O Unicórnio Transparente

Data 19/07/2010 16:12:34 | Tópico: Contos -> Infantis

O Unicórnio Transparente
by Betha Mendonça

Montada num unicórnio transparente com asas prateadas, Antônia viajou seguindo os rastros do luar sobre o Deserto de Laranja ao Por do Sol. A monotonia das dunas sopradas pelos ventos lembrava ondas de laranjada a rebentar nos rochedos caramelados. Elas modificavam a paisagem todo instante, o que dificultava encontrar a Lagoa de Suco de Morango, no Oásis dos Sonhos, suspensas sobre as nuvens de chantilly.

O unicórnio já cansado era alimentado hora a hora com algodão-doce lilás, mas se não chegassem logo ao destino, o ser encantado morreria de fome. A cada ruflar de asas o pobrezinho parecia mais sem forças para continuar até que surgiu no meio do nada uma plantação de pés de algodão-doce de várias cores.

Antônia apeou o unicórnio próximo aquela área e quando ia pegar um bom estoque de algodão lilás apareceu um grande corcel negro alado que era o dono daquele local e disse:

- Pare sua ladra!Tudo aqui me pertence e nada sai sem minha permissão!

- Desculpe senhor Corcel!Não sabia que esse algodoal tinha dono. Meu unicórnio está faminto e cansado. Se não for alimentado com algodão-doce lilás morrerá...

- E eu com isso? Retrucou o outro com voz de trovão. Fora já daqui! Ou eu mesmo sopro fogo e mato os dois!

- Mas... Mas... Senhor!... Balbuciou a menina, que recebeu como resposta um fogaréu saindo da boca do cavalo alado...

Mais rápido que depressa ela e seu acompanhante voaram para longe dali. A cada instante o unicórnio transparente ficava mais fraco e eles desceram na ventania laranja. O ser encantado parecia dar seus últimos suspiros e tudo por causa do egoísmo e falta de compaixão do Corcel Negro! A menina inconformada, já ia chorar quando ouviu um gemido triste entre as quentes areias. Era um pequeno corcel alado marrom, filho do grande Corcel Negro que machucara uma das asas e perdera-se no deserto.

O coração carinhoso da pequena se enterneceu. Ela tirou da bolsa óleos medicinais, massageou a asinha doente e colocou-lhe ataduras. Vencendo a ventania levou o cavalinho até a plantação de seu pai. Que ao vê-la bradou:

- De novo, menina?Ah, vou fazer de você um torresmo!E quando ia soprar fogo sobre ela o corcelzinho gritou:

- Não papai!Ela me salvou!

O grande Corcel ficou envergonhado ao saber que apesar de ter sido mau com a garota e seu acompanhante, ela fizera um grande bem salvando a vida de seu filhote. Arrependido, ele colheu uma leva de algodão lilás, montou Antônia em seu dorso e voou até o unicórnio que agonizava. E qual a surpresa: ele estava mais lindo, transparente e forte que sempre! A bondade também alimentava o seu frágil corpo que já se recuperara com a atitude da menininha. Assim, ele e Antônia voaram em paz para sua casa no Oásis dos Sonhos.




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