Vida e Obra

Publicado em 04/07/2008 11:51:57 | Tópico: Dante Milano

Apresentando outro autor consagrado:

Senhoras e senhores, Dante Milano:

Dante Milano nasceu no Rio de Janeiro filho do maestro Nicolino Milano e de Corina Milano. O seu irmão Atílio Milano foi também poeta. Trabalhou como conferente de textos na Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro) a partir de 1913. Foi também funcionário do Juizado de Menores, no Ministério da Justiça.

Publicou seu primeiro poema, "Lágrima Negra", em 1920, na revista carioca Selecta.

"Lagryma negra"

Aperte fortemente a pena ingrata
entre os dedos nervosos e trementes,
e os versos jorram, claros e estridentes,
n'uma cascata, n'uma catarata!

Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um colar de pérolas pendentes...

Eu canto o sofrimento, a ânsia incontida
de amor, que é a maior ânsia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condena!

E todo o meu sofrer, todo, se pinta
n'este pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cai da pena.

***

Nessa época trabalhava como empregado na contabilidade da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro.

Nos anos de 1930 foi colaborador do suplemento "Autores e Livros", de "A Manhã" e do "Boletim de Ariel".

Em 1935 organizou a "Antologia dos Poetas Modernos", primeira antologia de poetas dessa fase.

Casa-se com Alda em 1947. Seu primeiro livro, "Poesias", foi publicado em 1948, e recebeu o Prêmio Felipe d'Oliveira de melhor livro de poesia do ano.

Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, lançando, em 1953, "Três Cantos do Inferno", de Dante Alighieri.

Em 1979 foi publicado seu livro "Poesia e Prosa".

Publicou em 1988 "Poemas Traduzidos de Baudelaire e Mallarmé". No mesmo ano recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras.

Dante Milano é um dos poetas representativos da terceira geração do Modernismo.

Para o crítico David Arrigucci Jr., Milano, “como o amigo Bandeira, refletiu muito sobre a morte, casando o pensamento à forma enxuta de seus versos - lírica seca e meditativa, avessa ao fácil artifício, onde o ritmo interior persegue em poemas curtos, com justeza e sem alarde, o sentido”.

Dante Milano vem à tona!!:

Por: Aleilton Fonseca

[in Jornal do Brasil, 23.06.2005]

Com a edição de sua Obra reunida, o poeta carioca Dante Milano (1899-1991) vem à tona, após um longo e injustificável esquecimento.

Ele estreou em 1920, e acompanhou à distância os desdobramentos da poesia modernista de 22, sem assumir posição de renovador estético.

Independente, à margem das tendências em voga, tornou-se um poeta à parte e, como tal, ignorado pelos autores de panoramas literários. Nada mais injusto, pois seus poemas têm uma força lírica extraordinária.

Milano é um poeta moderno para além dos ismos de ocasião. Sua poesia encanta pela sutileza, beneficiando-se da aparente simplicidade dos assuntos, com o vigor do pensamento metafísico, a feição cristalina dos versos, o ritmo e a musicalidade personalíssimos, a clareza das imagens e do vocabulário, a requintada ironia ao tratar de questões da existência, da vida, do amor e da morte.

O leitor atento percebe uma aproximação lírica de Dante Milano com Manuel Bandeira, seu amigo e admirador, fato bastante visível no poema Lágrima negra (p. 157).

Ele também se aproxima de Cecília Meireles, no tocante à concepção musical dos versos e à leveza das imagens.

O seu poema Descobrimento da poesia (p. 21) corresponde, pela concepção, ao famoso Motivo ceciliano. Isto, por si só, já justifica o interesse por sua obra.

Milano também escreveu textos sobre literatura, nos quais se observa a opinião de um leitor envolvido, reflexivo, lido e bem informado.

Sua análise é intuitiva, sem aparato crítico nem método fechado, mas com a clarividência, a sutileza e a sensibilidade de poeta e leitor atento.

Geralmente curtos, seus textos refletem posições pessoais, de autor mesmo, perante questões de interesse teórico, mantendo-se sempre como uma escrita literária.

Outro legado valioso de Milano é, sem dúvida, a tradução de poesia: ele traduziu textos de Dante Alighieri, Shakespeare, Charles Baudelaire e Mallarmé.

Essa iniciativa do poeta tem importância não somente pelo trabalho em si, mas pela lição que acrescenta à difícil arte de traduzir poesia, a par de sua concepção e seu talento ao propor soluções originais, ao recriar poemas célebres da tradição literária universal.

O poeta, crítico e tradutor Ivan Junqueira faz a apresentação do autor e sua obra, com profundo senso de percepção e análise. Sua abordagem reorienta críticos e ensaístas, ao apontar critérios e caminhos para uma compreensão da obra e da personalidade poética de Dante Milano.

Já o organizador, Sérgio Martagão Gesteira, esclarece, numa ''nota explicativa'', os critérios, as escolhas e os procedimentos de seu trabalho. Sem dúvida, este livro é uma contribuição importantíssima para o acervo bibliográfico da poesia brasileira do século 20.

Informativo: Hoje, Dante Milano faz parte da Coleção Austregésilo de Athayde, que tem como objetivo editar obras recentes de acadêmicos e de autores que tenham conexão com a Academia Brasileira de Letras. Segue o resumo do livro que leva seu nome:

Dante Milano - Obra reunida, Organização e estabelecimento do texto de Sérgio Martagão Gesteira. (2004. 529 pp.).

Embora egresso do modernismo de 1922, Dante Milano é, na verdade, anterior ao movimento modernista, do qual participou à distância e ao qual, efetivamente, jamais se filiou nem durante nem depois da festiva e turbulenta década de 1920. Não há dúvida de que apoiou o movimento, pois nele via, como todos os artistas da época, um caminho de libertação estética. A rigor, entretanto, o Modernismo pouco ou nada teria a oferecer-lhe em termos de subsídio literário ou de plataforma estética. E mais: à época da agitação modernista, o poeta Dante Milano já estava pronto, infenso, portanto, a quaisquer aquisições mais profundas e radicais do ponto de vista formal, ainda que aberto e sensível às conquistas expressionais do movimento. Por outro lado, dizer-se que, entre 1920 e 1948 - quando saiu a primeira edição das Poesias -, haja ele se conservado na condição de bissexto não procede: Dante escrevia muito - e muitíssimo destruiu do que escreveu -, conquanto nada publicasse em livro até aquela data. A que se deve, então, esse altivo silêncio, essa monástica reclusão, esse obsessivo mutismo editorial - cúmplice, talvez, daquela "vocação póstuma" a que já aludimos? É o que tentaremos decifrar, leitor, se possível com o teu benévolo e empático beneplácito. [...] [Ivan Junqueira em "Dante Milano: o pensamento emocionado"].






*pesquisa realizada em sites da internet.

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