A inteligência artificial e o poema
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8/6/2021 2:23
De Guararema - SP
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Trarei à baila algumas reflexões sobre a IA e a escrita. O texto é de meu professor no curso A Arte do Verso, Brian Belancieri, e vale a pena a leitura na íntegra.


Algumas ideias sobre as inteligências artificiais e a escrita

Para ser sincero, não acho que a maioria dos poetas vivos de hoje em dia se saiam muito melhor que as inteligências artificiais. Explico: é que ambos, de certo modo, operam em abstrações cegas. As inteligências, como no experimento da sala chinesa, simulam compreensão, o que não é a mesma coisa que compreender. De certo modo, muitos poetas seguem pelo mesmo caminho, conforme escrevem...

O problema posto acima coloca a seguinte questão: como saber de onde vem o significado?
Se ele nasce apenas do arranjo correto dos símbolos, então bastaria seguir regras com precisão suficiente para que a compreensão surgisse por conta própria. Para os humanos comuns, bastaria tão somente um dicionário de rimas, um de metrificação, e um dicionário comum de português, se levarmos em conta apenas a poesia lusófona.

Mas atentemos ao poema abaixo — preciso provocá-lo, leitor:

Vaso Chinês
Alberto de Oliveira

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Minha pergunta imediata é: uma inteligência artificial conseguiria compor um poema como este? O famoso Vaso Chinês de Alberto de Oliveira conseguiria surgir de uma máquina?

Vamos ver o que ela diz:

Vaso
CHAT, gpt.

Num canto escuro, imóvel, sobre a mesa,
repousa um vaso antigo e sem rumor;
guarda no barro a muda estranheza
de ter contido flores e esplendor.

Seu corpo curva a luz com gentileza,
como quem lembra um extinto fervor;
há nele a dignidade da pobreza
e a calma mineral de uma dor.

Nenhuma rosa agora o enfeita mais,
nenhum jardim transborda em seus umbrais;
apenas pó se acumula em seu destino.

Mas algo permanece em seu vazio:
a forma de acolher, contra o extravio,
o que ainda não chegou ao seu caminho.

Mas se o significado depende de uma relação efetiva com o mundo — de uma história de contato, uso, consequências e experiências — então nenhuma quantidade de símbolos organizados será capaz de produzi-lo sozinha. Nesse caso, o sentido não estaria nas palavras, mas naquilo que as prende à realidade.

Daí que, e como já contido em Wittgenstein, não se deva tomar o significado como uma entidade escondida atrás das palavras. Significado é uso. A palavra "atiçador" significa atiçador porque ela participa de uma prática humana, mesmo que essa prática seja assediar outros filósofos. Quero atentar aqui que a linguagem, por si só, é barata. Dicionários estão cheios dela. Modelos estatísticos também. O difícil é explicar por que um homem vê um vaso chinês e outro vê outro vaso chinês. Mais difícil ainda: explicar por que, da mesma experiência, um ou outro produzam poema melhor.

Literatura, essa nossa boa literatura, não nasce da capacidade de combinar símbolos, senão em sua função de fazer colidir os mesmos com a realidade. O poeta encontra uma coisa, tropeça nela, e retorna com uma linguagem modificada pelo encontro. A palavra chega depois. É possível que uma inteligência artificial escreva milhares de versos sobre o mar sem jamais descobrir uma única onda.

E é possível que um poeta faça exatamente o mesmo.

Neste ponto, a distinção entre ambos começa a desaparecer. A presença de mundo, entretanto, prevalece. A presença de linguagem, na ausência de mundo, nos dá um substrato residual em que símbolos descrevam símbolos, como espelhos voltados uns para os outros. A sala chinesa cessa de ser uma experiência filosófica sobre máquinas, e torna-se uma descrição bastante precisa de boa parte da produção poética contemporânea.
Mas ainda temos a mesma pergunta: como saber de onde vem o significado?

* A resposta estruturalista dirá que ele surge da relação entre signos. Pensemos em todos os poemas em que a palavra “dia” signifique dia apenas porque não é “noite”. “Homem” porque não é “mulher”. “Mar” porque não é “terra”. O significado, é preciso concluir, nasceria dentro da própria linguagem. O problema é que isso explica como os signos se diferenciam, mas não explica por que eles significam alguma coisa para alguém.

* Como bom behaviorista que sou (já que meu trabalho é, de fato, psicologia clínica), preciso passar pela posição mentalista, que claramente, como todo bom behaviorista, rejeitamos: o significado se dá pelos estados mentais. Árvore, essa que imaginamos, significa árvore porque remete a uma representação mental de árvore. O que não responderia, por óbvio, como a tal representação mental adquiriu significado.

* Daí retornamos ao ponto do pragmatismo, porque uma palavra significa aquilo que ela faz dentro de uma prática humana. Não há aprendizagem possível na significação da palavra, digamos, dor, apenas pela consulta de sua definição. Aprendemos vendo pessoas chorarem, reclamarem, se contorcerem, tomando remédios, recebendo cuidados.

* O que, trabalhado pelo posicionamento fenomenológico, postularia que o significado vem do encontro entre consciência e mundo. As coisas não aparecem primeiro como objetos neutros para, só depois, receberem interpretação. Já aparecem carregadas de sentido, porque para além da experiência individual, há um mundo que nos subsiste, que já porta outros significados. Uma porta já aparece como algo que pode ser aberta, tanto quanto uma estrada como algo a ser percorrido. O túmulo já nos convoca certas atitudes.

Somos conciliadores: uma coisa isolada é apenas um acontecimento. Uma palavra isolada, apenas um som. É claro que o significado surgirá quando uma experiência encontrar uma forma capaz de carregá-lo.

Aqui, senhores, nasce a disposição específica da expressão, que afunilaremos para o artista, e então para o poeta.

Expressar não é, ainda, comunicar. Expressão é um problema relativamente simples: alguém possui uma informação e deseja transmiti-la. Macacos, golfinhos, crianças e papagaios fazem bem isso. Comunicação é outra coisa. Muitas vezes sequer sabemos o que pensamos até tentarmos dizê-lo.

É um artista o homem que encontra uma forma capaz de revelar algo que antes não estava inteiramente disponível nem para ele mesmo. Traduzir uma idea pronta para linguagem não é lá a mais sublime das ações. A experiência precede a técnica. A técnica apenas amplia aquilo que a experiência já tornou visível.

Tomemos um exemplo banal: nós podemos conhecer todas as definições de luto presentes em um dicionário. Podemos consultar tratados médicos, psicológicos e filosóficos sobre a morte. Ainda assim, haverá uma diferença brutal entre esse conhecimento e o momento em que nós, por exemplo, fechamos pela última vez a porta de uma casa que jamais voltará a ser habitada pelas mesmas pessoas.

A experiência não nos acrescenta informação, nos acrescenta realidade. A literatura, creio eu, deve começar por aqui. Um poeta que aprenda a manejar palavras ainda está sempre aquém de uma inteligência artificial, ou de infinitos macacos com máquinas de escrever. As pessoas mais inteligentes já repararam que ambos os citados são a mesma coisa. O poeta nasce quando descobre que certas experiências resistem às palavras disponíveis. O poema nasce dessa resistência.

Inclusive, grifo do autor, é por isso que creio que tantos versos contemporâneos soem estranhamente ocos. Não lhes falta técnica. Nunca houve tanta técnica disponível. Falta-lhes atrito. Falta-lhes o mundo.

Os macacos podem aprender, realmente, milhares de relações entre palavras. Nós somos descendentes de um primata ancestral em comum, e nossa raça de bonobos super-evoluídos já escreveu, realmente, Shakespeare, Dante e
Homero. Um poeta pode decorar bibliotecas inteiras. Mas uma biblioteca, ou rede neural, jamais produzirá significado por conta própria. Algo da realidade nos deixa uma marca suficientemente profunda para exigir uma forma, e só a vida é capaz de ser receptáculo disso.
Máquinas podem escrever poesia. Questionamos, por outro lado, que espécie de encontro com o mundo torna um poema necessário.

Homero começa pela guerra. Dante, pelo exílio. Camões, pelo naufrágio. Dostoiévski, pelo pelotão de fuzilamento. Cervantes, pela batalha. E quê mais? Drummond pelo filho que não nasceu? Cecília pela angústia, Ariano pela perda do pai... e mesmo que nenhum destes escrevesse diretamente sobre essas coisas, elas permaneceram atrás de cada frase como uma espécie de gravidade invisível.

Em nossos dias, ao contrário, tornou-se possível iniciar uma carreira literária sem jamais ter encontrado algo que resista, inquiete, marque, devasse. O escritor encontra livros, encontra teorias, encontra oficinas, encontra cursos, encontra outros escritores. Tudo, menos o mundo. É, inclusive, meu ponto de partida para a crítica dos artistas conservadores, uns paspalhos.

O mundo nos é importante porque ele possui uma característica desagradável: ele responde. A realidade que ensina, mas corrige, e que prova, mas também contradiz. Exalta, e tão mais humilha. Uma teoria pode sobreviver indefinidamente dentro de uma biblioteca, e há homens que são bibliotecas ambulantes, tanto quanto um poema pode sobreviver indefinidamente dentro de um círculo literário. Peixes, aquários, há pessoas sobrevivendo décadas dentro de uma ideologia. E que tempestades, doenças, paixões, falências ou lutos não seriam muito mais importantes para a formação de significado, apenas por possuírem o hábito inconveniente de exigir revisões.

Creio com firme fé que certas obras permanecem vivas durante séculos apenas porque foram escritas por homens que se viram obrigados a negociar com algo maior do que eles mesmos. O grande mal da contemporaneidade é que os escritores acham que são grandes por sentirem que são homens mais inteligentes que nós. Talvez sejam, mas isso importaria absolutamente de nada sem a sensibilidade experiencial.

Chega. Dou um corte, concluindo este texto com a impressão que trago sobre ambos os temas: escritores e inteligência artificial — estamos ao ponto em que uma geração inteira se sinta confrontada com uma máquina que talvez escreva, ou possa vir a escrever bem demais, e, capaz, que venha a reproduzir quase todas as superfícies da literatura. O ritmo, a imagem, a metáfora, a estrutura, a erudição. Tudo feito e, na singularidade técnica, hesitoso. Tudo, exceto aquilo que obrigou alguém a escrever, e que é justamente a coisa que ambos, máquina e humano, perderam de vista.

Criado em: Hoje 13:09:39
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