E o frio, Ana

Data 16/10/2026 20:57:07 | Tópico: Textos

E o frio, Ana. O frio não veio. O rio às portas da morte, como nem esperasse já água para tapar as pedras. Ou o frio veio e não o notei. Os ossos que me foram nascidos neste corpo, que nem sei se já o tenho, começam a estalar não de dor mas de saudade, como soubessem ser chegada a hora de doer, de me dizerem: nós somos os teus ossos e agora doemos, bem te podes contorcer ou arruinar o frio à lareira, cá estamos a negar esse chá que jura tirar dores. E os meus ossos, Ana, raios os partam que nada. Tu ali de volta de mim, a tapares-me de calores, a veres os ossos tomarem conta de mim e eu manco, a queixar-me, que pobre diabo sempre a contorcer-se que lhe doíam os ossos e tu, Ana, de sorriso a dizeres-me tonto, que são ossos da idade, ossos que doem, mas que passa no primeiro calor, Ana, a chegares a lareira, a ateares a lareira com as pinhas, a sopa no fogão. Tu de volta da cozinha, os meninos logo aí não tarda nada, dizias. Os meninos. Quando deixaram de ser meninos e apareceram crescidos à porta? O Álvaro, toda a tua cara, todos os teus olhos, mas o meu andar torto, a barba cresceu-lhe tão rapidamente que nem dei por ela, olhei um dia e lá estava ele a empurrar a porta com barba de homem. Pai, vou trabalhar para fora. E o lume continuou. E os meus olhos continuaram nas chamas. E nada se mexeu. A tua mãe, Álvaro, por pouco um gesto que a denuncia, quase nem gesto, um pequeno movimento, uma ligeira alegria que vejo afundar-se, talvez queimar-se na lareira para onde olhava, uma resignação. Os nossos filhos, dizias-me nessa noite, que vão, e respirava mais profundamente, a minha doce Ana, a sua cara a fundar-se no meu peito. Os nossos filhos, dizias, como fosse nossa uma responsabilidade qualquer que partiria com eles, que se agarrava a eles mas ficava em nós, nem sei como te explicar, Ana. Depois foi a Carminho, ia com o Álvaro, haveria de se empregar, nem que fosse a lavar escadas, dizia ser emprego digno, tão digno quanto outro qualquer, lá nos dizia a Carminho, logo depois da entrada do Álvaro na cozinha, eu ainda de olhos no lume da lareira, a ver se me estalava uma faúlha nos olhos para dizer que me doíam sem mostrar a alma que me queimava. A Ana, de costas viradas para eles, a derrubar os ombros cada vez mais, cada vez mais. Foi o silêncio do dia seguinte que trouxe a confirmação da partida. A Carminho e o Álvaro. Lembras-te, Ana? Querias tanto que ficassem de voltar, de ter saudades da casa, que a lavaste mais de mil vezes, de madrugada ao pôr-do-sol; ou a ver se eles se lembravam bem quando fossem de que tijolos e de que cores a casa era feita, sem o pó e o sujo, e eu ainda aqui, Ana, a olhar para a memória deles, e a memória nunca dói menos.


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