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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
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    <category>Machado de Assis</category>
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      <title>Luso-Poemas</title>
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      <title>Manhã de Inverno</title>
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      <description>Manhã de Inverno&lt;br /&gt;Coroada de névoas, surge a aurora &lt;br /&gt;Por detrás das montanhas do oriente; &lt;br /&gt;Vê-se um resto de sono e de preguiça, &lt;br /&gt;Nos olhos da fantástica indolente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Névoas enchem de um lado e de outro os morros &lt;br /&gt;Tristes como sinceras sepulturas, &lt;br /&gt;Essas que têm por simples ornamento &lt;br /&gt;Puras capelas, lágrimas mais puras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A custo rompe o sol; a custo invade &lt;br /&gt;O espaço todo branco; e a luz brilhante &lt;br /&gt;Fulge através do espesso nevoeiro, &lt;br /&gt;Como através de um véu fulge o diamante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vento frio, mas brando, agita as folhas &lt;br /&gt;Das laranjeiras úmidas da chuva; &lt;br /&gt;Erma de flores, curva a planta o colo, &lt;br /&gt;E o chão recebe o pranto da viúva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gelo não cobre o dorso das montanhas, &lt;br /&gt;Nem enche as folhas trêmulas a neve; &lt;br /&gt;Galhardo moço, o inverno deste clima &lt;br /&gt;Na verde palma a sua história escreve. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco, dissipam-se no espaço &lt;br /&gt;As névoas da manhã; já pelos montes &lt;br /&gt;Vão subindo as que encheram todo o vale; &lt;br /&gt;Já se vão descobrindo os horizontes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobe de todo o pano; eis aparece &lt;br /&gt;Da natureza o esplêndido cenário; &lt;br /&gt;Tudo ali preparou coos sábios olhos &lt;br /&gt;A suprema ciência do empresário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canta a orquestra dos pássaros no mato &lt;br /&gt;A sinfonia alpestre,  a voz serena &lt;br /&gt;Acordo os ecos tímidos do vale; &lt;br /&gt;E a divina comédia invade a cena. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Machado de Assis, in &#039;Falenas&#039;</description>
      <pubDate>Wed, 03 Jul 2013 23:35:58 +0000</pubDate>
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      <title>O EMPRÉSTIMO</title>
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      <description>O Empréstimo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Machado de Assis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou divulgar uma anedota, mas uma anedota no genuíno sentido do vocábulo, que o vulgo ampliou às historietas de pura invenção. Esta é verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem tão bem como eu. Nem ela andou recôndita, senão por falta de um espírito repousado, que lhe achasse a filosofia. Como deveis saber, há em todas as coisas um sentido filosófico. Carlyle descobriu o dos coletes, ou, mais propriamente, o do vestuário; e ninguém ignora que os números, muito antes da loteria do Ipiranga, formavam o sistema de Pitágoras. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de empréstimo; ides ver se me engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para começar, emendemos Sêneca. Cada dia, ao parecer daquele moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas por que não acrescentou ele que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição, uma pasta de ministro, um Banco, uma coroa de visconde, um báculo pastoral. Aos cinqüenta anos, vamos achá-lo simples apontador de alfândega, ou sacristão da roça. Tudo isso que se passou em trinta anos, pode algum Balzac metê-lo em trezentas páginas; por que não há de a vida, que foi a mestra de Balzac, apertá-lo em trinta ou sessenta minutos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinham batido quatro horas no cartório do tabelião Vaz Nunes, à rua do Rosário. Os escreventes deram ainda as últimas penadas: depois limparam as penas de ganso na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado; fecharam as gavetas, concertaram os papéis, arrumaram os livros, lavaram as mãos; alguns que mudavam de paletó à entrada, despiram o do trabalho e enfiaram o da rua; todos saíram. Vaz Nunes ficou só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este honesto tabelião era um dos homens mais perspicazes do século. Está morto: podemos elogiá-lo à vontade. Tinha um olhar de lanceta, cortante e agudo. Ele adivinhava o caráter das pessoas que o buscavam para escriturar os seus acordos e resoluções; conhecia a alma de um testador muito antes de acabar o testamento; farejava as manhas secretas e os pensamentos reservados. Usava óculos, como todos os tabeliães de teatro; mas, não sendo míope, olhava por cima deles, quando queria ver, e através deles, se pretendia não ser visto. Finório como ele só, diziam os escreventes. Em todo o caso, circunspecto. Tinha cinqüenta anos, era viúvo, sem filhos, e, para falar como alguns outros serventuários, roía muito caladinho os seus duzentos contos de réis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é? perguntou ele de repente olhando para a porta da rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava à porta, parado na soleira, um homem que ele não conheceu logo, e mal pôde reconhecer daí a pouco. Vaz Nunes pediu-lhe o favor de entrar; ele obedeceu, cumprimentou-o, estendeu-lhe a mão, e sentou-se na cadeira ao pé da mesa. Não trazia o acanho natural a um pedinte; ao contrário, parecia que não vinha ali senão para dar ao tabelião alguma coisa preciosíssima e rara. E, não obstante, Vaz Nunes estremeceu e esperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não se lembra de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não me lembro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estivemos juntos uma noite, há alguns meses, na Tijuca... Não se lembra? Em casa do Teodorico, aquela grande ceia de Natal; por sinal que lhe fiz uma saúde... Veja se se lembra do Custódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custódio endireitou o busto, que até então inclinara um pouco. Era um homem de quarenta anos. Vestia pobremente, mas escovado, apertado, correto. Usava unhas longas, curadas com esmero, e tinha as mãos muito bem talhadas, macias, ao contrário da pele do rosto, que era agreste. Notícias mínimas, e aliás necessárias ao complemento de um certo ar duplo que distinguia este homem, um ar de pedinte e general. Na rua, andando, sem almoço e sem vintém, parecia levar após si um exército. A causa não era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situação, entre a alma e a vida. Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho. Tinha o instinto das elegâncias, o amor do supérfluo, da boa chira, das belas damas, dos tapetes finos, dos móveis raros, um voluptuoso, e, até certa ponto, um artista, capaz de reger a vila Torloni ou a galeria Hamilton. Mas não tinha dinheiro; nem dinheiro, nem aptidão ou pachorra de o ganhar; por outro lado, precisava viver. Il faut bien que je vive, dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. Je n&amp;#039;en vois pas la nécessité, redargüiu friamente o ministro. Ninguém dava essa resposta ao Custódio; davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil-réis, e de tais espórtulas é que ele principalmente tirava o albergue e a comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo que principalmente vivia delas, porque o Custódio não recusava meter-se em alguns negócios, com a condição de os escolher, e escolhia sempre os que não prestavam para nada. Tinha o faro das catástrofes. Entre vinte empresas, adivinhava logo a insensata, e metia ombros a ela, com resolução. O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove prosperassem, e a vigésima lhe estourasse nas mãos. Não importa; aparelhava-se para outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, por exemplo, leu um anúncio de alguém que pedia um sócio, com cinco contos de réis, para entrar em certo negócio, que prometia dar, nos primeiros seis meses, oitenta a cem contos de lucro. Custódio foi ter com o anunciante. Era uma grande idéia, uma fábrica de agulhas, indústria nova, de imenso futuro. E os planos, os desenhos da fábrica, os relatórios de Birmingham, os mapas de importação, as respostas dos alfaiates, dos donos de armarinho, etc., todos os documentos de um longo inquérito passavam diante dos olhos de Custódio, estrelados de algarismos, que ele não entendia, e que por isso mesmo lhe pareciam dogmáticos. Vinte e quatro horas; não pedia mais de vinte e quatro horas para trazer os cinco contos. E saiu dali, cortejado, animado pelo anunciante, que, ainda à porta, o afogou numa torrente de saldos. Mas os cinco contos, menos dóceis ou menos vagabundos que os cinco mil-réis, sacudiam incredulamente a cabeça, e deixavam-se estar nas arcas, tolhidos de medo e de sono. Nada. Oito ou dez amigos, a quem falou, disseram-lhe que nem dispunham agora da soma pedida, nem acreditavam na fábrica. Tinha perdido as esperanças, quando aconteceu subir a rua do Rosário e ler no portal de um cartório o nome de Vaz Nunes. Estremeceu de alegria; recordou a Tijuca, as maneiras do tabelião, as frases com que ele lhe respondeu ao brinde, e disse consigo que este era o salvador da situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venho pedir-lhe uma escritura...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vaz Nunes, armado para outro começo, não respondeu: espiou para cima dos óculos e esperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma escritura de gratidão, explicou o Custódio; venho pedir-lhe um grande favor, um favor indispensável, e conto que o meu amigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se estiver nas minhas mãos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O negócio é excelente, note-se bem; um negócio magnífico. Nem eu me metia a incomodar os outros sem certeza do resultado. A coisa está pronta; foram já encomendas para a Inglaterra; e é provável que dentro de dois meses esteja tudo montado, é uma indústria nova. Somos três sócios, a minha parte são cinco contos. Venho pedir-lhe esta quantia, a seis meses, - ou a três, com juro módico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cinco contos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, Sr. Custódio, não disponho de tão grande quantia. Os negócios andam mal; e ainda que andassem muito bem, não poderia dispor de tanto. Quem é que pode esperar cinco contos de um modesto tabelião de notas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, se o senhor quisesse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero, decerto; digo-lhe que se se tratasse de uma quantia pequena, acomodada aos meus recursos, não teria dúvida em adiantá-la. Mas cinco contos! Creia que é impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alma do Custódio caiu de bruços. Subira pela escada de Jacó até o céu; mas em vez de descer como os anjos no sonho bíblico, rolou abaixo e caiu de bruços. Era a última esperança; e justamente por ter sido inesperada, é que ele supôs que fosse certa, pois, como todos os corações que se entregam ao regime do eventual, o do Custódio era supersticioso. O pobre-diabo sentiu enterrarem-se-lhe no corpo os milhões de agulhas que a fábrica teria de produzir no primeiro semestre. Calado, com os olhos no chão, esperou que o tabelião continuasse, que se compadecesse, que lhe desse alguma aberta; mas o tabelião, que lia isso mesmo na alma do Custódio, estava também calado, girando entre os dedos a boceta de rapé, respirando grosso, com um certo chiado nasal e implicante. Custódio ensaiou todas as atitudes; ora pedinte, ora general. O tabelião não se mexia. Custódio ergueu-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, disse ele, com uma pontazinha de despeito, há de perdoar o incômodo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não há que perdoar; eu é que lhe peço desculpa de não poder servi-lo, como desejava. Repito: se fosse alguma quantia menos avultada, não teria dúvida; mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estendeu a mão ao Custódio, que com a esquerda pegara maquinalmente no chapéu. O olhar empanado do Custódio exprimia a absorção da alma dele, apenas convalescida da queda que lhe tirara as últimas energias. Nenhuma escada misteriosa, nenhum céu; tudo voara a um piparote do tabelião. Adeus, agulhas! A realidade veio tomá-lo outra vez com as suas unhas de bronze. Tinha de voltar ao precário, ao adventício, às velhas contas, com os grandes zeros arregalados e os cifrões retorcidos à laia de orelhas, que continuariam a fitá-lo e a ouvi-lo, a ouvi-lo e a fitá-lo, alongando para ele os algarismos implacáveis de fome. Que queda! e que abismo! Desenganado, olhou para o tabelião com um gesto de despedida; mas, uma idéia súbita clareou-lhe a noite do cérebro. Se a quantia fosse menor, Vaz Nunes poderia servi-lo, e com prazer; por que não seria uma quantia menor? Já agora abria mão da empresa; mas não podia fazer o mesmo a uns aluguéis atrasados, a dois ou três credores, etc., e uma soma razoável, quinhentos mil-réis, por exemplo, uma vez que o tabelião tinha a boa vontade de emprestar-lhos, vinham a ponto. A alma do Custódio empertigou-se; vivia do presente, nada queria saber do passado, nem saudades, nem temores, nem remorsos. O presente era tudo. O presente eram os quinhentos mil-réis, que ele ia ver surdir da algibeira do tabelião, como um alvará de liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois bem, disse ele, veja o que me pode dar, e eu irei ter com outros amigos... Quanto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso dizer nada a este respeito, porque realmente só uma coisa muito modesta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quinhentos mil-réis?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não; não posso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem quinhentos mil-réis?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem isso, replicou firme o tabelião. De que se admira? Não lhe nego que tenho algumas propriedades; mas, meu amigo, não ando com elas no bolso; e tenho certas obrigações particulares... Diga-me, não está empregado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olhe; dou-lhe coisa melhor do que quinhentos mil-réis; falarei ao ministro da justiça, tenho relações com ele, e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custódio interrompeu-o, batendo uma palmada no joelho. Se foi um movimento natural, ou uma diversão astuciosa para não conversar do emprego, é o que totalmente ignoro; nem parece que seja essencial ao caso. O essencial é que ele teimou na súplica. Não podia dar quinhentos mil-réis? Aceitava duzentos; bastavam-lhe duzentos, não para a empresa, pois adotava o conselho dos amigos: ia recusá-la. Os duzentos mil-réis, visto que o tabelião estava disposto a ajudá-lo, eram para uma necessidade urgente, - &amp;quot;tapar um buraco&amp;quot;. E então relatou tudo, respondeu à franqueza com franqueza: era a regra da sua vida. Confessou que, ao tratar da grande empresa, tivera em mente acudir também a um credor pertinaz, um diabo, um judeu, que rigorosamente ainda lhe devia, mas tivera a aleivosia de trocar de posição. Eram duzentos e poucos mil-réis; e dez, parece; mas aceitava duzentos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, enfim, nem os duzentos mil-réis posso dar. Cem mesmo, se o senhor os pedisse, estão acima das minhas forças nesta ocasião. Noutra pode ser, e não tenho dúvida, mas agora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não imagina os apuros em que estou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem cem, repito. Tenho tido muitas dificuldades nestes últimos tempos. Sociedades, subscrições, maçonaria... Custa-lhe crer, não é? Naturalmente: um proprietário. Mas, meu amigo, é muito bom ter casas: o senhor é que não conta os estragos, os consertos, as penas-d&amp;#039;água, as décimas, o seguro, os calotes, etc. São os buracos do pote, por onde vai a maior parte da água...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tivesse eu um pote! suspirou Custódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não digo que não. O que digo é que não basta ter casas para não ter cuidados, despesas, e até credores... Creia o senhor que também eu tenho credores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem cem mil-réis!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem cem mil-réis, pesa-me dizê-lo, mas é verdade. Nem cem mil-réis. Que horas são?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se, e veio ao meio da sala. Custódio veio também, arrastado, desesperado. Não podia acabar de crer que o tabelião não tivesse ao menos cem mil-réis. Quem é que não tem cem mil-réis consigo? Cogitou uma cena patética, mas o cartório abria para a rua; seria ridículo. Olhou para fora. Na loja fronteira, um sujeito apreçava uma sobrecasaca, à porta, porque entardecia depressa, e o interior era escuro. O caixeiro segurava a obra no ar; o freguês examinava o pano com a vista e com os dedos, depois as costuras, o forro... Este incidente rasgou-lhe um horizonte novo, embora modesto; era tempo de aposentar o paletó que trazia. Mas nem cinqüenta mil-réis podia dar-lhe o tabelião. Custódio sorriu; - não de desdém, não de raiva, mas de amargura e dúvida; era impossível que ele não tivesse cinqüenta mil-réis. Vinte, ao menos? Nem vinte. Nem vinte! Não; falso tudo, tudo mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custódio tirou o lenço, alisou o chapéu devagarinho; depois guardou o lenço, concertou a gravata, com um ar misto de esperança e despeito. Viera cerceando as asas à ambição, pluma a pluma; restava ainda uma penugem curta e fina, que lhe metia umas veleidades de voar. Mas o outro, nada. Vaz Nunes cotejava o relógio da parede com o do bolso, chegava este ao ouvido, limpava o mostrador, calado, transpirando por todos os poros impaciência e fastio. Estavam a pingar as cinco, enfim, e o tabelião, que as esperava, desengatilhou a despedida. Era tarde; morava longe. Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a carteira... Oh! a carteira! Custódio viu esse utensílio problemático, apalpou-o com os olhos; invejou a alpaca, invejou a casimira, quis ser algibeira, quis ser o couro, a matéria mesma do precioso receptáculo. Lá vai ela; mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo; o tabelião abotoou-se. Nem vinte mil-réis! Era impossível que não levasse ali vinte mil-réis, pensava ele; não diria duzentos, mas vinte, dez que fossem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pronto! disse-lhe Vaz Nunes, com o chapéu na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quer ver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o tabelião desabotoou o paletó, tirou a carteira, abriu-a, e mostrou-lhe duas notas de cinco mil-réis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tenho mais, disse ele; o que posso fazer é reparti-los com o senhor; dou-lhe uma de cinco, e fico com a outra; serve-lhe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custódio aceitou os cinco mil-réis, não triste, ou de má cara, mas risonho, palpitante, como se viesse de conquistar a Ásia Menor. Era o jantar certo. Estendeu a mão ao outro, agradeceu-lhe o obséquio, despediu-se até breve, - um até breve cheio de afirmações implícitas. Depois saiu; o pedinte esvaiu-se à porta do cartório; o general é que foi por ali abaixo, pisando rijo, encarando fraternalmente os ingleses do comércio que subiam a rua para se transportarem aos arrabaldes. Nunca o céu lhe pareceu tão azul, nem a tarde tão límpida; todos os homens traziam na retina a alma da hospitalidade. Com a mão esquerda no bolso das calças, ele apertava amorosamente os cinco mil-réis, resíduo de uma grande ambição, que ainda há pouco saíra contra o sol, num ímpeto de águia, e ora habita modestamente as asas de frango rasteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto extraído do livro &amp;quot;Contos: uma antologia&amp;quot;, Cia. das Letras - São Paulo, 1998, introdução e notas de John Gledson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheça o autor e sua obra visitando &amp;quot;Biografias&amp;quot;.</description>
      <pubDate>Tue, 28 May 2013 15:58:36 +0000</pubDate>
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      <title>Saudade</title>
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      <description>Saudade &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guarda estes versos que escrevi chorando &lt;br /&gt;Como um alívio à minha saudade, &lt;br /&gt;Como um dever de meu amor; e quando &lt;br /&gt;Houver em ti um eco de saudade, &lt;br /&gt;Beija estes versos que escrevi chorando. &lt;br /&gt;Único em meio das paixões vulgares, &lt;br /&gt;Fui a teus pés queimar minhalma ansiosa, &lt;br /&gt;Como se queima o óleo ante os altares; &lt;br /&gt;Tive a paixão indômita e fogosa, &lt;br /&gt;Única em meio das paixões vulgares. &lt;br /&gt;Cheio de amor, vazio de esperança, &lt;br /&gt;Dei para ti os meus primeiros passos; &lt;br /&gt;Minha ilusão fez-me, talvez, criança; &lt;br /&gt;E pretendi dormir aos teus abraços, &lt;br /&gt;Cheio de amor, vazio de esperança. &lt;br /&gt;Refugiado à sombra do mistério, &lt;br /&gt;Pude cantar meu hino doloroso; &lt;br /&gt;E o mundo ouviu o som doce ou funéreo &lt;br /&gt;Sem conhecer o coração ansioso, &lt;br /&gt;Refugiado à sombra do mistério, &lt;br /&gt;Mas eu que posso contra a sorte esquiva? &lt;br /&gt;Vejo que em teus olhares de princesa &lt;br /&gt;Transluz uma alma ardente e compassiva, &lt;br /&gt;Capaz de reanimar minha incerteza; &lt;br /&gt;Mas eu que posso contra a sorte esquiva? &lt;br /&gt;Como um réu indefeso e abandonado, &lt;br /&gt;Fatalidade, curvo-me ao teu gesto; &lt;br /&gt;E se a perseguição me tem cansado, &lt;br /&gt;Embora, escutarei o teu aresto, &lt;br /&gt;Como um réu indefeso e abandonado. &lt;br /&gt;Embora fujas aos meus olhos tristes, &lt;br /&gt;Minhalma irá saudosa, enamorada, &lt;br /&gt;Acercar-se de ti lá onde existes; &lt;br /&gt;Ouvirás minha lira apaixonada, &lt;br /&gt;Embora fujas aos meus olhos tristes. &lt;br /&gt;Talvez um dia meu amor se extinga, &lt;br /&gt;Como fogo de Vestal mal cuidado, &lt;br /&gt;Que sem o zelo da Vestal não vinga; &lt;br /&gt;Na ausência e no silêncio condenado, &lt;br /&gt;Talvez um dia meu amor se extinga. &lt;br /&gt;Então não busques reavivar a chama, &lt;br /&gt;Evoca apenas a lembrança casta &lt;br /&gt;Do fundo amor daquele que não ama; &lt;br /&gt;Esta consolação apenas basta; &lt;br /&gt;Então não busque reavivar a chama. &lt;br /&gt;Guarda estes versos que escrevi chorando, &lt;br /&gt;Como um alívio à minha saudade, &lt;br /&gt;Como um dever do meu amor; e quando &lt;br /&gt;Houver em ti um eco de saudade, &lt;br /&gt;Beija estes versos que escrevi chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Machado de Assis - &lt;br /&gt;do livro Crisálidas&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Wed, 04 Jan 2012 22:50:28 +0000</pubDate>
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      <title>Um Apólogo</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1524</link>
      <description>&lt;br /&gt;Machado de Assis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Deixe-me, senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mas você é orgulhosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Decerto que sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mas por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Também os batedores vão adiante do imperador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Você é imperador?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana  para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Texto extraído do livro &quot;Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos&quot;, Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59</description>
      <pubDate>Sat, 19 Nov 2011 20:06:40 +0000</pubDate>
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      <title>A flor do embiroçu</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1341</link>
      <description>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a noturna sombra envolve a terra&lt;br /&gt;E à paz convida o lavrador cansado,&lt;br /&gt;À fresca brisa o seio delicado&lt;br /&gt;A branca flor do embiroçu descerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E das límpidas lágrimas que chora&lt;br /&gt;A noite amiga, ela recolhe alguma;&lt;br /&gt;A vida bebe na ligeira bruma,&lt;br /&gt;Até que rompe no horizonte a aurora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, à luz nascente, a flor modesta,&lt;br /&gt;Quando tudo o que vive alma recobra,&lt;br /&gt;Languidamente as suas folhas dobra,&lt;br /&gt;E busca o sono quando tudo é festa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suave imagem da alma que suspira&lt;br /&gt;E odeia a turba vã! da alma que sente&lt;br /&gt;Agitar-se-lhe a asa impaciente&lt;br /&gt;E a novos mundos transportar-se aspira!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também ela ama as horas silenciosas,&lt;br /&gt;E quando a vida as lutas interrompe,&lt;br /&gt;Ela da carne os duros elos rompe,&lt;br /&gt;E entrega o seio às ilusões viçosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tudo seu,  tempo, fortuna, espaço,&lt;br /&gt;E o céu azul e os seus milhões de estrelas;&lt;br /&gt;Abrasada de amor, palpita ao vê-las,&lt;br /&gt;E a todas cinge no ideial abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto não encara indiferente,&lt;br /&gt;Nem a traidora mão cândida aperta;&lt;br /&gt;Das mentiras da vida se liberta&lt;br /&gt;E entra no mundo que jamais não mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noite, melhor que o dia, quem não te ama?&lt;br /&gt;Labor ingrato, agitação, fadiga,&lt;br /&gt;Tudo faz esquecer tua asa amiga&lt;br /&gt;Que a alma nos leva onde a ventura a chama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ama-te a flor que desabrocha à hora&lt;br /&gt;Em que o último olhar o sol lhe estende,&lt;br /&gt;Vive, embala-se, orvalha-se, rescende,&lt;br /&gt;E as folhas cerra quando rompe a aurora.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Embiruçu (Eriotheca candolleana (K. Schum.) A. Robyns; Bombacaceae) é uma espécie de árvore brasileira. É uma das plantas à qual se atribui o nome Catuaba, sendo também conhecida como catuaba-branca. (wikipédia)&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 20 Mar 2011 01:56:02 +0000</pubDate>
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