Caderneta de sonhos

Data 27/09/2026 15:50:54 | Tópico: Textos

CARDENETA DOS SONHOS

De repente, gargarejei a boca e o caroço de milho saiu voluntariamente da cova do dente cariado. Respiro aliado, profetizava uma infecção ou coisa pior.
- Buongiorno!-sauda as freiras Combonianas a caminho da casa delas na esquina da rua vinte.
A minha princesinha, toda magrinha, branquinha do jeito que tanto admiro, sorriu nervosamente para mim, enchendo-me de energia. Coisinha linda. Apanhou o ônibus. Uma das minhas paixões. Tenho várias, mas essa é a rainha de todas, pois enquadra-se perfeitamente no ideal dos meus sonhos.
Os dois irmãozinhos fardados, ainda sonolentos a caminho da escola. Um gato espantado para no meio da calçada e me encara por alguns segundos e contorna o bequinho, esgueirando-se pelos arbustos velozmente.
Henry Miller sofreu um Jacksonville com seus dois amigos Ned e O’Mara a caminho de Miami – lembrando-me de ‘Fome’ de Hamsum. Tentou vender jornal, mendigou pelas igrejas e sinagogas. Enfim teve a brilhante ideia de procurar nas mercearias os produtos que seriam descartados, podiam estarem podres e estragados. Deu certo. Depois telegrafou para o pai pedindo dinheiro para a vigem. O velho enviou e com cinco dólares emprestado por Mooney, o jornaleiro, embarcou de volta para Nova York morar com os pais e Mona com a mãe.
1934 – Hitler assume o governo alemão como chanceler. Miller escreveu um artigo sobre as palavras e recebeu um cheque de duzentos e cinquenta dólares – mas o artigo nunca foi publicado. Alugaram um quarto mobiliado na Hancock street, Brooklin, a cidade dos mortos – mas a fome campeava e os ferros aos amigos continuava ferozmente, não podiam atrasar o aluguel ou rua. A sra. Henniker, viúva não tinha coração mole.
- Oh! Meu poeta – foi a saudação do pequeno Gato Guerreiro do meio da rua, com um forno de micro-onda na cabeça. Não parou para responder a minha conclamação fazendo osinal de positivo. Talvez estivesse num corre e ganhar uns trocados.
Na volta encostou e conversamos rapidamente – o micro-onda era do sapateiro Oswaldo levara para seu Cominho fazer a revisão. Já tomara duas doses e esperava na praça para inteirar uma garrafa. O carteiro de chapéu de pano azul bate na porta do vizinho em frente.
Henry e Mona caem na estrada, vão para Carolina onde o incansável O’Mara os espera com promessa de emprego. Mona conseguiu 50 dólares com uma lésbica e resolveram ir de carona, para economizar..
Novamente chegaram atrasados em Asheville, a cidade onde nasceu Tom Wolfe. E O’Mara despacha para uma cabana abandonada cheia de ratos e etc.
O irmão de Prazeres veio deixar duzentos reais para Bardaux. O incansável Israel e a sua prole – uns na bicicleta cargueira e o menor nos braços da mãe.
Passaram a noite na cabana, dormiram em cuas amas portáteis e o idiota que os levou no chão. E de vez enquanto Mona se espantava, achava que o idiota bulia nas suas belas pernas. Na manhã seguinte desceram para a cidade e se separaram de O’Mara – alugaram um quarto, pagando uma semana adiantado e assim fizeram no restaurante.

Chove sobre toda a Vila Embratel e os meus sonhos ardem e derretem no asfalto morno. O mestre do Santo-Daime reapareceu depois de um longo tempo, desde quando deu-me um copinho com o chá. Deve fazer anos, que nem me recordo a data. Fui pego de surpresa numa das experiencias mais loucas que já tive – alucinações auditivas, taquicardia, vômitos – foram minutos que para mim pareciam horas, pensei que morreria – depois veio a bonanza.
Depois de varias caronas e de encontrarem pessoas bondosas chegaram a Nova York e foram morar no apartamento do amigo Dr. Kronski no Bronx. Desiludido resolveu voltar ao batente. Mas fazer o quê? Mona empregara-se como recepcionista no “Caldeirão de Ferro” e ele foi vender enciclopédias.
Uma pausa para não pirar. A mãe de Charles perguntou-me o preço de uma grade. 200 reais -respondi-lhe sem pestanejar. Um saco. Queria estar em Mumbai, naquele transito louco e barulhento, a multidão sem fim se arrastando sem destino, o calor abrasador. Olhar as dawballas na labuta, no seu complicado jeito de entregar as refeições nos lugares certos. Apanhando os trens super lotados – andar pelas vielas das faveladas apinhadas de cães ferozes e de crianças brincando.
“Minha vontade é a lei” – 1959 – com Athony Quinn e Henry Fonda – um bom faroeste que Nho Bamba adoraria. Sr. Vince assiste no seu quarto. Recomecei a ler Celine por indução – Bukowski fala muito dele, mas não gosta de Miller – isso me deixa triste. Citou apenas três – Celine, Hemingway e Passos.
Adoro e venero Miller, acho-o muito onírico e profundo nos seus devaneios literários – não vejo como defeito – é a maneira dele se expressar. É difícil concordar com Buk, mas ele tinha razão – tem hora que Miller é cacete, quando começa devagar como um guru em busca da liberdade espiritual e perde o rumo – mesmo assim o respeito. Encerro “Plexus” sem reler as vinte ultimas páginas -é puro cacete.
E agora para onde irei, ainda rimbomba dentro de mim a abertura de “Viagem ao fim da noite” (se não me engano) de Celine, o antissemita e colaboracionista indireto – interessante Hamsum também admirava a supremacia nazista – mas isso não tira o mérito de suas genialidades literárias.
Falta muita coisa para alcançar a minha apoteose. Não me vejo como escritor. Os meus textos são merdas puras – enganei-me durante anos, mas não desisto do meu intento -pratico constantemente, criar um vínculo forte com as palavras, perder o medo delas.



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