Processo na mesa -

Data 25/10/2026 15:39:29 | Tópico: Textos

PROCESSOS NA MESA

O começo
Estava chateado e cansado do blá-blá de todos os dias da minha amada reclamando a falta de dinheiro, que tomei uma drástica decisão. Dois irmãos meus estavam empregados no Tribunal de Justiça do estado, ambos colocado por um desembargador amicíssimo e até aparentado do velho Bamba, quando fora corregedor-geral de justiça.
Um dia conversando com o motorista dele no carro oficial, um luxuoso Comodoro com ar condicionado e chapa preta que me levava para fazer um serviço de solda na mansão do dito cujo, ousei perguntar-lhe se havia possibilidade do doutor arranjar um empreguinho para mim no tribunal. Seu Vital, o robusto motorista adiantou-me, que eu deveria ter paciência pois o doutor seria o próximo presidente do tribunal, assim ficaria mais fácil.
Em janeiro de 1996, o amigo do velho Bamba assumiu a presidência. Fiquei naquela, vou ou não vou e o tempo corria, ainda fui umas três vezes até a porta da mansão dele, mas não senti firmeza e voltava
Quando finalmente criei coragem era junho. Vesti a melhor roupa embolorada e cheirando a naftalina e encarei -o, levando um envelope com uns recortes de jornais com umas reportagens sobre mim..
Era sete horas da manhã. Um PM em farda de passeio encontrava -se na porta e olhou-me duramente e meio desconfiado. Disse-lhe que queria falar com o doutor desembargador e que era também o filho do ferreiro Bamba. Abriu a porta e entrou meio sem vontade com a cara amarrada. Minuto depois voltou com uma feição mais sociável e mandou-me segui-lo até um terraço atrás da garagem. O meritíssimo sentado num banco de ferro fundido, vestido num robe de chambre, apertou-me a minha mão fria, mandou-me sentar ao lado e procurou pelo velho Bamba.
Fiquei um pouco nervoso, mas abri o verbo e contei-lhe o proposito da minha visita. Expliquei-lhe a minha situação, com os serviços escassos na oficina e etc e tal. Ouvia com um bom juiz analisando um caso, com os braços cruzados no peito.
- Meu filho, o serviço lá paga mal e pouco e o salario é o mínimo – disse-me a guisa de arrefecer meus ânimos.
- Doutor, essa salario baixo me serve, por que assim poderei me planejar, quero voltar a estudar – abrir o envelope, tirei os recortes e mostrei uma reportagem sobre um dicionário russo que havia organizado, deu uma olhada e um leve sorriso aflorou no canto de seus lábios.
- Tu estudas russo?
- Sim, senhor. – Respondi meio acanhado
Balançou a cabeça satisfeito, devolveu-me os recortes e encarou-me.
- Bem, nesse momento não posso fazer nada. Estamos em época de eleição. Mas vou começar a pensar no teu problema no ano que vem, verei o que posso fazer.
- Então posso ficar tranquilo?
- Não – alterou a voz – não estou te prometendo nada. Ainda vou pensar no teu caso a partir de janeiro, entendeu?
- Sim, doutor. Estendi-lhe a mão, ele a apertou e assim encerramos nosso encontro
Chamou o PM que me acompanhou até a porta, abrindo-a para mim sai. Na rua respirei aliviado, o passo inicial foi dado, agora era esperar esses longos seis meses. .Fui direto para a lojinha da minha amada, que estava roendo as unhas mais ansiosa do que eu.
- E ai? – perguntou-me com os olhos brilhando.
- Ficou para o ano que vem! – respondi e segui para oficina no beco de seu Eneas no bairro do Portinho
II
Um ano depois em maio de 1997 fui chamado a residência do digníssimo excelentíssimo sr. Desembargador J* presidente do egrégio Tribunal de Justiça. Estava sentado numa farta mesa de café, trajando um robe de chambre de seda, apontou uma cadeira para mim sentar e falou-me enquanto a criada servia-me o café.
- Estou arrumando as coisas para ti lá no Tribunal. Vai amanhã falar com a minha filha Doutora* que é a minha secretaria particular. Ela vai te ajeitar teu emprego.
Despedi-me feliz, quase beijava-lhe as mãos, respirei aliviado e não via a hora de chegar a loja e contar a novidade a minha amada Van.
No outro dia, todo bem produzido, o rosto rapado três vezes, o sapato brilhando dirigi-me ao imponente Palácio de Justiça Clovis Bevilacqua na Avenida Dom Pedro II. Subi até o terceiro andar, ao gabinete presidencial e fui barrado por um PM maçaneta, que anunciou-me que a filha do homem não se encontrava e dai começou o meu calvário de gato e rato, e quando conseguir encontra-la deu-me uma longa lista de documentos e para meus dois irmãos já empregados lá, pediram apenas o RG e o CPF. Começou a luta para tirar esses documentos que incluíam até os meus certificados de conclusões do ensino fundamental e médio – acho que a filha dele não foi muito com a minha cara. Por ser o preferido dele.
Então resolvi encontrar-me novamente com o excelentíssimo Sr. Presidente, mas tudo conspirava contra. Então lembrei-me que certa vez falou que precisaria de dois ferrolhos para porteira de sua fazendo em Cururupu. E assim os fiz e numa manhã bem cedo fui novamente a residência dele presenteá-lo, o homem ficou feliz e perguntou-me como estava indo as coisas. Expliquei-lhe tudo, ele se irritou e disse-me:
- Encontre-me amanhã as dez no gabinete da presidência. Eu vou dar um jeito nisso, certo.
- Sim senhor!
As dez em ponto nos encontramos, mandou-me esperar enquanto saia com uma baixinha e minutos depois voltou e mandou-me acompanhá-la até a sala do departamento pessoal. Ao entrar sentir o ambiente pesado e anormal. Uma senhora bem vestida, atras de uma enorme mesa mastigava uns cubos de gelo ao lado a filha do homem meio sem graça que sorriu amarelamente para mim e comportou-se menos arrogante como de costume. Ouvi a senhora do gelo sussurra-lhe nos ouvidos discretamente:
- Quem é esse? – E olhou menosprezadamente dos pés a cabeça e mastigando o gelo.
- Esse é o filho de um grande amigo e talvez até primo do meu pai.
Pediram o RG e o CPF que xerocaram imediatamente. Procurei uma agência do banco do estado para abrir uma conta. E assim fiquei a espera da portaria que foi outro drama, duas semanas depois finalmente o recebi designando-me com datilografo e lotado no Juizado Especial Cível e Criminal de um bairro qualquer, apenas cinco horas de expediente por dia e dois salários mínimos e o que encabulou meus irmãos, com quinze dias apanhar o meu primeiro contracheque. E para minha grande tristeza nesse dia o excelentíssimo sr. Presidente veio a óbito com infecção generalizada, mas deixou bem empregado.

III
Depois de muitas vindas e idas ao departamento de recursos humanos do egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão no Palacio Clovis Bevilacqua, finalmente recebi a minha esperada portaria, assinado pelo eminente presidente, nomeando datilografo lotado no Juizado Especial Civil e Criminal do João Paulo na Vila Ivar Saldanha.
Era uma manhã de sexta-feira, quase no meio de junho de 1997. De imediato segui para lá, conhecer o meu futuro ambiente de trabalho que funcionava nas antigas dependências da IVESA no escritório administrativo – onde no século passado ocorreu um latrocínio com duas vítimas fatais que chocou a cidade na época.
Passei pelo portão e o pequeno estacionamento e entrei no aquário do salão principal – varias mesas rente as paredes – os funcionários ou melhor os serventuários azafamados andando de um lado para outro – pessoas sentadas ouvidas por pacientes futuros colegas, o barulho das maquinas datilografando – Parei uns instantes no meio, desnorteado, quando uma baixinha de cara de gata lambida aproximou-se de mim:
- Deseja alguma coisa senhor? – perguntou-me afetuosamente.
- Sim, quero falar com o senhor secretario, por gentileza! – olhando para os lados.
- Fulano, trazo processo tal, tem aqui um requerido querendo pagar – gritou alguém para a baixinha, que olhou para mim e fez o sinal para segui-la.
Entramos numa sala, cheio de arquivos, o cofre, carteiras atulhadas de pastas com processos – A menina apontou para um jovem bem afeiçoado e bem vestido sentado numa mesa ao fundo atrás do computador. Ele olhou por cima e levantou-se. E a baixinha correu para um arquivo e foi consulta-lo atrás do processo.
Aproximei-me cautelosamente como um gato desconfiado e entreguei-lhe o envelope. Ele pegou educadamente, abriu-o e o leio-o e fez um sorriso discreto no canto do lábio.
- Novo funcionário! – estendeu a mão, que apertei sem pestanejar – Seja bem-vindo, Sr. Constantino, nosso futuro datilografo. Muito bem, sou o dr. Ferdinando, o secretário. A Claudinha o senhor já conhece – apontou para a baixinha que se virou e sorriu como o gato de Alice nos Pais das Maravilhas e voltou-se debruçando-se sobre os processos – Esse aqui é o nosso novo colega – disse a ela que apenas assentiu com a cabeça sem se virar. – Venha, vou lhe mostrar os outros – e saímos para a sala.
Os outros todos sentados em suas carteiras, pararam seus afazeres e olharam para nós, até os “clientes”
- Pessoal, esse aqui é o sr. Constantino, o nosso novo colega – todos balançaram a cabeça e até sorriram e sinalizaram com as mãos. Também os cumprimentei e eles voltaram as suas labutas burocratas judiciais.
Saímos para o terraço. Uma escadaria levava ao escritório do meritíssimo sr. Juiz (que não se encontrava) e a sala do julgamento de Instrução. Ao lado aquário a sala onde realizava-se as audiências de conciliação com o advogado-conciliador.
- Bem, seu Constantino, a sua portaria estipula 36 horas semanais. O senhor prefere o turno da manhã das oito as uma da tarde ou da tarde das uma as seis?
Optei pela manhã.
- Muito bem e o sr quer começar quando?
- Na segunda, doutor.
- Muito bem – estendeu novamente a mão finíssima e branca – Então nos vemos na segunda, ok?
- Sim, senhor! – confirmei muito grato pela boa inesperada recepção e um chefe bem educado.
Olhei pelo grande vidro aguario e vi os oitos funcionários em pé cochichando no meio do hall e quando me viram ficaram meio sem graça e voltaram as suas mesas – as sextas o o movimento era fraco.
Sai, atravessei a pista e postei-me numa parada em frente. E balancei a cabeça contemplando o prédio do meu novo mundo – É agora sou oficialmente um funcionário publico.
IV
- Seu Constantino hoje o sr. vai fazer o pregão. – ordenou o então jovem secretario geral do Juizado Especial Civil e Criminal do João Paulo no terceiro dia do seu expediente naquele órgão do Tribunal de Justiça onde recentemente fora nomeado como datilografo.
“Meu deus,o que é pregão? – perguntou-se a si mesmo, enquanto olhava aturdido a azafama dos funcionários, nos entra e sai do publico – todos alheios a seu drama e a sua insignificância presença.
Na verdade o poeta estava mais perdido do que cego no meio de um tiroteio, era cabaço, uma das ultimas nomeações do falecido presidente antes morrer precocemente vitima de uma misteriosa infecção generalizada. Os colegas não dava-lhe a minha atenção e fingiam não vê-lo – assim foi no primeiro dia, uma segunda feira, quando timidamente apresentou a gentil secretario a sua portaria – um jovem bem afeiçoado, advogado e filho de um juiz aposentado que o recebera muito bem



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