O tempo

Data 18/10/2026 11:59:13 | Tópico: Prosas Poéticas

O tempo caminha sem pressa, mas nunca para, arrasta-nos pelos dias como folhas secas levadas por um vento invisível. Nascemos na urgência de preencher o vazio das horas, sem compreender que cada passo em frente é, na verdade, uma despedida silenciosa de um pedaço de nós que nunca mais vai voltar.

Crescemos a acumular instantes que o ontem rapidamente engole. É aí que o passado começa a desenhar-se no peito, não como uma ausência vazia, mas como o eco de tudo o que fomos e já não conseguimos tocar. Sentimos falta da infância sem medos, dos rostos que partiram antes de nós e das certezas que a maturidade acabou por desmoronar. O amanhã assusta porque transporta essa contagem decrescente, essa certeza de que a vida é um sopro que se esgota entre as nossas mãos.

Na fragilidade dos anos que avançamos, percebemos que viver é aprender a carregar essa bagagem invisível de memórias. O passado torna-se um amparo melancólico nos dias cinzentos, uma prova viva de que amámos, sofremos e partilhámos a nossa existência com o mundo. O corpo envelhece, o olhar ganha a gravidade da experiência, mas a alma recusa-se a desistir da caminhada.

No final de tudo, quando o ciclo se fechar e o silêncio definitivo exigir o descanso, o tempo deixará de ser um inimigo. Ficará apenas a essência dos nossos dias, guardada no coração daqueles que continuam a pisar o mesmo chão. Porque a saudade, no seu sentido mais profundo, é a única forma que encontrámos para enganar a morte e fazer com que a nossa história continue viva, mesmo quando já formos apenas uma lembrança distante.

Escrito a 12 /10/26



Este texto vem de Luso-Poemas
https://www.luso-poemas.net

Pode visualizá-lo seguindo este link:
https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=386245