Poemas : 

Meu avô

 
Tags:  poesia social  
 
Parei para ouvir dois repentistas,
Que davam alma a uma feira camponesa.
Ao lado de frutas, verduras e legumes orgânicos,
Coisa boa para o corpo,
Ofereciam coisas para a alma.
Com tudo na ponta da língua, relampeavam as palavras,
Desenhavam um quadro do mundo rural.
Ali viajei pra minha infância.
Senti o vento, vi o baile das árvores,
Ouvi os pássaros festejarem o amanhecer.
Vi os aboios do meu avô,
Que cantava e contava o que via.
Ele não sabia apreciar pratos chiques,
Degustar Beethoven, Picasso, Camões.
Mas não alimentava a alma com alimentos enlatados,
Temperados ao gosto de quem perdeu o paladar
E de quem só é capaz de sentir quando põe a mão no bolso.
Meu avô gostava de pôr os pés no chão,
Equilibrar a cabeça, montar e galopar sem se curvar,
Sem seguir os ventos que arrastam tudo para o mesmo lugar.
Não abria mão de ser dono do próprio nariz.
De outro modo, não se sentiria feliz.
Aboiava, cavalgava, cantava, contava, escrevia cordéis...
Gostava de usar a voz para desatar seus nós.
Fazia e refazia os seus papéis.
Corria para onde queria,
Dentro dos limites que havia.
Livre até os ossos... é um sonho ou pesadelo.
A verdade também está nesse novelo.
Mas meu avô dizia que depois dos filhos e da mulher,
Buscar um barquinho de verdade
Era o que o mantinha de pé,
Para balançar o esqueleto
Sem ser balançado, lançado nas ondas
Para que a elas responda como o eco à voz.
Estando na rede sendo apenas um dos nós
Que não amarra nem solta, apenas conecta.
Apenas um conector.
Isso nunca seria o meu avô.
Ele sempre soube onde queria estar.
E eu sei que ele está em algum lugar.
Apesar das chamadas de vídeo, do envio de áudios...
O meu avô gosta de receber cartas.
E eu escrevo para o meu avô.

 
Autor
magnoerreiraal
 
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