O mundo do sr. Con - terça, 22/09/2026

Data 22/09/2026 20:01:52 | Tópico: Textos

Terça-feira, 22/09/2026
- O corno do Lasierra já veio? – perguntou ironicamente Tia Neneca, sua secretaria não oficial vinda da padaria.
- Não sei – respondeu o poeta ao sol das sete da manhã na Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel.
O fulero do Zulu mostrando serviço, estrategicamente atrás da porta da padaria Renascer, vigiava atentamente quem entrava e quem saia. Seu Robert orgulhoso, sorriu ao ver-me e eu apontei com o beiço o seu fiel escudeiro, ele assentiu contente e balançou a cabeça. Ontem tava em cima do balcão do caixa, em posição de esfinge, atento – o olhar preguiçoso de Garfield desapareceu por enquanto. O bicho é malandro velho e não quer ser destronado.
Que coisa linda e poética – um casalzinho de idosos de mãos dadas – Ele galante e empolgado como um colegial, conduz com candura a sua princesinha baixinha. O poeta os inveja, pois nunca viverá um momento assim – uma companheira de longos anos. Tudo bem, tem a literatura para acompanha-lo, como agora volta ao ladrão do Genet, o puta de um poeta e escritor.
- E o que tu quer saber, caralho? Vai te fuder – respondeu o bi-polar compadre, que entrou cordial, apertaram as mãos e desejaram bons dias, mas quando o poeta lhe fez um pergunta o homem explodiu. Dá para entender.
E o ar antes mijoso, agora reacendia a flores – o poeta depois de aliviar a bexiga lá atrás, aspergiu o desinfetante sobre a urina e um poucos nos cantos empoeirados. Um ônibus parou, os frios rangeram, os passageiros subiram e ele partiu.
Baratowski, o galante da praça do Bacurizeiro, flagrou a guarda em beijos e abraços com o ex-, o pai do pixixitinho especial dela. E ela não perdeu tempo, arrumou outro, alugaram um quarto. Seu Lasierra não simpatizava muito com ela: “muito esperta” dizia-me. Baratawski nunca fica na reserva sempre tem alguma para bancar – ainda pouco passou um ex- bonitona das pernas grossas que sugava-lhe todos os dias cinquenta reais ou mais – dizendo ele, que é chegado a uma gabolice desenfreada.
A baixinha do bundão fez-lhe lembrar de sua primeira conjugue, prima legitima e sobrinha da mãe, foi busca-la na casa dos pais em Pinheiro, alugou um quarto no condomínio do Kaos na rua da Palma, próximo a Igreja do Desterro. Não demorou nem um ano, ela tascou-lhe uns chifres do capeta. Pobre poeta. Ano depois conheceu o grande amor de sua vida, a sua Deusa Loura com corpo de menina, moraram 17 anos e tiveram um filhote, depois veio a secreta madame Rameaux e três anos, e a poetisa três meses – ai o poeta caiu na real e tornou celibatário.
O casal de carroceiros ambos sentados sobre as tabuas que transportam. Ele no cabresto e ela na lateral no taipá.
A mulher do verdureiro toda sirigaita. Mudaram-se. Fez um muxoxo para o poeta, que ficou na dele. O marido é brabo, anda sempre armado e o pior é muito ciumento.
Dezão agoniado, todo enrolado, buscando alguém para explicar o que houve com seu credito no cartão.
- Já paguei essa porra e e não vou pagar mais porra nenhuma – disse com o rosto crestado, fazendo bandeiraço – Hoje não vou trabalhar não tem material e nem dinheiro – revira a mochila, tira o material do candidato, coloca de novo – Bonjour, eu tô brabo. O que é caralho? – gritou com sua voz pastosa – Poxa, maluco, to morrendo de sono – disse levantando-se pesadamente.
Ao meio-dia – a agua escorria pelo rego da sarjeta na ladeira da avenida, a verdureira grande puxava o seu carrinho e o negão parou o carro para dar carona ao irmãozinho barbeiro e ambos foram para o Popular. O poeta Janaike, todo circunspecto e metódico. No Vilagaleto as moscas, apenas os funcionários apáticos. O caminhão do trigo descarregando no Rei dos Salgados.
Na pensão, almoçou o resto do escabeche de traira com o caldo cremoso de ontem, que a pequenina guardara na geladeira e depois como um selvagem apanhou no pé duas laranjas – comeu uma e escondeu a outra para o jantar.
A tarde a vista fica ofuscada, mesmo assim ler – Genet, Tchekhov, Joseph Heller e por ultimo o mestre português, o nobel Saramago e o icônico “Evangelho segundo Jesus Cristo” – não é blasfêmia, é a versão de um ateu que acredita desacreditando. Muito bom. O livro ainda cheira a novo.











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