Depois dos relógios

Data 08/11/2026 12:43:38 | Tópico: Poemas




Depois vieram os relógios.

Vieram as portas que se fecham por dentro.

Vieram as vozes habituadas ao peso

e os mapas que esqueceram o assombro.

Mas

às vezes

quando a noite deposita uma pequena fogueira

sobre a face das casas

alguma coisa regressa.

A forma antiga de escutar.

Então o coração reconhece uma claridade sem idade

um lugar que nunca abandonou verdadeiramente.

E caminha para ele.

Sem pressa.

Como quem regressa a uma casa

que apenas sobrevive na inclinação da memória.

O caminho não tem nome.

Há ramos movendo-se dentro da sombra.

Há uma luz dispersa entre as pedras.

Há o rumor de qualquer coisa viva respirando sob as ruínas.

Então

entre os escombros do tempo

encontra um pequeno animal de luz

a dormir.





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