Um Corpo Nu

Data 20/02/2025 13:17:08 | Tópico: Poemas

Lá fora, o mundo se contorce em sua dança febril. Aqui, porém, no santuário do nosso segredo, o tempo se adensa, carregado de silêncios cúmplices. Fechamos as portas para a turba profana, mas deixamos entrar o sol, esse astro melancólico que tinge de ouro o nosso isolamento.

Mesmo sem pronunciar o teu nome, grito-te: fica!

Quero que sintas o peso das minhas palavras, embriagadas de vinho e dor, destiladas do recanto mais sombrio da minha alma. Conta-me a tua verdade, ainda que seja amarga como o absinto que nos une e, ao mesmo tempo, nos separa. Brinquemos, então, de pertencermos um ao outro, entrelaçados nas sombras das nossas virtudes e dos nossos vícios.

Canta comigo as nossas frágeis virtudes, as nossas fraquezas secretas, como se fossem uma ladainha blasfema, uma ode à decadência. Eu te quero inteiro: na tua miséria e no teu esplendor, no grito sufocado e no sussurro rouco. Vem em verdade. Vem... e fica.

Deixa-me beijar as tuas feridas, sorver o teu sangue e a tua angústia. Não te protejas. Despe-te dessa armadura de ilusões e aceita que a dor é a nossa única certeza. Mas talvez, aqui, neste instante roubado ao tempo, possamos nos iludir de que ela já não nos pertence.

Depõe o fardo dos teus dias no meu colo. Evoca a tua infância perdida. Esquece a máscara que vestiste para o mundo. Lembra-te de quem foste antes que o tempo te deformasse, antes que a vida te corrompesse.

Ah, se pudesses ver, no vermelho do meu sangue, o teu nome gravado como um juramento. Na doçura amarga dos teus lábios, eu te reconheci. Eras tu, mesmo perdido na tua própria escuridão, sem saber de ti, sem saber de nós.

E, sem que eu soubesse...

eras tu.


Este texto vem de Luso-Poemas
https://www.luso-poemas.net

Pode visualizá-lo seguindo este link:
https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=376793