
Meu avô
Data 22/11/2025 15:27:38 | Tópico: Poemas
| Parei para ouvir dois repentistas, Que davam alma a uma feira camponesa. Ao lado de frutas, verduras e legumes orgânicos, Coisa boa para o corpo, Ofereciam coisas para a alma. Com tudo na ponta da língua, relampeavam as palavras, Desenhavam um quadro do mundo rural. Ali viajei pra minha infância. Senti o vento, vi o baile das árvores, Ouvi os pássaros festejarem o amanhecer. Vi os aboios do meu avô, Que cantava e contava o que via. Ele não sabia apreciar pratos chiques, Degustar Beethoven, Picasso, Camões. Mas não alimentava a alma com alimentos enlatados, Temperados ao gosto de quem perdeu o paladar E de quem só é capaz de sentir quando põe a mão no bolso. Meu avô gostava de pôr os pés no chão, Equilibrar a cabeça, montar e galopar sem se curvar, Sem seguir os ventos que arrastam tudo para o mesmo lugar. Não abria mão de ser dono do próprio nariz. De outro modo, não se sentiria feliz. Aboiava, cavalgava, cantava, contava, escrevia cordéis... Gostava de usar a voz para desatar seus nós. Fazia e refazia os seus papéis. Corria para onde queria, Dentro dos limites que havia. Livre até os ossos... é um sonho ou pesadelo. A verdade também está nesse novelo. Mas meu avô dizia que depois dos filhos e da mulher, Buscar um barquinho de verdade Era o que o mantinha de pé, Para balançar o esqueleto Sem ser balançado, lançado nas ondas Para que a elas responda como o eco à voz. Estando na rede sendo apenas um dos nós Que não amarra nem solta, apenas conecta. Apenas um conector. Isso nunca seria o meu avô. Ele sempre soube onde queria estar. E eu sei que ele está em algum lugar. Apesar das chamadas de vídeo, do envio de áudios... O meu avô gosta de receber cartas. E eu escrevo para o meu avô.
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