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Data 02/11/2026 19:51:24 | Tópico: Poemas
| As cartas acumuladas atrás da porta, sabes, Jorge? Falaste da Paula, de amores perdidos e dos teus pais sorrindo atrás da terra lavrada. Tínhamos coisas em comum, eu e tu, Jorge; tu homem de letras e eu mais das pinturas. Alguns dos meus irmãos são escritores, já te disse, Jorge? Um deles ganhou um prémio não sei qual, o Saramago prefaciou-lhe o livro. Espalharam-se pelo mundo como o fogo no verão: Toronto, Berlim, o Zé algures no Québec, a Maria nas Antilhas nunca soube a fazer o quê. A seguir ao café deste-me uns contos para ler, querias publicar e precisavas de alguém que lesse primeiro. Li em voz alta a primeira frase: «Nesta altura do ano o sol fica mais baixo nos Açores.» Sorri. Pareceu-me bonito. Dez anos atrás ofereci-te um quadro. Não o quiseste: era o teu retrato. Talvez a verdade das rugas tivesse sido violenta, talvez as violetas não estivessem de acordo, talvez uma outra razão esdrúxula qualquer. O sol mais baixo dos Açores atrás dos teus olhos, Jorge, sabes? As cartas acumuladas atrás da porta, algumas delas escritas por mim: «Jorge, não quero voltar a ver-te, nem quero ser tua amiga. Tenho uma vida agora, um filho que pinta, que me lembra as coisas más da família: a maldade doce da mãe, a fúria pirosa do pai; e também o criado horroroso que andava lá por casa a partir pratos, a rezar para que coisas más acontecessem aos outros.» Não sou mentiroso, sabes? Tentaste salvar a tua honra. Qual honra, Jorge? Somos apenas velhos à espera da morte e pintamos e escrevemos coisas. Toda uma performance de um talento que nunca tivemos. Jorge, vi o mar dos Açores atrás do teu olhar, o monte cinzento onde me apalpaste o sexo. Tive vontade de te beijar, Jorge, quando desta vez te vi afastar-te com o quadro debaixo do braço e o sol baixo dos Açores atrás dos meus olhos. Ofereci-te o quadro. Para mim nada valia. Sempre menti para mim acerca de factos elementares da vida.
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