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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
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    <category>João Cabral de Melo Neto</category>
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      <title>Luso-Poemas</title>
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      <title>O CÃ£o Sem Plumas</title>
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      <description>&lt;strong&gt;O CÃ£o Sem Plumas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade Ã© passada pelo rio&lt;br /&gt;como uma rua&lt;br /&gt;Ã© passada por um cachorro;&lt;br /&gt;uma fruta&lt;br /&gt;por uma espada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rio ora lembrava&lt;br /&gt;a lÃ­ngua mansa de um cÃ£o&lt;br /&gt;ora o ventre triste de um cÃ£o,&lt;br /&gt;ora o outro rio&lt;br /&gt;de aquoso pano sujo&lt;br /&gt;dos olhos de um cÃ£o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele rio&lt;br /&gt;era como um cÃ£o sem plumas.&lt;br /&gt;Nada sabia da chuva azul,&lt;br /&gt;da fonte cor-de-rosa,&lt;br /&gt;da Ã¡gua do copo de Ã¡gua,&lt;br /&gt;da Ã¡gua de cÃ¢ntaro,&lt;br /&gt;dos peixes de Ã¡gua,&lt;br /&gt;da brisa na Ã¡gua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia dos caranguejos&lt;br /&gt;de lodo e ferrugem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia da lama&lt;br /&gt;como de uma mucosa.&lt;br /&gt;Devia saber dos povos.&lt;br /&gt;Sabia seguramente&lt;br /&gt;da mulher febril que habita as ostras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele rio&lt;br /&gt;jamais se abre aos peixes,&lt;br /&gt;ao brilho,&lt;br /&gt;Ã  inquietaÃ§Ã£o de faca&lt;br /&gt;que hÃ¡ nos peixes.&lt;br /&gt;Jamais se abre em peixes. </description>
      <pubDate>Wed, 13 Feb 2013 00:34:19 +0000</pubDate>
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      <title>No centenÃ¡rio de Mondrian</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1836</link>
      <description>&lt;strong&gt;No centenÃ¡rio de Mondrian&lt;/strong&gt; (1972)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 OU 1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a alma se dispersa&lt;br /&gt;em todas as mil coisas&lt;br /&gt;do enredado e prolixo&lt;br /&gt;do mundo Ã  sua volta,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ou quando se dissolve&lt;br /&gt;nas modorras da mÃºsica,&lt;br /&gt;no invertebrado vago,&lt;br /&gt;sem ossos, de Ã¡gua em fuga,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ou quando se empantana&lt;br /&gt;num alcalino demais&lt;br /&gt;que adorne o Ã¡cido vivo&lt;br /&gt;que rÃ³i porÃ©m que faz,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ou quando a alma borracha&lt;br /&gt;tem os mÃºsculos lassos&lt;br /&gt;e Ã© incapaz de molas&lt;br /&gt;para atirar-se ao faÃ§o:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;entÃ£o, sÃ³ essa pintura&lt;br /&gt;de que foste capaz,&lt;br /&gt;de que excluÃ­ste atÃ©&lt;br /&gt;o nada, por demais,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e onde sÃ³ conservaste&lt;br /&gt;o lÃ©xico conciso&lt;br /&gt;de teus perfis quadrados&lt;br /&gt;a fio, e tambÃ©m fios,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pois que, por bem cortados,&lt;br /&gt;ficam cortantes ainda&lt;br /&gt;e herdam a agudeza&lt;br /&gt;dos fios que os confinam,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;entÃ£o, sÃ³ essa pintura&lt;br /&gt;de cores em voz alta,&lt;br /&gt;cores em linha reta,&lt;br /&gt;despidas, cores brasa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sÃ³ tua pintura clara,&lt;br /&gt;de clara construÃ§Ã£o,&lt;br /&gt;desse construir claro&lt;br /&gt;feito a partir do nÃ£o,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pintura em que ensinaste&lt;br /&gt;a moral pela vista&lt;br /&gt;(deixando o pulso manso&lt;br /&gt;dar mais tensÃ£o Ã  vida),&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sÃ³ essa pintura pode,&lt;br /&gt;com sua explosÃ£o fria,&lt;br /&gt;incitar a alma murcha,&lt;br /&gt;de indiferenÃ§a ou acÃ­dia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e lanÃ§ar ao fazer&lt;br /&gt;a alma de mÃ£os caÃ­das,&lt;br /&gt;e ao fazer-se, fazendo&lt;br /&gt;coisas que a desafiam.</description>
      <pubDate>Sun, 18 Nov 2012 02:07:56 +0000</pubDate>
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      <title>QuestÃ£o de pontuaÃ§Ã£o</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1623</link>
      <description>Todo mundo aceita que ao homem&lt;br /&gt;cabe pontuar a prÃ³pria vida:&lt;br /&gt;que viva em ponto de exclamaÃ§Ã£o&lt;br /&gt;(dizem: tem alma dionisÃ­aca);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;viva em ponto de interrogaÃ§Ã£o&lt;br /&gt;(foi filosofia, ora Ã© poesia);&lt;br /&gt;viva equilibrando-se entre vÃ­rgulas&lt;br /&gt;e sem pontuaÃ§Ã£o (na polÃ­tica):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o homem sÃ³ nÃ£o aceita do homem&lt;br /&gt;que use a sÃ³ pontuaÃ§Ã£o fatal:&lt;br /&gt;que use, na frase que ele vive&lt;br /&gt;o inevitÃ¡vel ponto final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 15 Apr 2012 18:51:55 +0000</pubDate>
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      <title>Bifurcados de &amp;quot;Habitar o tempo&amp;quot;</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1530</link>
      <description>Viver seu tempo: para o que ir viver&lt;br /&gt;num deserto literal ou de alpendres;&lt;br /&gt;em ermos, que nÃ£o distraiam de viver&lt;br /&gt;a agulha de um sÃ³ instante, plenamente.&lt;br /&gt;ExceÃ§~so aos desertos: o da Caatinga,&lt;br /&gt;que nÃ£o libera o homem, como outros,&lt;br /&gt;para que ele imagine ouvir-se mundos&lt;br /&gt;ouvindo-se a mÃ¡quina bicho do corpo;&lt;br /&gt;para que, sÃ³ e entre coisas de vazio,&lt;br /&gt;de vidro igual ao do que nÃ£o existe,&lt;br /&gt;o homem, como lhe sucede num deserto,&lt;br /&gt;imagine sentir outras coisas ao sentir-se;&lt;br /&gt;embora um deserto, a Caatinga atrai,&lt;br /&gt;ata a imaginaÃ§Ã£o; nÃ£o a deixa livre,&lt;br /&gt;para deixar-se, ser; a Caatinga a fere&lt;br /&gt;e a ideia-fixa: com seu vazio riste.&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-large;&quot;&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Ele ocorre vazio, o tal tempo ao vivo;&lt;br /&gt;e, como alÃ©m de vazio, transparente,&lt;br /&gt;habitar o invisÃ­vel dÃ¡ em habitar-se:&lt;br /&gt;a ermida corpo, no deserto ou alpendre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desertos onde ir ver para habitar-se,&lt;br /&gt;mas que logo surgem como viciosamente&lt;br /&gt;a quem foi ir ao da Caatinga nordestina:&lt;br /&gt;que nÃ£o se quer deserto, reage a dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JoÃ£o Cabral de Melo Neto, em; &quot;A educaÃ§Ã£o pela Pedra e outros poemas&quot;</description>
      <pubDate>Thu, 17 Nov 2011 17:13:25 +0000</pubDate>
      <guid>https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1530</guid>
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      <title>Os TrÃªs Mal-Amados</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1531</link>
      <description>Joaquim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidÃ£o de idade, minha genealogia, meu endereÃ§o. O amor comeu meus cartÃµes de visita. O amor veio e comeu todos os papÃ©is onde eu escrevera meu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor comeu minhas roupas, meus lenÃ§os, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o nÃºmero de meus sapatos, o tamanho de meus chapÃ©us. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor comeu meus remÃ©dios, minhas receitas mÃ©dicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citaÃ§Ãµes em verso. Comeu no dicionÃ¡rio as palavras que poderiam se juntar em versos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faminto, o amor devorou os utensÃ­lios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensÃ­lios: meus banhos frios, a Ã³pera cantada no banheiro, o aquecedor de Ã¡gua de fogo morto mas que parecia uma usina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a Ã¡gua dos copos e das quartinhas. Comeu o pÃ£o de propÃ³sito escondido. Bebeu as lÃ¡grimas dos olhos que, ninguÃ©m o sabia, estavam cheios de Ã¡gua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor voltou para comer os papÃ©is onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor roeu minha infÃ¢ncia, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lÃ¡pis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto Ã  bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automÃ³vel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a Ã¡gua morta dos mangues, aboliu a marÃ©. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde Ã¡cido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminÃ©s.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu atÃ© essas coisas de que eu desesperava por nÃ£o saber falar delas em verso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor comeu atÃ© os dias ainda nÃ£o anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relÃ³gio, os anos que as linhas de minha mÃ£o asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verÃ£o. Comeu meu silÃªncio, minha dor de cabeÃ§a, meu medo da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As falas do personagem Joaquim foram extraÃ­das da poesia &quot;Os TrÃªs Mal-Amados&quot;, constante do livro &quot;JoÃ£o Cabral de Melo Neto - Obras Completas&quot;, Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pÃ¡g.59.</description>
      <pubDate>Tue, 15 Nov 2011 17:00:00 +0000</pubDate>
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