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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
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      <title>Consciência Cósmica</title>
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      <description>Pág -146&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não preciso de rir.&lt;br /&gt;Os dedos longos do medo&lt;br /&gt;largaram minha fronte.&lt;br /&gt;E as vagas do sofrimento me arrastaram&lt;br /&gt;para o centro do remoinho da grande força,&lt;br /&gt;que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não tenho medo de escalar os cimos&lt;br /&gt;onde o ar limpo e fino pesa para fora,&lt;br /&gt;e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos,&lt;br /&gt;e deitar-me na lama, o pensamento opiado... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,&lt;br /&gt;a dança das espadas de todos os momentos.&lt;br /&gt;e deveria rir , se me retasse o riso,&lt;br /&gt;das tormentas que poupam as furnas da minha alma,&lt;br /&gt;dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Guimarães Rosa (Magma- Editora Nova Fronteira)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**************************************************</description>
      <pubDate>Fri, 03 Apr 2009 13:32:39 +0000</pubDate>
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      <title>O Cavalo que Bebia Cerveja</title>
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      <description>Essa chácara do homem ficava meio ocultada, escurecida pelas árvores, que nunca se viu plantar tamanhas tantas em roda de uma casa. Era homem estrangeiro. De minha mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo defendimento; e a morada, donde de qualquer janela alcançasse de vigiar a distância, mãos na espingarda; nesse tempo, não sendo ainda tão gordo, de fazer nojo. Falavam que comia a quanta imundície: caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces, embebidas num balde de água. Ver, que almoçava e jantava, da parte de fora, sentado na soleira da porta, o balde entre suas grossas pernas, no chão, mais as alfaces; tirante que, a carne, essa, legítima de vaca, cozinhada. Demais gastasse era com cerveja, que não bebia à vista da gente. Eu passava por lá, ele me pedia:  &quot;Irivalíni, bisonha outra garrafa, é para o cavalo...&quot;   Não gosto de perguntar, não achava graça. Às vezes eu não trazia, às vezes trazia, e ele me indenizava o dinheiro, me gratificando. Tudo nele me dava raiva. Não aprendia a referir meu nome direito. Desfeita ou ofensa, não sou o de perdoar  a nenhum de nenhuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe e eu sendo das poucas pessoas que atravessávamos por diante da porteira, para pegar a pinguela do riacho.  &quot;Dei&#039;stá, coitado, penou na guerra...&quot;  minha mãe explicando. Ele se rodeava de diversos cachorros, graúdos, para vigiarem a chácara. De um, mesmo não gostasse, a gente via, o bicho em sustos, antipático  o menos bem tratado; e que fazia, ainda assim, por não se arredar de ao pé dele, estava, a toda a hora, de desprezo, chamando o endiabrado do cão: por nome &quot;Mussulino&quot;. Eu remoia o rancor: de que, um homem desses, cogotudo, panturro, rouco de catarros, estrangeiro às náuseas  se era justo que possuísse o dinheiro e estado, vindo comprar terra cristã, sem honrar a pobreza dos outros, e encomendando dúzias de cerveja, para pronunciar a feia fala. Cerveja? Pelo fato, tivesse seus cavalos, os quatro ou três, sempre descansados, neles não amontava, nem agüentasse montar. Nem caminhar, quase, não conseguia. Cabrão! Parava pitando, uns charutos pequenos, catinguentos, muito mascados e babados. Merecia um bom corrigimento. Sujeito sistemático, com sua casa fechada, pensasse que todo o mundo era ladrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto é, minha mãe ele estimava, tratava com as benevolências. Comigo, não adiantava  não dispunha de minha ira. Nem quando minha mãe grave adoeceu, e ele ofertou dinheiro, para os remédios. Aceitei; quem é que vive de não? Mas não agradeci. Decerto ele tinha remorso, de ser estrangeiro e rico. E, mesmo, não adiantou, a santa de minha mãe se foi para as escuridões, o danado do homem se dando de pagar o enterro. Depois, indagou se eu queria vir trabalhar para ele. Sofismei, o quê. Sabia que sou sem temor, em meus altos, e que enfrento uns e outros, no lugar a gente pouco me encarava. Só se fosse para ter a minha proteção, dia e noite, contra os issos e vindiços. Tanto, que não me deu nem meio serviço por cumprir, senão que eu era para burliquear por lá, contanto que com as armas. Mas, as compras para ele, eu fazia.  &quot;Cerveja, Irivalíni. É para o cavalo...&quot;  o que dizia, a sério, naquela língua de bater ovos. Tomara ele me xingasse! Aquele homem ainda havia de me ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do que mais estranhei, foram esses encobrimentos. Na casa, grande, antiga, trancada de noite e de dia, não se entrava; nem para comer, nem para cozinhar. Tudo se passava da banda de cá das portas. Ele mesmo, figuro que raras vezes por lá se introduzia, a não ser para dormir, ou para guardar a cerveja  ah, ah, ah  a que era para o cavalo. E eu, comigo:  &quot;Tu espera, porco, para se, mais dia menos dia, eu não estou bem aí, no haja o que há!&quot; Seja que, por essa altura, eu devia ter procurado as corretas pessoas, narrar os absurdos, pedindo providências, soprar minhas dúvidas. O que fácil não fiz. Sou de nem palavras. Mas, por aí, também, apareceram aqueles  os de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonsos os dois homens, vindos da capital. Quem para eles me chamou, foi o seo Priscílio, subdelegado. Me disse:  &quot;Reivalino Belarmino, estes aqui são de autoridade, por ponto de confiança.&quot; E os de fora, me pegando à parte, puxaram por mim, às muitas perguntas. Tudo, para tirar tradição do homem, queriam saber, em pautas ninharias. Tolerei que sim; mas nada não fornecendo. Quem sou eu, quati, para cachorro me latir? Só cismei escrúpulos, pelas más caras desses, sujeitos embuçados, salafrados também. Mas, me pagaram, o bom quanto. O principal deles dois, o de mão no queixo, me encarregou: que, meu patrão, sendo homem muito perigoso, se ele vivia mesmo sozinho? E que eu reparasse, na primeira ocasião, se ele não tinha numa perna, embaixo, sinal velho de coleira, argolão de ferro, de criminoso fugido de prisão. Pois sim, piei prometi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perigoso, para mim?  ah, ah. Pelo que, vá, em sua mocidade, podendo ter sido homem. Mas, agora, em pança, regalão, remanchão, somente quisesse a cerveja  para o cavalo. Desgraçado, dele. Não que eu me queixasse, por mim, que nunca apreciei cerveja; gostasse, comprava, bebia, ou pedia, ele mesmo me dava. Ele falava que também não gostava, não. De verdade. Consumia só a quantidade de alfaces, com carne, boquicheio, enjooso, mediante muito azeite, lambia que espumava. Por derradeiro, estava meio estramontado, soubesse da vinda dos de fora? Marca de escravo em perna dele, não observei, nem fiz por isso. Sou lá serviçal de meirinho-mor, desses, excogitados, de tantos visares? Mas eu queria jeito de entender, nem que por uma fresta, aquela casa, debaixo de chaves, espreitada. Os cachorros já estando mansos amigáveis. Mas, parece que seo Giovânio desconfiou. Pois, por minha hora de surpresa, me chamou, abriu a porta. Lá dentro, até fedia a coisa sempre em tampa, não dava bom ar. A sala, grande, vazia de qualquer amobiliado, só para espaços. Ele, nem que de propósito, me deixou olhar à minha conta, andou comigo, por diversos cômodos, me satisfiz. Ah, mas, depois, cá comigo, ganhei conselho, ao fim da idéia: e os quartos? Havia muitos desses, eu não tinha entrado em todos, resguardados. Por detrás de alguma daquelas portas, pressenti bafo de presença  só mais tarde? Ah, o carcamano queria se birbar de esperto; e eu não era mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demais que, uns dias depois, se soube de ouvidos, tarde da noite, diferentes vezes, galopes no ermo da várzea, de cavaleiro saído da porteira da chácara. Pudesse ser? Então, o homem tanto me enganava, de formar uma fantasmagoria, de lobisomem. Só aquela divagação, que eu não acabava de entender, para dar razão de alguma coisa: se ele tivesse, mesmo, um estranho cavalo, sempre escondido ali dentro, no escuro da casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seo Priscílio me chamou, justo, outra vez, naquela semana. Os de fora estavam lá, de colondria, só entrei a meio na conversa; um deles dois, escutei que trabalhava para o &quot;Consulado&quot;. Mas contei tudo, ou tanto, por vingança, com muito caso. Os de fora, então, instaram com seo Priscílio. Eles queriam permanecer no oculto, seo Priscílio devia de ir sozinho. Mais me pagaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava por ali, fingindo não ser nem saber, de mão-posta. Seo Priscílio apareceu, falou com seo Giovânio: se que estórias seriam aquelas, de um cavalo beber cerveja? Apurava com ele, apertava. Seo Giovânio permanecia muito cansado, sacudia devagar a cabeça, fungando o escorrido do nariz, até o toco do charuto; mas não fez mau rosto ao outro. Passou muito a mão na testa:  &quot;Lei, guer ver?&quot; Saiu, para surgir com um cesto com as garrafas cheias, e uma gamela, nela despejou tudo, às espumas. Me mandou buscar o cavalo: o alazão canela-clara, bela-face. O qual  era de se dar a fé?  já avançou, avispado, de atreitas orelhas, arredondando as ventas, se lambendo: e grosso bebeu o rumor daquilo, gostado, até o fundo; a gente vendo que ele já era manhudo, cevado naquilo! Quando era que tinha sido ensinado, possível? Pois, o cavalo ainda queria mais e mais cerveja. Seo Priscílio se vexava, no que agradeceu e se foi. Meu patrão assoviou de esguicho, olhou para mim: &quot;Irivalíni, que estes tempos vão cambiando mal. Não laxa as armas!&quot; Aprovei. Sorri de que ele tivesse as todas manhas e patranhas. Mesmo assim, meio me desgostava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o tanto, quando os de fora tornaram a vir, eu falei, o que eu especulava: que alguma outra razão devia de haver, nos quartos da casa. Seo Priscílio, dessa vez, veio com um soldado. Só pronunciou: que queria revistar os cômodos, pela justiça! Seo Giovânio, em pé de paz, acendeu outro charuto, ele estava sempre cordo. Abriu a casa, para seo Priscílio entrar, o soldado; eu, também. Os quartos? Foi direto a um, que estava duro de trancado. O do pasmoso: que, ali dentro, enorme, só tinha o singular  isto é, a coisa a não existir!  um cavalão branco, empalhado. Tão perfeito, a cara quadrada, que nem um de brinquedo, de menino; reclaro, branquinho, limpo, crinado e ancudo, alto feito um de igreja  cavalo de São Jorge. Como podiam ter trazido aquilo, ou mandado vir, e entrado ali acondicionado? Seo Priscílio se desenxaviu, sobre toda a admiração. Apalpou ainda o cavalo, muito, não achando nele oco nem contento. Seo Giovânio, no que ficou sozinho comigo, mascou o charuto:  &quot;Irivalíni, pecado que nós dois não gostemos de cerveja, hem?&quot; Eu aprovei. Tive a vontade de contar a ele o que por detrás estava se passando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seo Priscílio, e os de fora, estivessem agora purgados de curiosidades. Mas eu não tirava o sentido disto: e os outros quartos, da casa, o atrás de portas? Deviam ter dado a busca por inteiro, nela, de uma vez. Seja que eu não ia lembrar esse rumo a eles, não sou mestre de quinaus. Seo Giovânio conversava mais comigo, banzativo:  &quot;Irivalíni, eco, a vida é bruta, os homens são cativos...&quot; Eu não queria perguntar a respeito do cavalo branco, frioleiras, devia de ter sido o dele, na guerra, de suma estimação.  &quot;Mas, Irivalíni, nós gostamos demais da vida...&quot; Queria que eu comesse com ele, mas o nariz dele pingava, o ranho daquele monco, fungando, em mal assôo, e ele fedia a charuto, por todo lado. Coisa terrível, assistir aquele homem, no não dizer suas lástimas. Saí, então, fui no seo Priscílio, falei: que eu não queria saber de nada, daqueles, os de fora, de coscuvilho, nem jogar com o pau de dois bicos! Se tornassem a vir, eu corria com eles, despauterava, escaramuçava  alto aí!  isto aqui é Brasil, eles também eram estrangeiros. Sou para sacar faca e arma. Seo Priscílio sabia. Só não soubesse das surpresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo que foi de repente. Seo Giovânio abriu de em par a casa. Me chamou: na sala, no meio do chão, jazia um corpo de homem, debaixo de lençol.  &quot;Josepe, meu irmão&quot;... - ele me disse, embargado. Quis o padre, quis o sino da igreja para badalar as vezes dos três dobres, para o tristemente. Ninguém tinha sabido nunca o qual irmão, o que se fechava escondido, em fuga da comunicação das pessoas. Aquele enterro foi muito conceituado. Seo Giovânio pudesse se gabar, ante todos. Só que, antes, seo Priscílio chegou, figuro que os de fora a ele tinham prometido dinheiro; exigiu que se levantasse o lençol, para examinar. Mas, aí, se viu só o horror, de nós todos, com caridade de olhos: o morto não tinha cara, a bem dizer  só um buracão, enorme, cicatrizado antigo, medonho, sem nariz, sem faces  a gente devassava alvos ossos, o começo da goela, gargomilhos, golas.  &quot;Que esta é a guerra...&quot;  seu Giovânio explicou  boca de bobo, que se esqueceu de fechar, toda doçuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, eu queria tomar rumo, ir puxando, ali não me servia mais, na chácara estúrdia e desditosa, com o escuro das árvores, tão em volta. Seo Giovânio estava da banda de fora, conforme seu costume de tantos anos. Mais achacoso, envelhecido, subitamente, no trespassamento da manifesta dor. Mas comia, sua carne, as cabeças de alfaces, no balde, fungava.  &quot;Irivalíni... que esta vida... bisonha. Caspité?&quot;  perguntava, em todo tom de canto. Ele avermelhadamente me olhava.  &quot;Cá eu pisco...&quot;  respondi. Não por nojo, não dei um abraço nele, por vergonha, para não ter também as vistas lagrimadas. E, então, ele fez a mais extravagada coisa: abriu cerveja, a que quanta se espumejasse.  &quot;Andamos, Irivalíni, contadino, bambino?&quot;  propôs. Eu quis. Aos copos, aos vintes e trintas, eu ia por aquela cerveja, toda. Sereno, ele me pediu para levar comigo, no ir-m&#039;embora, o cavalo  alazão bebedor  e aquele tristoso cachorro magro, Mussulino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não avistei mais o meu Patrão. Soube que ele morreu, quando em testamento deixou a chácara para mim. Mandei erguer sepulturas, dizer as missas, por ele, pelo irmão, por minha mãe. Mandei vender o lugar, mas, primeiro, cortarem abaixo as árvores, e enterrar no campo o trem, que se achava, naquele referido quarto. Lá nunca voltei. Não, que não me esqueço daquele dado dia  o que foi uma compaixão. Nós dois, e as muitas, muitas garrafas, na hora cismei que um outro ainda vinha sobrevir, por detrás da gente, também, por sua parte: o alazão façalvo; ou o branco enorme, de São Jorge; ou o irmão, infeliz medonhamente. Ilusão, que foi, nenhum ali não estava. Eu, Reivalino Belarmino, capisquei. Vim bebendo as garrafas todas, que restavam, faço que fui eu que tomei consumida a cerveja toda daquela casa, para fecho de engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto extraído do livro &quot;Primeiras Estórias&quot;, Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 83.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**************************************************</description>
      <pubDate>Thu, 02 Apr 2009 21:00:52 +0000</pubDate>
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      <title>Vida e Obra</title>
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      <description>Apresentando mais um escritor consagrado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Guimarães Rosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&quot;Quando escrevo, repito o que já vivi antes. &lt;br /&gt;E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. &lt;br /&gt;Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo &lt;br /&gt;vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser &lt;br /&gt;um crocodilo porque amo os grandes rios, &lt;br /&gt;pois são profundos como a alma de um homem. &lt;br /&gt;Na superfície são muito vivazes e claros, &lt;br /&gt;mas nas profundezas são tranqüilos e escuros &lt;br /&gt;como o sofrimento dos homens.&quot;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG) a 27 de junho de 1908 e era o primeiro dos seis filhos de D. Francisca (Chiquitinha) Guimarães Rosa e de Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido por &quot;seu Fulô&quot; comerciante, juiz-de-paz, caçador de onças e contador de estórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joãozito, como era chamado, com menos de 7 anos começou a estudar francês sozinho, por conta própria. Somente com a chegada do Frei Canísio Zoetmulder, frade franciscano holandês, em março de 1917, pode iniciar-se no holandês e prosseguir os estudos de francês, agora sob a supervisão daquele frade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminou o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena; em Belo Horizonte, para onde se mudara, antes dos 9 anos, para morar com os avós. Em Cordisburgo fora aluno da Escola Mestre Candinho. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del Rei, onde permaneceu por pouco tempo, em regime de internato, visto não ter conseguido adaptar-se  não suportava a comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta a Belo Horizonte matricula-se no Colégio Arnaldo, de padres alemães e, imediatamente, iniciou o estudo  do alemão, que aprendeu em pouco tempo. Era um poliglota, conforme um dia disse a uma prima, estudante, que fora entrevistá-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1925, matricula-se na então denominada Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos. Segundo um colega de turma, Dr. Ismael de Faria, no velório de um estudante vitimado pela febre amarela, em 1926, teria Guimarães Rosa dito a famosa frase: &quot;As pessoas não morrem, ficam encantadas&quot;, que seria repetida 41 anos depois por ocasião de sua posse na Academia Brasileira de Letras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua estréia nas letras se deu em 1929, ainda como estudante. Escreveu quatro contos: Caçador de camurças, Chronos Kai Anagke (título grego, significando Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um concurso promovido pela revista O Cruzeiro. Todos os contos foram premiados e publicados com ilustrações em 1929-1930, alcançando o autor seu objetivo, que era o de ganhar a recompensa nada desprezível de cem contos de réis. Chegou a  confessar, depois, que nessa época escrevia friamente, sem paixão, preso a modelos alheios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 27 de junho de 1930, ao completar 22 anos, casa-se com Lígia Cabral Penna, então com apenas 16 anos, que lhe dá duas filhas: Vilma e Agnes. Dura pouco seu  primeiro casamento, desfazendo-se uns poucos anos depois. Ainda em 1930, forma-se em Medicina, tendo sido o orador da turma, escolhido por aclamação pelos 35 colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guimarães Rosa vai exercer a profissão em Itaguara, pequena cidade que pertencia ao município de Itaúna (MG), onde permanece cerca de dois anos. Relaciona-se com a comunidade, até mesmo com raizeiros e receitadores, reconhecendo sua importância no atendimento aos pobres e marginalizados, a ponto de se tornar grande amigo de um deles, de nome Manoel Rodrigues de Carvalho, mais conhecido por &quot;seu Nequinha&quot;, que morava num grotão enfurnado entre morros, num lugar conhecido por Sarandi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espírita, &quot;Seu Nequinha&quot; parece ter sido o inspirador da figura do Compadre meu Quelemém, espécie de oráculo sertanejo, personagem de Grande Sertão: Veredas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de sua incapacidade de por fim às dores e aos males do mundo numa cidade que não tinha nem energia elétrica, segundo depoimento de sua filha Vilma, o autor, sensível como era, acaba por afastar-se da Medicina. Contribuiu também para isso o fato de o escritor ter que assistir o parto de sua mulher, pois o farmacêutico e o médico da cidade vizinha de Itaúna só terem chegado quando Vilma já havia nascido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guimarães Rosa, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, trabalha como voluntário na Força Pública. Posteriormente, efetiva-se,  por concurso. Em 1933, vai para Barbacena na qualidade de Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Segundo depoimento de Mário Palmério, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, o quartel pouco exigia de Guimarães Rosa  &quot;quase que somente a revista médica rotineira, sem mais as dificultosas viagens a cavalo que eram o pão nosso da clínica em Itaguara, e solenidade ou outra, em dia cívico, quando o escolhiam para orador da corporação&quot;. Assim, sobrava-lhe tempo para dedicar-se com maior afinco ao estudo de idiomas estrangeiros; ademais, no convívio com velhos milicianos e nas demoradas pesquisas que fazia nos arquivos do quartel, o escritor teria obtido valiosas informações sobre o jaguncismo barranqueiro que até por volta de 1930 existiu na região do Rio São Francisco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amigo do escritor, impressionado com sua cultura e erudição, e, particularmente, com seu notável conhecimento de línguas estrangeiras, lembrou-lhe a possibilidade de prestar concurso para o Itamarati, conseguindo entusiasmá-lo. O então Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria, após alguns preparativos, seguiu para o Rio de Janeiro onde prestou concurso para o Ministério do Exterior, obtendo o segundo lugar. Por essa ocasião, aliás, já era por demais evidente sua falta de &quot;vocação&quot; para o exercício da Medicina, conforme ele próprio confidenciou a seu colega Dr. Pedro Moreira Barbosa, em carta datada de 20 de março de 1934:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo como dizia Don Juan, sempre &#039;après avoir couché avec... Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material só posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou com o futebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que os anos 30 terminem, ele participa de outros dois concursos literários. Em 1936, a coletânea de poemas Magma recebe o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Um ano depois, sob o pseudônimo de &quot;Viator&quot;, concorre ao prêmio HUMBERTO DE CAMPOS, com o volume intitulado Contos, que em 46, após uma revisão do autor, se transformaria em Sagarana, obra que lhe rendeu vários prêmios e o reconhecimento como um dos mais importantes livros surgidos no Brasil contemporâneo. Os contos de Sagarana apresentam a paisagem mineira em toda a sua beleza selvagem, a vida das fazendas, dos vaqueiros e criadores de gado, mundo que Rosa habitara em sua infância e adolescência. Neste livro, o autor já transpõe a linguagem rica e pitoresca do povo, registra regionalismos, muitos deles jamais escritos na literatura brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1938, Guimarães Rosa é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. A superstição e o misticismo acompanhariam o escritor por toda a vida. Ele acreditava na força da lua, respeitava curandeiros, feiticeiros, a umbanda, a quimbanda e o kardecismo. Dizia que pessoas, casas e cidades possuíam fluidos positivos e negativos, que influíam nas emoções, nos sentimentos e na saúde de seres humanos e animais. Aconselhava os filhos a terem cautela e a fugirem de qualquer pessoa ou lugar que lhes causasse algum tipo de mal estar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo Nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy. Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo Nazismo por ocasião da 2ª Guerra Mundial. Segundo D. Aracy, que compareceu a Israel por ocasião da homenagem, seu marido sempre se absteve de comentar o assunto já que tinha muito pudor de falar de si mesmo. Apenas dizia: &quot;Se eu não lhes der o visto, vão acabar morrendo; e aí vou ter um peso em minha consciência.&quot;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, Guimarães Rosa é internado em Baden-Baden, juntamente com outros compatriotas, entre os quais se encontrava o pintor pernambucano Cícero Dias,  Ficam retidos durante 4 meses e são libertados em troca de diplomatas alemães. Retornando ao Brasil, após rápida passagem pelo Rio de Janeiro, o escritor segue para Bogotá, como Secretário da Embaixada, lá permanecendo até 1944. Sua estada na capital colombiana, fundada em 1538 e situada a uma altitude de 2.600 m, inspirou-lhe o conto Páramo, de cunho autobiográfico, que faz parte do livro póstumo Estas Estórias. O conto se refere à experiência de &quot;morte parcial&quot; vivida pelo protagonista (provavelmente o próprio autor), experiência essa induzida pela solidão, pela saudade dos seus, pelo frio, pela umidade e particularmente pela asfixia resultante da rarefação do ar (soroche  o mal das alturas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em dezembro de 1945 o escritor retornou ao Brasil depois de longa ausência. Dirigiu-se, inicialmente, à Fazenda Três Barras, em Paraopeba, berço da família Guimarães, então pertencente a seu amigo Dr. Pedro Barbosa e, depois, a cavalo, rumou para Cordisburgo, onde se hospedou no tradicional Argentina Hotel, mais conhecido por Hotel da Nhatina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1946, Guimarães Rosa é nomeado chefe-de-gabinete do ministro João Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1948, o escritor está novamente em Bogotá como Secretário-Geral da delegação brasileira à IX Conferência Inter-Americana; durante a realização do evento ocorre o assassinato político do prestigioso líder popular Jorge Eliécer Gaitán, fundador do partido Unión Nacional Izquierdista Revolucionaria, de curta mas decisiva duração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De 1948 a 1950, o escritor encontra-se de novo em Paris, respectivamente como 1º Secretário e Conselheiro da Embaixada. Em 1951 é novamente nomeado Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura. Em 1953 torna-se Chefe da Divisão de Orçamento e em 1958 é promovido a Ministro de Primeira Classe (cargo correspondente a Embaixador).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guimarães Rosa retorna ao Brasil em 1951. No ano seguinte, faz uma excursão ao Mato Grosso. O resultado é uma reportagem poética: Com o vaqueiro Mariano. Segundo depoimento do próprio Manuel Narde, vulgo Manuelzão, falecido em 5 de maio de 1997, protagonista da novela Uma estória de amor, incluída no volume Manuelzão e Miguilim, durante os dias que passou no sertão, Guimarães Rosa pedia notícia de tudo e tudo anotava &quot;ele perguntava mais que padre&quot; , tendo consumido &quot;mais de 50 cadernos de espiral, daqueles grandes&quot;, com anotações sobre a flora, a fauna e a gente sertaneja usos, costumes, crenças, linguagem, superstições, versos, anedotas, canções, casos, estórias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ensaio crítico sobre Corpo de Baile, o professor Ivan Teixeira afirma que o livro talvez seja o mais enigmático da literatura brasileira. As novelas que o compõem formam um sofisticado conjunto de logogrifos, em que a charada é alçada à condição de revelação poética ou experimento metafísico. Na abertura do livro, intitulada Campo Geral, Guimarães Rosa se detém na investigação da intimidade de uma família isolada no sertão, destacando-se a figura do menino Miguelim e o seu desajuste em relação ao grupo familiar. Campo Geral surge como uma fábula do despertar do autoconhecimento e da apreensão do mundo exterior; e o conjunto das novelas surge como passeio cósmico pela geografia rosiana, que retoma a idéia básica de toda a obra do escritor: o universo está no sertão, e os homens são influenciados pelos astros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1956, no mês de janeiro, reaparece no mercado editorial com as novelas Corpo de Baile, onde continua a experiência iniciada em Sagarana. A partir de o Corpo de Baile, a obra de Rosa - autor reconhecido como o criador de uma das vertentes da moderna linha de ficção do regionalismo brasileiro - adquire dimensões universalistas, cuja cristalização artística é atingida em Grande Sertão: Veredas, lançado em maio de 56. O terceiro livro de Guimarães Rosa, uma narrativa épica que se estende por 600 páginas, focaliza numa nova dimensão, o ambiente e a gente rude do sertão mineiro. Grande Sertão: Veredas reflete um autor de extraordinária capacidade de transmissão do seu mundo, e foi resultado de um período de dois anos de gestação e parto. A história do amor proibido de Riobaldo, o narrador, por Diadorim é o centro da narrativa. Para Renard Perez, autor de um ensaio sobre Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, além da técnica e da linguagem surpreendentes, deve-se destacar o poder de criação do romancista, e sua aguda análise dos conflitos psicológicos presentes na história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lançamento de Grande Sertão: Veredas causa grande impacto no cenário literário brasileiro. O livro é traduzido para diversas línguas e seu sucesso deve-se, sobretudo, às inovações formais. Crítica e público dividem-se entre louvores apaixonados e ataques ferozes. Torna-se um sucesso comercial, além de receber três prêmios nacionais: o Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; o Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo; e o Paula Brito, do Rio de Janeiro. A publicação faz com que Guimarães Rosa seja considerado uma figura singular no panorama da literatura moderna, tornando-se um &quot;caso&quot; nacional. Ele encabeça a lista tríplice, composta ainda por Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, como os melhores romancistas da terceira geração modernista brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que não publicasse nada até 1962, o interesse e o respeito pela obra rosiana só aumentavam, em relação à crítica e ao público. Unanimidade, o escritor recebe, em 1961, o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Ele começa a obter reconhecimento no exterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em janeiro de 1962, assume a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras, cargo que exerceria com especial empenho, tendo tomado parte ativa em momentosos casos como os do Pico da Neblina (1965) e das Sete Quedas (1966). Em 1969, em homenagem ao seu desempenho como diplomata, seu nome é dado ao pico culminante (2.150 m) da Cordilheira Curupira, situado na fronteira Brasil/Venezuela. O nome de Guimarães Rosa foi sugerido pelo Chanceler Mário Gibson Barbosa, como um reconhecimento do Itamarati àquele que, durante vários anos, foi o chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras da Chancelaria Brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1958, no começo de junho, Guimarães Rosa viaja para Brasília, e escreve para os pais:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em começo de junho estive em Brasília, pela segunda vez lá passei uns dias. O clima da nova capital é simplesmente delicioso, tanto no inverno quanto no verão. E os trabalhos de construção se adiantam num ritmo e entusiasmo inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos&quot;... &quot;Mas eu acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol e ver um enorme tucano colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs 15, comer frutinhas, na copa da alta árvore pegada à casa, uma tucaneira, como por lá dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e inesquecíveis de minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de 1958, o autor começa a apresentar problemas de saúde e estes seriam, na verdade, o prenúncio do fim próximo, tanto mais quanto, além da hipertensão arterial, o paciente reunia outros fatores de risco cardiovascular como excesso de peso, vida sedentária e, particularmente, o tabagismo. Era um tabagista contumaz e embora afirme ter abandonado o hábito, em carta dirigida ao amigo Paulo Dantas em dezembro de 1957, na foto tirada em 1966, quando recebia do governador Israel Pinheiro a Medalha da Inconfidência, aparece com um cigarro na mão esquerda. A propósito, na referida carta, o escritor chega mesmo a admitir, explicitamente, sua dependência da nicotina:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... também estive mesmo doente, com apertos de alergia nas vias respiratórias; daí, tive de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, até hoje (cabo de 34 dias!), a falta de fumar me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas, só no inerte letargo árido dessas fases de desintoxicação. Oh coisa feroz. Enfim, hoje, por causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos motivos, aqui estou eu, heróico e pujante, desafiando a fome-e-sede tabágica das pobrezinhas das células cerebrais. Não repare.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É importante frisar também que, coincidindo com os distúrbios cardiovasculares que se evidenciaram a partir de 1958, Guimarães Rosa parece ter acrescentado a suas leituras espirituais publicações e textos relativos à Ciência Cristã (Christian Science), religião cristã criada nos Estados Unidos em 1866 por Mrs. Mary Baker Eddy e que afirma a primazia do espírito sobre a matéria  &quot;... the allness of Spirit and the nothingness of matter&quot;, a qual habilita compreender a nulidade do pecado, dos sentimentos negativos em geral, da doença e da morte, diante da totalidade do Espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1962, é lançado Primeiras Estórias, livro que reúne 21 contos pequenos. Nos textos, as pesquisas formais características do autor, uma extrema delicadeza e o que a crítica considera &quot;atordoante poesia&quot;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em maio de 1963, Guimarães Rosa candidata-se pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras (a primeira fora em 1957, quando obtivera apenas 10 votos), na vaga deixada por João Neves da Fontoura. A eleição dá-se a 8 de agosto e desta vez é eleito por unanimidade. Mas não é marcada a data da posse, adiada sine die, somente acontecendo quatro anos depois, no dia 16 de novembro de 1967.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em janeiro de 1965, participa do Congresso de Escritores Latino-Americanos, em Gênova. Como resultado do congresso ficou constituída a Primeira Sociedade de Escritores Latino-Americanos, da qual o próprio Guimarães Rosa e o guatemalteco Miguel Angel Asturias (que em 1967 receberia o Prêmio Nobel de Literatura) foram eleitos vice-presidentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em abril de 1967, Guimarães Rosa vai ao México na qualidade de representante do Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, no qual atua como vice-presidente. Na volta é convidado a fazer parte, juntamente com Jorge Amado e Antônio Olinto, do júri do II Concurso Nacional de Romance Walmap que, pelo valor material do prêmio, é o mais importante do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio do ano, publica seu último livro, também uma coletânea de contos, Tutaméia. Nova efervescência no meio literário, novo êxito de público. Tutaméia, obra aparentemente hermética, divide a crítica. Uns vêem o livro como &quot;a bomba atômica da literatura brasileira&quot;; outros consideram que em suas páginas encontra-se a &quot;chave estilística da obra de Guimarães Rosa, um resumo didático de sua criação&quot;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três dias antes da morte o autor decidiu, depois de quatro anos de adiamento, assumir a cadeira na Academia Brasileira de Letras. Os quatro anos de adiamento eram reflexo do medo que sentia da emoção que o momento lhe causaria. Ainda que risse do pressentimento, afirmou no discurso de posse: &quot;...a gente morre é para provar que viveu.&quot;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor faz seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras com a voz embargada.  Parece pressentir que algo de mal lhe aconteceria. Com efeito, três dias após a posse, em 19 de novembro de 1967, ele morreria subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa fora à missa), mal tendo tempo de chamar por socorro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1967, João Guimarães Rosa seria indicado para o prêmio Nobel de Literatura. A indicação, iniciativa dos seus editores alemães, franceses e italianos, foi barrada pela morte do escritor. A obra do brasileiro havia alcançado esferas talvez até hoje desconhecidas. Quando morreu tinha 59 anos. Tinha-se dedicado à medicina, à diplomacia, e, fundamentalmente às suas crenças, descritas em sua obra literária. Fenômeno da literatura brasileira, Rosa começou a publicar aos 38 anos. O autor, com seus experimentos lingüísticos, sua técnica, seu mundo ficcional, renovou o romance brasileiro, concedendo-lhe caminhos até então inéditos. Sua obra se impôs não apenas no Brasil, mas alcançou o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Magma (1936), poemas. Não chegou a publicá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Sagarana (1946), contos e novelas regionalistas. Livro de estréia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com o vaqueiro Mariano (1947)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Corpo de Baile (1956), novelas. (Atualmente publicado em três partes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Manuelzão e Miguilim, &lt;br /&gt;    - No Urubuquaquá, no Pinhém e &lt;br /&gt;    - Noites do sertão.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Grande Sertão: Veredas (1956), romance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Primeiras estórias (1962), contos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Tutaméia:Terceiras estórias (1967), contos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Estas estórias (1969), contos. Obra póstuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Ave, palavra (1970) diversos. Obra póstuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colaborações em jornais e revistas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Colaborou no suplemento &quot;Letras e Artes&quot; de A Manhã (1953-54), em O Globo (1961) e na revista Pulso (1965-66), divulgando contos e poemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bibliografia sobre o Autor:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bosi, Alfredo (org.). O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1994.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faraco, C.E. &amp; Moura, F.M. Língua e literatura.. São Paulo: Ática, 1996. v.3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Holzemayr, Rosenfield Kathrin. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Ática, 1996. (Roteiro de Leitura).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Macedo, Tânia. Guimarãres Rosa. São Paulo: Ática, 1996. (Ponto por Ponto).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perez, Renard. Em Memória de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rosa, Vilma Guimarães. Relembramentos, Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santo, Wendel. A construção do romance em Guimarães Rosa. São Paulo: Ática, 1996.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sperber, Suzi Frankl. Guimarães Rosa: signo e sentimento. São Paulo: Ática, 1996. (Ensaio).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zilberman, R. A Leitura e o ensino da literatura. São Paulo: Contexto, 1989.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acervo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os arquivos do autor, abrangendo o período de 1908 a 1971, com aproximadamente 12.000 documentos, foram adquiridos pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homenagem ao Autor:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Museu Guimarães Rosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Av. Padre João, 744&lt;br /&gt;Cordisburgo - MG - Brasil&lt;br /&gt;Fone: (0 XX 31) 715-1378&lt;br /&gt;Agendar visitas: 3ª a dom., das 8h40min às 17h.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versões:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1961/1967 - Publicação de &quot;Buriti&quot; (&quot;Corpo de Baile&quot;, 1ª parte), &quot;Les Nuits du Sertão&quot; (&quot;Corpo de Baile&quot;, 2ª parte), &quot;Primeiras Estórias&quot;, pela Édition du Seuil; &quot;Diadorim&quot;, pela Éditions Albin Michel, Paris - França.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adaptações:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1969 - Publicação do livro &quot;A João Guimarães Rosa&quot; -  (Gráficos Brunner), ensaio fotográfico de Maureen Bisilliat, com trechos de &quot;Grande Sertão: Veredas&quot;. Curta de 09 minutos - Filmoteca da ECA / USP, direção de Roberto Santos - São Paulo (SP).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1975 - Adaptação dos contos &quot;Corpo Fechado&quot; (do livro &quot;Sagarana&quot;), direção de Lima Duarte, e &quot;Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha&quot; (do livro &quot;Primeiras Estórias&quot;), direção de Kiko Jaess, para o programa Teatro 2, da TV Cultura - São Paulo (SP)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1975 - Adaptação do conto &quot;Sarapalha&quot; (do livro &quot;Sagarana&quot;), direção de Roberto Santos, para Caso Especial, da Rede Globo - Rio de Janeiro (RJ).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1984 - Adaptação de &quot;Noites do Sertão&quot;, direção de Carlos Alberto Prates Corrêa - Rio de Janeiro (RJ).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1985 - Adaptação de &quot;Grande Sertão: Veredas&quot; para minissérie da Rede Globo, direção de Walter Avancini - Rio de Janeiro (RJ).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1994 - Rio de Janeiro RJ - Adaptação para o teatro de &quot;Grande Sertão: Veredas&quot;, direção de Regina Bertola, no Centro Cultural Banco do Brasil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1994 - Filme &quot;A Terceira Margem do Rio&quot;, direção e roteiro de Nelson Pereira dos Santos, baseado em cinco contos do livro &quot;Primeiras Estórias&quot;: &quot;A Terceira Margem do Rio&quot;, &quot;A Menina de Lá&quot;, &quot;Os Irmãos Dagobé&quot;, &quot;Seqüência&quot; e &quot;Fatalidade&quot; - Rio de Janeiro (RJ).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Discografia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&quot;Rio Abaixo&quot;&lt;br /&gt;Intérprete: Paulo Freire e outros.&lt;br /&gt;Disco: &quot;Rio Abaixo - Viola Brasileira&quot; (&lt;a href=&quot;http://www.paulofreire.com.br&quot; title=&quot;www.paulofreire.com.br&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;www.paulofreire.com.br&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&quot;Rosas pra João&quot;&lt;br /&gt;Interprete: Renato Motha e Patrícia Lobato.&lt;br /&gt;CD com 13 canções inspiradas pela obra do biografado.(&lt;a href=&quot;http://www.renatomotha.com.br&quot; title=&quot;www.renatomotha.com.br&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;www.renatomotha.com.br&lt;/a&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &quot;Um chamado João&quot;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&quot;João era fabulista?&lt;br /&gt;fabuloso?&lt;br /&gt;fábula?&lt;br /&gt;Sertão místico disparando&lt;br /&gt;no exílio da linguagem comum?&lt;br /&gt;Projetava na gravatinha&lt;br /&gt;a quinta face das coisas,&lt;br /&gt;inenarrável narrada?&lt;br /&gt;Um estranho chamado João&lt;br /&gt;para disfarçar, para farçar&lt;br /&gt;o que não ousamos compreender?&lt;br /&gt;Tinha pastos, buritis plantados&lt;br /&gt;no apartamento?&lt;br /&gt;no peito?&lt;br /&gt;Vegetal ele era ou passarinho&lt;br /&gt;sob a robusta ossatura com pinta&lt;br /&gt;de boi risonho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um teatro&lt;br /&gt;e todos os artistas&lt;br /&gt;no mesmo papel,&lt;br /&gt;ciranda multívoca?&lt;br /&gt;João era tudo?&lt;br /&gt;tudo escondido, florindo&lt;br /&gt;como flor é flor, mesmo não semeada?&lt;br /&gt;Mapa com acidentes&lt;br /&gt;deslizando para fora, falando?&lt;br /&gt;Guardava rios no bolso,&lt;br /&gt;cada qual com a cor de suas águas?&lt;br /&gt;sem misturar, sem conflitar?&lt;br /&gt;E de cada gota redigia nome,&lt;br /&gt;curva, fim,&lt;br /&gt;e no destinado geral&lt;br /&gt;seu fado era saber&lt;br /&gt;para contar sem desnudar&lt;br /&gt;o que não deve ser desnudado&lt;br /&gt;e por isso se veste de véus novos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mágico sem apetrechos,&lt;br /&gt;civilmente mágico, apelador&lt;br /&gt;e precipites prodígios acudindo&lt;br /&gt;a chamado geral?&lt;br /&gt;Embaixador do reino&lt;br /&gt;que há por trás dos reinos,&lt;br /&gt;dos poderes, das&lt;br /&gt;supostas fórmulas&lt;br /&gt;de abracadabra, sésamo?&lt;br /&gt;Reino cercado&lt;br /&gt;não de muros, chaves, códigos,&lt;br /&gt;mas o reino-reino?&lt;br /&gt;Por que João sorria&lt;br /&gt;se lhe perguntavam&lt;br /&gt;que mistério é esse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E propondo desenhos figurava&lt;br /&gt;menos a resposta que&lt;br /&gt;outra questão ao perguntante?&lt;br /&gt;Tinha parte com... (não sei&lt;br /&gt;o nome) ou ele mesmo era&lt;br /&gt;a parte de gente&lt;br /&gt;servindo de ponte&lt;br /&gt;entre o sub e o sobre&lt;br /&gt;que se arcabuzeiam&lt;br /&gt;de antes do princípio,&lt;br /&gt;que se entrelaçam&lt;br /&gt;para melhor guerra,&lt;br /&gt;para maior festa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos sem saber o que era João&lt;br /&gt;e se João existiu&lt;br /&gt;de se pegar.&quot;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por Carlos Drummond de Andrade - 22/11/1967 - Versiprosa&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**Dados extraídos de livros do e sobre o autor e páginas da Internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**************************************************</description>
      <pubDate>Wed, 01 Apr 2009 15:33:00 +0000</pubDate>
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