nos resta de humanidade.
Mário Margaride 12-09-2026
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