
A Distopia de um Corpo
Data 23/09/2026 11:16:06 | Tópico: Poemas
| Era muito simples e também muito absurdo.
O mundo distópico havia chegado.
As empresas lavavam dinheiro com o que fosse possível. A carne era a coisa mais fácil com que poderiam lucrar.
As mulheres já não eram livres. Eram produtos de uma organização criminosa que lucrava em cima delas.
O mais absurdo é que nem sempre sabiam que eram usadas como produto. E essas eram as que mais davam dinheiro.
Quando não se sabe o quanto se vale, quem recebe em cima de você não precisa dividir nada.
Ou, quando não se sabe que é um objeto, você mesma não sabe que tem que cobrar alguma coisa.
Era assim que aquele sistema funcionava.
Não precisava prender ninguém.
Não precisava dizer a uma mulher que ela pertencia a alguém.
Não precisava sequer que ela soubesse que estava sendo usada.
Bastava que acreditasse estar vivendo uma vida normal.
Eva dormiu a vida toda.
Acordou aos vinte e sete anos com fome.
Quando foi viver, deparou-se com quem queria se aproveitar das suas próprias vulnerabilidades.
No começo, ela não entendeu.
Como poderia?
Nada era dito diretamente.
Nada era explícito.
As coisas simplesmente aconteciam.
Pessoas apareciam. Relações começavam. Desejos surgiam. Algumas portas se abriam enquanto outras se fechavam sem que Eva entendesse por quê.
E, por trás de tudo, havia sempre alguma coisa que ela não conseguia enxergar.
Eva não era um produto.
Eva era uma mulher em fase de descobrimento.
E alguém estava se aproveitando das cordas que a seguravam.
Eva era assim: muito intensa.
Não era com todos, mas, quando sentia, sentia tão intensamente que o seu corpo podia levar anos para apagar a memória das próprias sensações.
Ela era curiosa e tinha uma mente livre.
Queria conhecer o mundo. Queria conhecer as pessoas. Queria conhecer a si mesma.
E talvez fosse justamente isso que a tornasse tão vulnerável.
Porque uma pessoa que está descobrindo quem é ainda não sabe exatamente o que pode perder.
Nem o que pode valer.
Eva não aceitava — e não aceitaria — ser usada por um sistema sobre o qual nunca havia concordado e cuja existência absurda e maléfica foi descobrindo aos poucos.
Primeiro percebeu as pequenas coisas.
Depois, os padrões.
Aquilo que parecia coincidência começou a acontecer vezes demais.
O que parecia uma relação começou a parecer uma transação.
O que parecia desejo começou a parecer interesse.
O que parecia liberdade começou a parecer uma liberdade cuidadosamente construída para que ninguém percebesse as paredes.
Aquele sistema estava pior do que a indústria farmacêutica, com suas doenças e seus remédios para coisas que ela mesma criara.
Ali, porém, nem sequer era preciso criar a doença.
Bastava encontrar a vulnerabilidade.
Uma mulher emocionalmente carente.
Uma mulher apaixonada.
Uma mulher solitária.
Uma mulher curiosa.
Uma mulher que precisava ser amada.
Uma mulher que ainda não sabia o quanto valia.
O sistema se aproveitava de mulheres emocionalmente vulneráveis porque nada era explícito, nada era falado.
Parecia que a verdade ia sendo descoberta aos poucos.
Como se o absurdo estivesse escondido à vista de todos.
Todos sabiam.
Não era segredo.
O segredo era entender como era possível que as pessoas de bens deixassem aquilo acontecer.
Pior.
O segredo era se convencer de que haviam pessoas de bens.
Porque talvez o sistema não precisasse de monstros.
Talvez bastasse gente suficientemente confortável para não fazer perguntas.
Gente que soubesse e fingisse não saber.
Gente que lucrasse e chamasse aquilo de negócio.
Gente que visse uma mulher sendo transformada em produto e ainda assim conseguisse dormir à noite.
Eva começou então a perceber que a verdadeira mentira não era dizer que aquilo não existia.
Era convencer todos de que aquilo era normal.
O mundo já estava perdido.
A mentira estava estampada em todos os lugares.
E, quanto mais Eva tentava juntar as peças, mais parecia que estava enlouquecendo.
Parecia esquizofrenia.
Mas era muito mais simples.
Lavagem de dinheiro. #conto de Aia
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