O mundo do sr. Con - Friday, 09 & Samedi, 10/10/26

Data 11/10/2026 12:05:30 | Tópico: Textos

Friday, 09 de outubro de 2026
O dia não começou muito bem na pensão, o gás do fogão acabou e a Sra. Vince despertou soltando chispas e ameaças para todos os lados. E antes que sobrasse para ele, colocou as tralhas debaixo do braço ("A mulher do próximo" e as folhas de papel almaço) e capou o gato sem fazer suas orações.
- Muita poeira! berrou fanhosamente o vizinho do lado - Terra demais - Ele que preserva a limpeza, aquilo era angustiante, principalmente para a sua sinusite.
A loura baixinha barraqueira da galera do Popular, é a primeira a subir para garantir uma posição na fila. Ainda não era nem dez horas - presumiu Sr. Con concentrado na "Mulher do Proximo" de Gay Talase - citando o loucão do Wilhelm Reich, psicologo que pregava o amor sem compromisso para curar todos os males psicológicos.
- Já começou o corte - disse Dezão - Hoje já não teve café no Popular.
- É o cara que mais patrocina a violência - falava ao celular um anônimo transeuntes.
- Cortaram o café - repetiu Dezão envergando a couraça do trampo pesado - a camisa do Flamengo, uma calça desbota e uma bota menos brilhante - Brandão que mandou, injuriado por que perdeu.
- E ai, não vai almoçar lá? - perguntou o poeta.
- Não, eu tô com meu papai - respondeu candidamente, se estivesse nas aguas estava-o esculhambando-o, chamando só de miserável.
- Então tá! - conformou-se o poeta.
E o gigantão como um elefante marinho voltou para seu posto, sentando ao lado do pai que o olhava desconfiado.
Para combater a secura e amenizar o calor o vizinho do lado joga agua com um papeiro no asfalto quente, que emana o odor agridoce de terra molhada.
Pela manhã o compadre deu-lhe cinco reais e o poeta adiantou um real para Dezão almoçar no Popular - Hoje é dobradinha com frango frito - disse seu Roriz voltando de lá. Seu Milson, o pedreiro seguiu para lá um pouco alto.
No Popular, o poeta papou dois pratos: a dobradinha e o frango divino e ao lado da família do irmão Robinson (Ex-Kirró) - seus tres pixixitinhos e a circunspecta Sra Robinson - todos concentrados, era a segunda rodada e guardando os ossos para sua cadela. Irmão Robinson é uma figura atipica, até uns tempos atrás era conhecido como Kirró, descuidista, ladrão de menor porte, mas encontrou Jesus e o homem se transformou em uma nova criatura Irmão Robinson. Dezão com seu corpão ocupava o banco do meio e comia com gosto, talvez fosse seu segundo ou terceiro prato.
Blindowski bebia na rotatoria e o chamou, opoeta penas acenou. Estava pesado e o sol causticante. Encontrou o comandante LaSierra na parada em frente ao mercado, sentou-se ao lado dele:
- Eu vou para casa de Mama Grande - eu tô muito cansado, muita coisa pendente, e não posso pirar e ainda tenho que eleger Lula - desabafou, realmente o ar cansado preocupou o poeta. Ele não pode ter emoções fortes que surta e vai parar na clinica.

Samedi, 19 de outubro de 2026

Mama Iva queria armar a tenda na oficina, trazia uma gorotinha da pura, ainda sentou-se, mas o poeta saiu pela tangente, alegando que iria com Gordilho ao mercado. Este está exultante com a possível vitória de Bolso Boy para a presidência.
- Tô numa missão - gritou Blindowski fazendo continência do meio da rua seguia o Sr. dos Conhaques.
- Graças a Deus! aliviou-se o poeta que queria ler em paz e talvez até escrever suas impressões matinais.
O sisudo vizinho da frente deu-lhe uma cadeira plástica variada, colocou ao lado da outra.

Meia-hora depois
Blindowski parou no meio da calçada, uma sacola e um litro de conhaque de São da Barra - todo tremulo conseguiu servir-se.
- Bebendo conhaque? - estranhou o poeta, que cansou de ouvi-lo dizer que ojerizava a esse tipo de bebida, ele gosta mesmo é da "marvada".
- Amigo, quando a gente tá liso e fissurado bebe até chumbo derretido - respondeu estoicamente entornado a dose goela abaixo.
O sr. do conhaque arrancou-lhe o litro da mão e também serviu-se.
- E ai poeta, não quer uma dose? -perguntou o Sr. dos conhaques, o rosto inchado e os olhos quase fechando.
- Não, obrigado - indeferiu o poeta mantendo sua castidade etílica.
Um fio caido e estendido no meio da ladeira em frente ao Lourival paralisou o transito, principalmente das caçambas por alguns minutos.
O barulho do aspirador de pó do outro lado, vindo da casa do vizinho sisudo.
Dezão pensou em pedir dois reais para o seu papai, mas sabia que o velho fulero não lhe daria e andava como um urso engaiolado de um lado para outro em frente aos seus domínios. O poeta o chamou e lhe dois reais:
- Compra dois, um pra mim e outro pra ti - o semblante iluminou-se de alegria. Era dez e cincoenta.
E a manhã fenecia lentamente. A Equatorial veio resolver o problema do fio caído. Dezão voltou, poeta pegou o bandeco com a colher de plástico e Dezão desapareceu.
De volta a pensão de bucho cheio, o drama da agua e a sra. Vince estava mais tiririca que o dia anterior. Sr. Con feliz com as 130 leituras em menos de 24 horas no luso-poema, do texto de segunda-feira que postou ontem a tarde. Sentiu-se feliz.
Almoçou novamente o resto do mocotó do Sr. VInce deixara para ele.
No meio da tarde
Mano Brown, o serigrafista prega solitariamente as pedras de seu quintal.
- Não duvides da minha personalidade - enfatizou bruscamente o mestre para alguém.
As seis horas da tarde, canela do transformador de alta tensão em frente ao Val estourou num barulho similar a uma bomba israelense - e a energia foi embora.


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