
Manifesto do Sonhador Pós-Éden
Data 06/10/2025 22:47:25 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| I Tenho pesadelos imponentes. Eles não me perseguem — governam-me. São tronos feitos de névoa, coroas de silêncio, E nelas habita o império das minhas sombras. Cada noite é um reinado de visões e feridas, Onde a insônia é o anjo da guarda que perdeu as asas. II Sou a lama do Éden, o resto do milagre. Não herdei o paraíso — herdei o erro. Minha matéria é feita de queda e de lembrança, E é por isso que sei: A criação não terminou, apenas adoeceu. Deus expirou em mim um hálito antigo, E dele nasceram as palavras que não têm perdão. III Vivo em tempos utópicos e pós-enciclopédicos, Onde a sabedoria se tornou pó digital, E a ignorância, um luxo quase místico. Os livros sabem tudo, Mas ninguém sabe o que fazer com tanto saber. O homem moderno lê o abismo em HD E chama isso de progresso. IV Caminho sobre a lama dos significados. Entre cada sílaba perdida, floresce um espelho, Nele vejo o reflexo de um anjo faminto, Devorando o próprio verbo. Falar é um ato arqueológico: Desenterrar o que já foi dito E, ainda assim, sangra. V Eu, sonhador pós-Éden, Reclamo o direito de delirar. De erguer catedrais com restos de utopias, De inventar fé na ausência de deuses, De plantar jardins onde só há códigos e ruínas. Que a minha loucura seja o último abrigo Daquilo que ainda pulsa sob o esquecimento. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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