A geografia instável das correntes

Data 12/10/2026 16:01:43 | Tópico: Poemas



Crescemos assim

dentro da sílaba húmida das falésias.



Às vezes

éramos apenas uma inclinação da luz

sobre o dorso esquecido das marés.



O sal atravessava-nos

como uma língua anterior à boca

como um rumor de conchas a aprender o peso da noite.



Debaixo das pedras

dormiam aves sem céu.

Debaixo das aves

dormia o vento.

E o vento sonhava com a forma indecisa da água.



Crescemos assim.

Fragmento dentro de fragmento

espuma dentro da espuma

até o horizonte se tornar uma ferida transparente.



Não conhecíamos portos.

Trazíamos nas mãos apenas a geografia instável das correntes.

Nem barcos. Nem velas.



Apenas essa obstinação do ar

a conduzir-nos para o interior das distâncias.



E quando o mar nos chamava

já não era o mar.

Era a pedra

lentamente

a recordar-se do vento.








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