
BIOGRAFIA (versão 2)
Data 01/01/2026 23:37:07 | Tópico: Poemas -> Esperança
| Ouvi o vento nas árvores, calado, ouvi o canto dos pássaros ao longe, ouvi a chuva lavando o corpo velado.
Senti o cheiro do afeto e das flores, o cheiro dos bichos, do mato, da terra, o cheiro do esgoto, da vida, suas dores.
Vi o mar, o sol sangrando nas nuvens, vi a semente romper, a árvore erguer-se, vi o dia nascer sem pedir licença.
Comi o lanche de esquina, apressado, comi o fruto no galho, ainda quente, comi a ceia de Natal, convidado.
Corri a pé, de ônibus, de avião, corri dos medos que me alcançaram, corri por correr — e corri em vão.
Dormi na rua, buzinas e luz da lua, dormi no chão, colchão de papelão, dormi como rei no quarto que era meu.
Sonhei acordado, de pé, cansado, sonhei que voava e depois que caía, sonhei ser feliz sem saber porque.
Trabalhei no que o corpo detestava, trabalhei no que a alma me pedia, trabalhei o dobro do que me restava.
Senti a dor, o prazer, ossos partidos, senti o gosto do sangue e da luta, senti a derrota — e venci meus sentidos.
Sofri a escuridão e a ilusão, sofri a espera, o vazio, o abandono, sofri o excesso, o sucesso, a solidão.
Chorei a perda, o adeus, a presença, chorei o riso que nunca chegou, chorei o tempo que foge e não pensa.
Caminhei sozinho, ao léu, ao relento, caminhei com amigos, entre riso e canto, caminhei sem mapa, sem rumo, sem centro.
Amei, fui amado, fui mal compreendido, amei em silêncio, com tudo a perder, amei o impossível — e, por amar, resisti.
Escondi a infância num porão estreito, escondi a alma num cofre com defeito, escondi todas as chaves no meu peito.
Aprendi com o tempo, sem mapa nem norte, aprendi com a queda a me erguer mais forte, aprendi que a vida é acaso e é sorte.
Abracei o medo, me abraçou a morte, abracei a solidão na multidão, abracei o instante — e segui adiante.
Vivi metade da vida, perdida, vivi a chegada sem ver a partida, vivi. Apenas vivi. Essa é a vida.
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